Escócia: e contudo ela move-se

O eleitorado escocês, que já tinha votado largamente no SNP para o parlamento de Edimburgo, perdeu o medo de assumir a pretensão “independentista”.

Os comentadores de esquerda mais aguerridos tendem a explicar o sucesso eleitoral do SNP pelo programa marcadamente de esquerda, com uma forte retórica antiausteridade e com um enorme entusiasmo pelo reforço do Estado social. Tendem mesmo a dizer que este resultado só se percebe pelo contraste que faria com o programa dos trabalhistas e de Ed Miliband, que seria um programa frouxo, ainda muito refém da ressaca da “terceira via” “blairiana”. É patente que se trata de uma má explicação, pois é sabido que os trabalhistas de Ed Miliband, muito embora estivessem à direita do SNP, produziram o manifesto mais esquerdista de que há memória desde Neil Kinnock, procurando dar uma resposta às políticas conservadoras de Cameron por uma via realmente alternativa. Sem sucesso, porém.

A ideia de que o SNP triunfou largamente pelo seu discurso de esquerda, muito socializante, tem também apoiantes no lado direito do espectro político britânico. Num seminário recente que organizei em Bruxelas sobre as eleições inglesas, um deputado conservador classificou o SNP como o “nosso Syriza”. Outros mais moderados, mas no mesmo trilho de compreensão, diziam que o projecto do SNP, que tanto agradava aos eleitores da velha Caledónia, era basicamente um projecto de “escandinavização” da Escócia.

2. Devo confessar que estou em completo desacordo com esta linha de análise. Não custa naturalmente reconhecer que nunca há um factor único ou unidimensional para explicar um resultado eleitoral. E é também conhecido que a Escócia foi fortemente castigada com a progressiva “financeirização” da economia britânica. E que se trata aí de um processo longo, com raízes históricas na obsolescência da economia industrial dos anos 50 e 60 e no enorme impacto que essa degenerescência teve no tecido económico e social daquela nação (designadamente, na outrora fervilhante região de Glasgow). O processo é longo, mas as consequências assaz gravosas, especialmente em sede de apoios sociais, fizeram-se sentir agudamente nos primeiros anos da governação Cameron. O plano de cortes, decididamente seguido pela dupla Cameron-Osborne, teve uma enorme repercussão no já fragilizado tecido social escocês. Note-se, aliás, que o plano de cortes é para continuar, tal como foi abertamente explicado na campanha eleitoral pelo discurso dos conservadores — circunstância que não se pode estranhar, se se pensar que, mesmo depois desse esforço e com um crescimento assinalável, o Reino Unido persiste com um défice público superior a 5%. Em suma, o programa de esquerda do SNP e a sua crítica aos 5 anos de governo da coligação conservadora-liberal terão decerto contribuído para o apuro final das contas eleitorais.

3. Trata-se, a meu ver, todavia, de uma explicação insuficiente e que erra o verdadeiro alvo. Os também impressionantes resultados do referendo de Setembro dão-nos talvez um quadro de compreensão menos imediato, mas mais apurado e mais afinado do processo político em curso nas terras do monstro de Loch Ness. Um dos efeitos do referendo em que estava em jogo uma causa maior, a independência da Escócia foi a perda do receio de abraçar essa causa. O eleitorado escocês, que já tinha votado largamente no SNP para o parlamento de Edimburgo, num contexto puro de autonomia regional e simples devolução de alguns poderes legislativos e executivos, perdeu o medo de assumir a pretensão “independentista”. Uma coisa é votar num partido regionalista para governar uma região; outra coisa é votar num partido independentista para um parlamento nacional de um Estado de que essa região faz parte. E outra coisa, ainda diferente e mais além, é votar nesse partido independentista, escassos meses depois de ele ter conduzido uma campanha, largamente bem sucedida, pela independência num referendo organizado para o efeito. Quem julgar que o voto no SNP é um puro voto ideológico e não contém em si a aspiração de retomar, mais tarde ou mais cedo, o processo de autodeterminação escocesa não terá percebido o movimento que está em marcha. Se se tratasse de exprimir apenas uma pulsão ideológica, o voto nos trabalhistas de Miliband seria perfeitamente adequado. Como se disse, o seu manifesto era o programa mais à esquerda dos últimos 25 anos e o líder trabalhista era o único que estava em posição de eventualmente destronar o diabolizado Cameron. Que sentido fazia penalizá-lo ou castigá-lo, ainda por cima sabendo por antecipação que Miliband não faria qualquer aliança com o SNP (justamente por causa da aspiração secessionista)?

4. O que os escoceses quiseram significar com o seu voto é que a questão da autodeterminação não se esgotou no referendo de 2014; provavelmente, como aliás sempre pensei, só aí começou. O tema económico e aquela idealização de trazer para a Escócia o modelo escandinavo não estão desligados da aspiração à independência. Na verdade, alimenta-se da veleidade simplista de que uma Escócia soberana seria a única beneficiária do petróleo do mar do Norte e podia converter-se numa pequena Noruega.

Ninguém pense que este facto passou despercebido em Barcelona ou em Vitória-Gasteiz. Vai haver eleições na Catalunha em Setembro e eleições gerais na Espanha em Novembro. Os processos não pararam. Portugal continua com os seus dois principais aliados europeus, Reino Unido e Espanha, em tensão geopolítica interna. Não podemos continuar inertes.    

SIM e NÃO

SIM. Silva Peneda. Acaba de sair da presidência do CES, é justíssimo reconhecer a qualidade e imparcialidade da sua liderança: puro serviço público. E agora estará em Bruxelas numa posição-chave para nós e para a União.

NÃO. Ministério da Educação. A obsessão dos ministros da 5 de Outubro com o acordo ortográfico é incompreensível. Portugal avança compulsiva e orgulhosamente só. Com desvantagens, sem vantagens.

Eurodeputado (PSD)