Greve de professores deixou 5% dos alunos sem teste de Inglês

Um quarto de hora antes de os alunos entrarem nas salas o Iave abriu uma excepção ao rigor exigido na preparação da prova que, ainda assim, não se realizou em 2% dos agrupamentos de escolas. O teste não conta para a avaliação.

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Mais de 121 mil alunos realizaram, no final de Abril, o teste de diagnóstico concebido pelo Cambridge English Language Assessment Adriano Miranda

A mensagem enviada pela Direcção Geral dos Estabelecimentos de Escolares “a pedido do presidente do Iave” apanhou de surpresa os directores. Porque o e-mail chegou 15 minutos antes da entrada dos alunos nas salas do teste, que ocorreu às 13h45 e porque até esta quarta-feira o Iave tem insistido na necessidade de as escolas cumprirem um regulamento e um manual de procedimentos minucioso. Isso tem sido justificado com a necessidade de garantir a certificação do nível de proficiência de Inglês de cada aluno pelo Cambridge English Language Assessment, já que o teste é diagnóstico, não contando, por isso, para a avaliação dos estudantes. 

No comunicado divulgado ao fim da tarde, o Iave lamentou a situação criada pela greve dos professores. Já os directores criticaram a opção do Iave. “Esta tarde tive de mandar para casa todos os alunos do 5.º e do 7.º ano, para poder cumprir com rigor, como em qualquer exame, o que estava determinado e que, pensava eu, era a sério”, sublinhou o presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE), Manuel Pereira, que se disse "chocado" com a situação. Na sua perspectiva, ao permitir que o teste fosse vigiado por apenas um professor por sala, algo nunca visto em qualquer exame, “o Iave colocou em causa a credibilidade de um teste que tem envolvido o esforço de milhares de pessoas". Filinto Lima, vice-presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ADAEP) considerou a situação “insólita” e "anormal".

O manual de procedimentos para a realização do teste chega a determinar ao centímetro a distância devem estar as mesas, a contar do ponto central, na sala de aula; e indica, literalmente, o que os professores vigilantes devem ler em cada momento do teste, como por exemplo: "Não abra já o enunciado. Leia apenas as instruções que constam do enunciado e das folhas de resposta".

Em nota enviada ao PÚBLICO, o Iave informou que apesar de o regulamento e o manual terem sido infringidos, nalguns casos, devido à presença de apenas um professor na sala, os alunos que tiverem pedido o certificado irão recebê-lo. Aos que não conseguiram fazer a prova devido à greve o dinheiro já entregue será devolvido, adiantou. O pedido do certificado, com um custo de 25 euros, foi opcional para os alunos do 9.º ano, para os quais a prova foi classificada como obrigatória. Os alunos de outros anos de escolaridade (4000) tiveram de pedir o certificado que ficou a 12,50 euros para os alunos do escalão B da Acção Social Escolare é gratuito para os do escalão A. 

Na EB 2,3 Eugénio de Castro, em Coimbra, foram poucos os que pediram o certificado. "É demasiado caro para o nível de Inglês que certifica", concordaram, no fim do teste, Gerson e Francisco, que têm a avaliação de 5 valores (em cinco) na escola e acreditam que acertaram "perto de 100% das questões" do Preliminary English Test for Schools (PET). Beatriz saiu da sala menos confiante e, principalmente, irritada: "Nunca mais acabava! Eu com três testes para a semana e em vez de estar a estudar o que interessa passei a tarde fechada a fazer uma coisa que não serve para nada!", protestou. Tal como Ana e a quase totalidade dos alunos daquela escola (faltou um), Beatriz foi fazer a prova apesar de saber que não sofreria qualquer penalização se faltasse. "Viemos por causa da s'tôra, que não concorda com o teste mas diz que devemos dar o melhor", confirmou Beatriz e o grupo de meninas que a acompanhava.

Quando a campainha assinalou o final do teste lá estava a "s´tôra", Zélia Machado: “Correu bem?” Explica que faz questão de que os alunos percebam que quando “fazem alguma coisa é para levar a sério”, mas avisa que se tivesse sido chamada para fazer serviço de vigilância teria optado pela greve. “Se querem fazer um exame a nível nacional façam-no. O que não falta em Portugal são professores preparados para isso”, afirmou, criticando a opção do Ministério da Educação e Ciência pelo Cambridge.

Zélia Machado também não foi indicada pela direcção da escola para integrar o grupo de cerca de 2500 professores classificadores do PET, que tiveram de participar em acções de formação e aos quais, num primeiro momento, o Iave chegou a exigir que fizessem prova dos seus conhecimentos. “Com 38 anos de serviço era só mesmo o que me faltava”, comentou.