Reportagem

“Se hoje ficasse em casa, quando é que poderia voltar a sair?”

Famílias, jovens, grupos de amigos de todas as idades, franceses oriundos de todas as partes. Trouxeram cartazes a lembrar as vítimas e a liberdade de expressão. Depois de dias “angustiantes, traumatizantes”, precisaram de “estar juntos”.

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Alice veio para França aos 17 anos e já tem 51. “Nunca me senti tão francesa como hoje. Acho que nunca gostei tanto da França”, diz esta empregada de limpeza que marchou da Praça da República até à da Nação com amigos portugueses vindos de Marne, um dos departamentos que circundam Paris. “Depois destes dias, é muito importante sentir este calor. É uma espécie de aquecedor, estávamos todos a precisar disto.”

O grupo de amigos fala durante uma paragem a meio da Avenida Voltaire, uns três quilómetros que este domingo centenas e centenas de milhares de pessoas demoraram horas a percorrer. Perto de um milhão e meio desfilou em Paris (em toda a França terão sido quatro milhões), cada um fez o caminho como pôde, pela Avenida Voltaire, pelas ruas circundantes.

Chegar à Praça da República já foi difícil. As carruagens de metro estavam cheias como nem nas horas de ponta. Sair ainda foi pior.

Perto da hora marcada não era possível dar um passo. “Estamos condenados a ficar juntos”, brinca Paul, um manifestante. A marcha das dezenas de líderes de Estado e de governo que vieram associar-se aos franceses demorou uns 40 minutos e atrasou a saída da praça uma hora e meia. Atrás dos políticos marcharam os sobreviventes do Charlie Hebdo, ao lado dos familiares de todas as vítimas dos últimos dias. Ninguém se importou. Em cima da estátua da República, como nas noites anteriores, jovens gritavam slogans, cantavam o hino ou pediam minutos de silêncio. “Quem é que vocês são?”, gritavam, à espera da resposta: “Somos Charlie.”

Na cabeça da manifestação, um homem aproxima-se de um dos polícias que forma o cordão antes de deixar a multidão avançar e abraça-o. “Eu sou Charlie, eu sou judeu, eu sou chui”, escreveram muitos em cartazes, numa tarde onde se gritou vezes sem conta “viva a polícia” e se aplaudiu cada grupo de agentes mobilizado para proteger o percurso.

Enquanto se esperava, cantou-se, gritou-se, aplaudiu-se – “É para termos menos frio”, diz Diana, 50 anos, nascida no Uganda, que veio com a filha e os netos, 12 e 9 anos, todos nascidos em França. “Estamos aqui para defender a liberdade de expressão de todos e condenar a violência destes criminosos”, diz. “Os pequenos nunca se tinham manifestado mas pensámos que era importante trazê-los.” Eric, 12 anos, pára por momentos de treinar a irmã nas contas de multiplicar: “Viemos à marcha para lutar contra a violência. Por causa destes homens doidos que mataram estas pessoas.”

“Nunca vi nada assim”, diz Anne, jovem parisiense de 19 anos que se perdeu dos amigos ainda antes do início da marcha, decidida a prosseguir. Este foi o dia em que ninguém se sentiu sozinho.

Lágrimas e risos
Rennée, professora de ioga de 69 anos, nunca tinha participado em nenhuma manifestação. “É a minha maneira de defender a liberdade, de homenagear todas as vítimas dos últimos dias.” As 12 do atentado de quarta-feira contra a redacção do jornal Charlie Hebdo, caricaturistas, jornalistas, polícias; a jovem polícia municipal assassinada a tiro no dia seguinte por um dos suspeitos; os quatro judeus mortos no ataque à mercearia kosher de sexta-feira. “Os franceses são capazes do pior e do melhor. Isto é o melhor de nós.”

Um grupo forma um comboio e tenta atravessar a multidão compacta; a líder grita: “Vincent! Vincent! Se alguém o encontrar, tome conta dele. Ele não conhece Paris.” Houve lágrimas mas também risos, muitos.

“Não podia ser de outra maneira, pois não?”, diz Emile, empregada de hotelaria de 35 anos que trouxe um cartaz onde escreveu “Um belo dia para salvar a liberdade”. “Temos de tomar conta da nossa liberdade e da nossa democracia. O direito a rir é muito importante. E eles [as vítimas do Charlie Hebdo] iam gostar de nos ouvir rir.”

A marcha pelas vítimas, anunciada logo na quarta-feira pelo conjunto dos partidos de esquerda, acolheu todos os que fazem de Paris a sua casa. Agitaram-se bandeiras curdas e ergueram-se cartazes com um texto de Charb, o director do jornal satírico assassinado, de apoio a Kobani, a cidade síria curda que os jihadistas do autoproclamado Estado Islâmico tentam capturar há meses. Viram-se dezenas de bandeiras berberes, bandeiras iraquianas, israelitas, lenços palestinianos, bandeiras do Brasil, do Canadá, de Itália, do Líbano, da Tunísia, da Argélia, do Gabão…

Veio o Conselho Nacional da Resistência Iraniana, um grupo da oposição exilado em França. “Estamos aqui para dizer que estes ataques não têm nada a ver com religião, são fruto do fundamentalismo. E uma das raízes do fundamentalismo e da agressão é o regime fascista do Irão, que financia o terrorismo. A solução é apoiar os democratas e defender os direitos humanos”, afirma Dowlat Norrouzi, membro do conselho, provocando aplausos entre os que a ouvem.

Charlie e o Boko Haram
“Gosto de humor, não gosto de sátira, mas aqui estou eu, Charlie”, escreveu Marine, parisiense de 43 anos, no cartaz que preparou para este domingo. “É isso que quero dizer. Os desenhos podem ofender, mas não matam. Eu não gostava do jornal, mas quem fez isto não é gente, são animais.” A maioria dos que marcha não lia o Charlie Hebdo. A portuguesa Alice nunca tinha comprado. “Agora tornei-me assinante, quero ajudá-los a continuar”, explica.

Alain, 52 anos, parisiense com pais nascidos no Senegal, veio sozinho com um cartaz onde se lê “Eu sou Charlie, eu sou as 200 meninas franceses raptadas pelo Boko Haram”, o grupo islamista radical que aterroriza a Nigéria. “Pensei em vários sítios onde todos os dias se sofre o horror que nós experimentámos esta semana. E lembrei-me destas alunas, destas meninas que não podem falar e não têm quem fale por elas.”

Joelle Varvan, empresária de 55 anos, está com amigos e com os filhos destes. “Viemos para exprimir a nossa união na diferença, a nossa liberdade”, diz. “Estou muito contante por estarmos todos juntos, ateus, católicos, judeus, muçulmanos. Hoje estou feliz e optimista. A seguir ao 11 de Setembro pensei que fôssemos mudar e, afinal, vieram invasões, guerras. Agora, volto a ter esperança, quero acreditar que estes ataques vão aumentar a solidariedade, a vontade de nos conhecermos.”

A pior semana
Fatiha, 43 anos, e o seu marido, Lalaredj, 60 anos, franco-argelinos, partilham a esperança de Joelle. “Somos muçulmanos, queremos defender a nossa liberdade, a liberdade de todos”, diz Lalaredj.

“Foram dias angustiantes, traumatizantes. Perceber que podemos estar aqui todos juntos é muito bom”, afirma Fatiha, que trabalha numa escola com crianças deficientes e conta que tem tentado explicar-lhes o que se passa. “A televisão está sempre ligada, é preciso colocar palavras nas imagens, fazê-las falar sobre o assunto, por mais difícil que seja”, diz. “Nunca me senti tão mal como durante esta semana”, afirma ainda o marido. “Foi uma semana muito triste num país de liberdade.”

“O meu coração árabe chora”, diz um cartaz erguido por Omar, filho de pais marroquinos. “Estes dias chorei muito. Nada explica o que aconteceu aqui. Em Marrocos, não há liberdade de expressão. Aqui sim. E vai continuar, é por isso que estamos todos aqui, franceses de todas as origens.”

Isabel, 44 anos, está no meio da avenida e agita uma enorme bandeira portuguesa. “Estou contente por ver tanta gente, por estarmos todos aqui unidos. Vim por mim, por Portugal, pelos meus colegas, muitos portugueses, mas também muitos vindos do Magrebe”, explica a portuguesa, administrativa numa delegação do Ministério da Educação.

A portuguesa que chegou a Paris aos dez anos vive em Seine-Saint-Denis, a nordeste de Paris, o município com mais imigrantes em todo país. “É o departamento 93, onde ninguém quer viver. Toda a gente acha que é horrível, mas quem lá vive sabe que não é verdade”, afirma. Depois, recorda a primeira vez que se manifestou. “Tinha chegado há um ano com os meus pais. Aqui mesmo, foi a primeira avenida onde me manifestei. Tinha 11 anos e aconteceu a revolução em Portugal.”

As pessoas acordaram
Há quem tenha vindo dos arredores e há pessoas que desde quarta-feira estiveram todas as noites na Praça da República, transformada num local de homenagem às vítimas horas depois do ataque à redacção do Charlie Hebdo.

“Vivo na Bastilha, perto do jornal. No próprio dia vim para a República, foram dias carregados de emoções”, diz Silvie, de 55 anos, administrativa. “Temos a impressão de estarmos todos a dormir. Há a crise, o desemprego, cada um ocupado com os seus problemas. Mas ainda há muitos valores, as pessoas acordaram, saíram à rua.”

Lea tem 20 anos e veio com o pai e um grupo de amigos de Fontainebleau, um município nos arredores da capital. “Vim por tudo o que se passou e também por causa das confusões que alguns querem criar. Na minha zona oiço pessoas que culpam os muçulmanos, o que é ridículo. Nenhuma religião manda matar, nenhuma religião promove a violência”, diz a jovem, que quer ser animadora social. “Tenho amigos que não vieram por terem medo. Se hoje ficasse em casa, quando é que podia voltar a sair? Se não viéssemos hoje, estávamos condenados a nunca mais sair.”

Contra o fanatismo
No passeio central da Praça da Nação, onde, apesar do cansaço e do frio, centenas de pessoas se deixam ficar depois do fim da marcha, há quem deixe os seus cartazes encostados às árvores, quem acenda velas e escreva mensagens de homenagem às vítimas.

“Porque não aceitamos o fanatismo e a violência, porque defendemos a democracia e o Estado de direito, porque a liberdade de expressão é um dos bens mais preciosos que conquistámos, queremos viver juntos. Somos Charlie”, lê-se numa faixa erguida por três amigas. “Tudo isto é demasiado grande, demasiado importante e mais forte do que qualquer acto de violência”, explica Pauline, 27 anos, a autora do texto. “Houve pessoas que combateram por estas liberdades antes de nós. E eu penso que temos de continuar juntos, centrados nestas ideias. Se não acreditarmos que toda a gente tem um fundo bom, então nada vale a pena”, diz a jovem, que trabalha como empregada de mesa, mas está a acabar o curso de Direito.

“Acho que mudámos nestes dias. E tivemos necessidade de vir aqui partilhar o que temos sentido com pessoas que nem conhecemos”, afirma Pauline. Ao lado das jovens há cartazes abandonados na relva. Num deles, alguém desenhou Maomé, barba e turbante, rosto cerrado. A frase: “Também ele chora.”