Eucaliptos atraem quase 90% dos investimentos privados na floresta

Oito em cada dez hectares de floresta plantados sem recurso a fundos públicos tiveram como destino os eucaliptos. A liberalização das plantações e replantações está a dar fôlego à espécie que já domina a floresta nacional.

Eucalipto começa a gerar receitas dez anos após a plantação
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Eucalipto começa a gerar receitas dez anos após a plantação Daniel Rocha

Oitenta por cento das novas plantações e 94% das replantações produzidas na floresta portuguesa ao longo dos últimos 15 meses sem recurso a ajudas públicas tiveram os eucaliptos como a árvore de eleição.

A espécie florestal que no espaço de meio século cresceu de uma área reduzida de 50 mil hectares para se tornar na árvore dominante no país (ocupa 812 mil hectares) continua a sua expansão imparável. E ao simplificar o processo de aprovação de novas plantações e ao permitir a mudança de espécie nas rearborizações de espaços florestais, o novo regime jurídico que entrou em vigor em Outubro de 2013 parece favorecer essa expansão: dos 11.019 hectares arborizados ou rearborizados com capitais privados nos 15 meses de vigência da nova legislação, 10.046 receberam eucaliptos.

Só o facto de os apoios à florestação da Política Agrícola Comum se dirigirem prioritariamente a espécies como o pinheiro manso ou o sobreiro evitam que a floresta nacional caminhe irreversivelmente para a monocultura.

Apesar do curto prazo de aplicação do regime jurídico aplicável às acções de florestação e reflorestação (RJAAR), parece hoje evidente que a liberalização das plantações em áreas até 10 hectares (a maioria esmagadora das explorações florestais nacionais está abaixo deste limiar) está a acentuar a hegemonia do eucalipto e a decadência do pinhal. As razões para esta dinâmica prendem-se com a maior rentabilidade do eucaliptal para os proprietários. O eucalipto começa a gerar receitas após 10 anos da primeira plantação e a sua exploração (em talhadia) permite que um mesmo povoamento dure ao longo de quatro ou cinco ciclos de corte (48 a 60 anos). Um pinhal demora 30 anos a produzir madeira capaz de ser utilizada na indústria do mobiliário.

Muitos silvicultores defendem que a prioridade da fileira do eucalipto não é tanto aumentar a área, mas reconverter povoamentos existentes. Os números do RJAAR indicam que esse caminho está a ser seguido. Dos 7326 hectares rearborizados, a esmagadora maioria (79%) corresponderam a replantações de áreas já ocupadas por eucaliptos. Mas pelo caminho, outras espécies acabam por ser substituídas. Em particular o pinheiro-bravo, base de uma indústria que representa 47% do valor acrescentado bruto da fileira florestal (812 milhões de euros em 2012). Neste processo de mudança, 1165 hectares deixaram de ser dedicados ao pinheiro bravo para passarem a ser ocupados pela espécie que alimenta a cadeia da pasta e do papel.

Este sinal é apenas mais um sintoma do inexorável recuo do pinhal português, que no espaço de 50 anos se reduziu de 1,2 milhões de hectares para cerca de metade. João Gonçalves, do Centro Pinus, que agrega mais de dois terços da fileira industrial do pinho, considera que “ainda é cedo” para se poder explicar as transferências de áreas de pinhal com a nova legislação. Mas nota que “64% da área de crescimento do eucalipto se fez zonas de pinho e não em zonas de mata ou incultos”. A transformação em curso, sublinha João Gonçalves, vai agravar as dificuldades da indústria, que tem de importar todos os anos dois milhões de metros cúbicos de madeira para laborar – 36% das necessidades das empresas do Centro Pinus.

Do lado da pasta e do papel, os indicadores da execução do RJAAR não suscitam motivos para alarme. Armando Gois, director-geral da Celpa, a associação que agrega a indústria do sector, nota que o crescimento das áreas de eucalipto feito com investimento privado tem de ser balanceado com as áreas de outras espécies financiadas pelos fundos comunitários. Se este exercício se fizer, nota, “a percentagem dos eucaliptos nas arborizações e rearborizações desce para 44%” – o sobreiro surge com 31% do total e o pinheiro manso, cuja rentabilidade explodiu com o aumento da procura mundial de pinhão, 12% (ver infografia). De resto, “é provável que o ritmo de crescimento dos últimos tempos seja menor do que nos anos anteriores”, admite Armando Góis.

Apesar do equilíbrio que os fundos estruturais vão introduzindo na diversidade florestal, o risco de a expansão do eucalipto se perpetuar é elevado e o perigo de a área de pinho continuar a regredir (por abandono, pelos ataques de pragas como o nemátodo, pelos incêndios ou pela replantação com espécies mais rentáveis como o eucalipto) existe. João Soveral, um silvicultor que passou pela vice-presidência do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e integra os corpos técnicos da CAP reconhece que a “natural” orientação dos proprietários para os estímulos do mercado existe, mas afirma que “os instrumentos da política florestal não permitem” o eventual cenário de uma monocultura de eucalipto.

João Soveral cita a propósito a Estratégia Nacional para as Florestas aprovada em Fevereiro deste ano ou os Planos Regionais de Ordenamento Florestal (PROF). Estes planos prevêem mecanismos de gestão que, em tese, implicam a diversidade de povoamentos em favor da biodiversidade ou da protecção contra os incêndios. Mas foram suspensos há anos e não se conhece a data em que a sua versão revista possa entrar em vigor. A ausência de ordenamento conjugada com a liberalização das plantações vai por isso acentuar ainda mais o processo de “eucaliptização” em curso no país.

O PÚBLICO tentou sem sucesso obter resposta a estas questões junto do Ministério da Agricultura.