A pergunta “legítima” sobre o BES que vale três mil milhões de euros

Sikander Sattar, Presidente da KPMG Portugal, que auditou as contas do BES e da sua filial de Angola, preferiu não responder a João Galamba quando este lhe perguntou se foi a resolução que causou o buraco de 4,6 mil milhões no BES.

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João Galamba terminou a sua intervenção, na primeira ronda de perguntas a Sattar, colocando em cima da mesa várias interrogações: "A 30 de Julho bastaria uma injecção de 1500 euros para o BES continuar a operar? E, três dias depois, após a divisão do BES em dois [BES tóxico e Novo Banco], passou a ser necessário 4600 milhões? Podemos concluir que foi o modelo de resolução que destruiu a garantia de Angola?" O responsável da KPMG respondeu: "A sua análise é legitima, compreendo-a, mas não posso responder a ela."

O deputado do PS persistiria, na terceira ronda, já depois das 19 horas, dez horas depois do início das audições, neste ponto. “Estas são perguntas, para nós da maior importância, para percebermos os contornos da decisão que acabou por ser tomada”. De facto, o tema tem dominado, até agora, os trabalhos da comissão. E já mostrou importantes clivagens entre os principais intervenientes neste processo: Vítor Bento, Maria Luís Albuquerque e Carlos Costa todos têm uma versão sobre o que teria sido a melhor solução para os problemas do banco - se uma resolução, como a que aconteceu (e que a ministra defende), ou uma recapitalização. 

Da audição de Sattar, outro ponto ressaltou: Angola. "Confirma que no final de 2013, sem a garantia estatal angolana dada ao BESA, o BES era um banco falido?"- Sattar alegou não poder comentar “contas que não existiram na altura”: “O que posso dizer é que a garantia era válida."

"Se Angola não era um problema no final de 2013, não era um problema em Janeiro de 2014, em Abril, em Julho, porque é que subitamente na medida de resolução o BES é obrigado a provisionar a 100% a exposição ao BESA, ainda com a garantia angolana válida?", continuou a questionar Galamba: "O que posso dizer é que não fui responsável por essa decisão", afirmou Sattar.

O auditor, que veio acompanhado por vários assessores, recusou detalhar informações sobre a filial angolana, mesmo após assumir que ele próprio, afinal, também era presidente da KPMG Angola. 

"Quando se pergunta onde andaram os auditores externos, ficou demonstrado que a KPMG andou a detectar, a verificar, a quantificar e documentar para que os efeitos dos actos fossem devidamente reflectidos nas contas", concluiu Sattar, para quem “havia uma boa articulação e confiança entre o BES, o seu presidente Ricardo Salgado, o BdP e a KPMG”.

Às 20.19 a audição do auditor prosseguiu, à porta fechada, sem jornalistas presentes, para que Sattar prestasse os esclarecimentos que considerou abrangidos por 'segredo profissional', enquanto responsável da KPMG Angola.