Dez pessoas contam como suportaram três orçamentos muito duros

Portugueses de diversas áreas profissionais e com diferentes situações laborais contam como (sobre)viveram nos três últimos anos de austeridade.

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“Não posso estar a tirar comida à boca dos meus filhos. Eu muitas vezes tiro da minha”, confessa Paula Pinto Nélson Garrido
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António Correia perdeu 33% do rendimento com passagem à reforma, sem contar com o que veio depois Nuno Ferreira Santos
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Hélio Morais, 34 anos, é baterista nas bandas Linda Martini e PAUS Dário Cruz
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Júlia Araújo tem 51 anos e trabalha desde os 11 Fernando Veludo/NFactos

Há sorrisos, mas também muitas dores nestes retratos de dez portugueses e do que mudou nas suas vidas com os últimos três orçamentos.

“É fácil atacar os reformados. Se fizerem greve, não há problema”

António Correia, 69 anos
Cascais

Considera que teve uma vida profissional “estimulante” e “intensa” e só se reformou em 2008, aos 63 anos, por uma razão: “Fiz simulações e constatei, face à fórmula de cálculo que estava em vigor, que quanto mais tempo ficasse a trabalhar piores seriam as condições para me reformar.” António Correia, hoje com 69, é economista, ex-funcionário numa empresa privada do sector da construção. Quando se lhe pede um testemunho sobre como viu a sua vida afectada pela austeridade dos últimos Orçamentos de Estado, apresenta gráficos de barras e cálculos. Vício profissional, provavelmente.

Contas, então: do último salário que recebeu, em Dezembro de 2008, para o primeiro mês de reforma, em Janeiro de 2009, viu o seu rendimento baixar 33%. É mau, mas com isso contava; o que não podia prever era o resto — cresceu e envelheceu a pensar que a pensão, para a qual contribuiria com 44 anos de descontos, era uma coisa garantida, “como um depósito no banco, uma propriedade”.

O valor líquido da sua pensão baixou todos os anos — primeiro pouquinho (menos 2% num ano, menos 3% noutro), mas em 2013 já recebia apenas 81% do que em Janeiro de 2009. E isto tendo em conta, apenas, sublinha, “a conjugação da Contribuição Extraordinária de Solidariedade com a sobretaxa do IRS”.

Claro que há casos piores, diz António, um dos dinamizadores do núcleo da Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados em Cascais. Prefere não revelar o valor da sua reforma, mas diz que, tendo sido obrigado a readaptar a sua vida — “travão a fundo nos jantares fora, na compra de livros, nos fins-de-semana, nas férias...” —, não passa dificuldades. “Adaptei-me.” Mas diz que conhece quem se revolte por, ao fim de uma vida de trabalho, não conseguir manter um padrão com o qual contava.

“Quando uma pessoa pede a reforma, os encargos mantêm-se, ao contrário do que por vezes se pensa: há que pagar a habitação, os transportes, a saúde — e com a idade é natural que os gastos com a saúde aumentem. E, por vezes, é ainda preciso dar apoio aos filhos e aos netos.”

O suposto fim da CES de que se tem falado, para 2015, alivia-o. Mas na verdade defende mais: o fim da sobretaxa do IRS. Teme, contudo, que os reformados continuem a ser um alvo. “Atacar os reformados é o mais fácil. Se fizerem greve, não há problema nenhum.” Andreia Sanches

A funcionária pública não vê isto risonho, mas não se deixa vencer

Mariana Vieira, 55 anos
Almada

Na casa de Mariana Vieira vivem dois funcionários públicos. Têm sentido na pele, como a maioria dos portugueses, o aumento da carga fiscal, a que somam os cortes impostos à função pública desde 2011. Com um salário abaixo dos 1500 euros brutos, Mariana ficou a salvo dos cortes nas remunerações, mas o marido, que é guarda prisional, estima que tenha perdido à volta de 300 euros por mês.

De 2012 para cá teve de ajustar a sua vida ao rendimento disponível. A viver em Almada, o carro passou a ficar à porta e, durante a semana, usa os transportes públicos. Com uma doença crónica, Mariana conta que perdeu a isenção nos hospitais públicos, mas, como tem ADSE (o subsistema de saúde da função pública), passou a utilizar os serviços particulares, embora muitos dos exames não sejam comparticipados.

Para fazer face aos últimos três anos, decidiu arrendar a casa que tinha no Ribatejo, aonde ia ao fim-de-semana e nas férias. Na mercearia, em vez de um quilo, passou a trazer apenas três ou quatro maçãs.

Mas não são estes ajustamentos na sua vida que a revoltam. “Não me deixo vencer, mas sei que provavelmente o futuro não é risonho”, diz pelo telefone. O que a preocupa “é ver que o país está pior e sem rumo”. Como trabalha num serviço da Segurança Social, tem uma percepção muito próxima da realidade e dos problemas, que vê com uma dimensão que nunca imaginou possível. É por isso que não estranha que muitos jovens e “menos jovens” tenham de sair do país, como aconteceu com a filha, que entretanto regressou, mas deixou o marido no estrangeiro.

Critica o estado a que a administração pública chegou e que desanima os funcionários. Acha que o Governo devia ter investido numa reforma séria do Estado, “em vez de ter posto os trabalhadores a pagar, do seu bolso”, as ineficiências e os erros. No caso da Segurança Social, receia que as anunciadas reestruturações tragam más notícias. Apreensiva quanto ao próximo ano? “Já estou numa idade em que estou por tudo. Mas coisa boa não vem aí”, responde. Raquel Martins

Apesar dos mais de 40 anos de trabalho, no final no mês recebe o salário mínimo

Júlia Araújo, 51 anos
S. Mamede de Infesta, Matosinhos

Júlia Araújo tem 51 anos e trabalha desde os 11. Já foi ama e empregada doméstica, mas é sobretudo em fábricas que tem trabalhado. “Estou há 26 anos numa confecção de lingerie em Ermesinde. Sou revistadeira, ou seja, quando as peças vêm das costureiras, vejo se está tudo bem e se pode ser embalado, para não chegar com defeitos às clientes”. Na prática, certifica a qualidade do produto, “mas o contrato é de revistadeira, para o salário ser mais baixo”, explica. Apesar dos mais de 40 anos de actividade, no final no mês recebe o ordenado mínimo. Pela primeira vez, no final de Outubro, com o aumento de 20 euros, receberá mais de 500 euros.

Para Júlia, os cortes dos últimos três anos não trouxeram impactos directos no seu rendimento, mas o desemprego temporário do marido e os trabalhos precários do filho “pesam” no orçamento da família. “Era uma firma que pagava acima da média, mas depois nunca mais houve aumentos. Posso até dizer que há dez anos recebia mais. Agora não pagam horas extraordinárias e os sábados já não são pagos a triplicar. Isso fazia muita diferença e dava-nos outro ânimo”, conta.

Já o ambiente de trabalho, esse, sim, foi afectado. Júlia nunca se atrasou na chegada à fábrica e sabe que, se isso acontecer, há um preço. “Se me atrasar um minuto que seja a passar o cartão às 8h, tiram-nos logo os 3,25 euros de subsídio de alimentação, e isso faz muita diferença”, conta.

O sentimento é geral, mas o medo de perder o trabalho “não permite a união” com as colegas, diz. “As pessoas agora metem o rabinho entre as pernas e fazem tudo o que o patrão quer. Temos medo de ir para o desemprego”, explica a também delegada sindical, que atribuiu a esta situação “pressões para aumentar a produtividade”. “Até um microondas para aquecer as marmitas pagámos do nosso bolso, porque ninguém quer confrontos com o patrão”, lamenta. Romana Borja-Santos

Sendo músico e trabalhador a recibos verdes, já estava preparado

Hélio Morais, 34 anos
Lisboa

Baterista nas bandas Linda Martini e PAUS, igualmente agente destes últimos, dos Capitão Fausto, You Can’t Win Charlie Brown e do guitarrista Filho da Mãe, confessa ter tido sorte. “É estranho, mas tenho vivido melhor nestes anos de austeridade. Foi uma feliz coincidência”. É a consequência de os últimos anos terem sido aqueles em que os Linda Martini se tornaram uma das mais celebradas bandas nacionais e os PAUS um fenómeno. Porém, para “outros músicos, artistas plásticos, amigos ligados ao cinema, a situação é desesperante”. Com o tempo dividido entre os ensaios, as gravações, os concertos e a actividade de agente, sabe que tirar férias é uma impossibilidade (“consigo gerir o tempo para tirar uma manhã, por exemplo, mas mais que isso é complicado”). E desde que percebeu que, afinal, era possível viver da música, aprendeu a organizar-se. “Tive mesmo que aprender a disciplinar as finanças, porque o dinheiro que tenho no final de Outubro tem que dar até Março” (no período intermédio rareiam os concertos, as digressões, os festivais). Teve que aprender mais: “A ser ágil e muito conhecedor da legislação, caso contrário estamos constantemente a ser enganados pelo Estado”. Trabalhador a recibos verdes, queixa-se do “absurdo” de “uma taxa fixa” a ser paga mesmo em meses em que os rendimentos são inexistentes.

Enquanto músico, enquanto trabalhador a recibos verdes, austeridade era palavra já conhecida antes de se tornar oficial. Mário Lopes

Como viver com 300 euros de abono e RSI e dois filhos?

Paula Pinto, 45 anos
Porto

Era sexta-feira. Paula Pinto levou o filho mais novo à escola e foi “a uma senhora”. Ela tem muita idade. Precisa de quem olhe por ela de dia e de noite. Paula ia esperançada. Tanto jeito que lhe dava trocar os dias por um salário decente. Saiu desgostosa. Como podia entrar às 9h e sair às 19h30? Iria o filho de 11 anos buscar o de 6 e ficariam sozinhos em casa até às 20h?

“Nunca pensei viver com 220 euros por mês”, suspira a mulher de 45 anos, que naquela manhã se arranjara para impressionar. “Como viver com 220 euros de Rendimento Social de Inserção [RSI] e 80 de abono? É preciso ter muita paciência, muita calma, para pensar, para analisar, como pagar luz, pagar água, comer todos os dias. São crianças. Não posso estar a tirar comida à boca dos meus filhos. Eu muitas vezes tiro da minha! Há pouco tempo fui fazer análises de rotina, e fui a ver e estou com anemia.”

Anda nisto três anos, desde que se separou do companheiro. Assinou um contrato de inserção, como qualquer titular de RSI, mas, segundo afiança, nunca a chamaram para formação ou emprego. “Sinto-me cada vez mais revoltada. Todos os dias penso que vou conseguir…”

Já lhe cortaram a prestação por três meses. “Cortaram-me só porque arranjei um trabalho a fazer uma hora e meia. Eu ganhava 130 euros e eles tiraram-me o RSI na totalidade. Fui à Segurança Social e eles disseram: ‘Arranjou emprego, está a fazer descontos’. Eu disse: ‘Mas é uma hora e meia! Não posso viver com uma hora e meia de trabalho!” Que incentivo ao trabalho era aquele? Já não está lá, de qualquer modo. Começava às seis da manhã. Às vezes, pediam-lhe que ficasse até mais tarde. “Estavam a aproximar-se as 8h30 e eu não estava em casa para levar o mais pequenino à escola!”

O RSI é o grau zero da protecção social. Nem se destina a quem vive na pobreza. Destina-se a quem vive na pobreza extrema. “É um valor ridículo, ridículo”, torna a suspirar. Se ela ganhasse 285,05 euros por mês, a limpar escadas ou outra coisa qualquer, não receberia um cêntimo.

Não pode receber o máximo previsto por lei — os tais 285,05 euros (178,15 euros por adulto e 53,44 por criança). A fórmula de cálculo não permite. Descontam-lhe 15,45 por ter habitação social e 50 euros por receber pensão de alimentos. Não recebe pensão de alimentos, na verdade. A sogra pediu-lhe que, “por amor a Deus”, não levasse o filho dela, o pai das crianças, a tribunal, que ela a ajudaria a criá-los, conforme pudesse. E tem ajudado. Não fosse isso, Paula já teria perdido a tal paciência.

A apregoada ajuda alimentar é uma míngua. “Tudo o que nos dão é bom, mas ó meu Deus…. No mês passado, deram-me umas maçãs, cinco iogurtes, uns tomates, umas bananas.” Não culpa a Cáritas, a instituição particular de solidariedade social que lhe faz chegar a ajuda alimentar. “É tanta gente a precisar!”

Ela vê as notícias. De vez em quando, algum dirigente associativo aparece a dizer que há cada vez mais gente a pedir ajuda. Os números vão sendo repetidos: a taxa de risco de pobreza era de 17,9% em 2009, antes dos três Programas de Estabilidade e Crescimento (PEC) e do Memorando de Entendimento assinado com a troika; em 2012, fixara-se em 18,7%. Sabe lá onde está? Não há dados mais recentes. E as prestações sociais não-contributivas, como o RSI e o abono, caíram a pique.

Paula vê o Estado a encolher no serviço de Acção Social Escolar. Não recebeu o cheque do costume. Recebeu dois livros do filho mais velho. Comprou os do mais novo, não conseguiu comprar os do mais velho. Pediu os que pôde, só que há dois manuais novos: Português e Matemática. Já disse ao miúdo: “Tens de esperar. Comprei os do mano, para o mês que vem, compro os teus”. Quinta-feira chegou a casa desolado: a professora de Português marcou-lhe falta de material. Paula torna a suspirar: “Pensam que se vive com 220 euros, não querem saber se os filhos precisam de calçado, de material…” Ana Cristina Pereira

Um professor que desaprendeu a ter esperança

Óscar Ferreira Gomes, 45 anos
S. Pedro do Sul (colocado em Cinfães)

Óscar Ferreira Gomes, professor, com 45 anos, diz que é possível ter uma ideia “bastante precisa” do impacto dos últimos Orçamentos de Estado na sociedade, em geral, entrando na sala de aula de uma escola do interior. De um lado, ele próprio, o professor — fisicamente cansado, desconfiado das intenções de quem governa o país, inseguro em relação ao dia de amanhã e desmotivado, descreve. Do outro, dezenas de crianças, muitas a beneficiarem de complementos alimentares, a maior parte com pelo menos um dos pais emigrados, que dizem que não sabem para que serve a escola, já que, com estudos ou sem eles, o seu destino é o desemprego ou a emigração. Ferreira Gomes faz este retrato com um pedido de desculpas e uma justificação — diz que, por natureza, é optimista. Acontece que “o que de mais precioso os últimos governos” lhe tiraram foi, “precisamente, a esperança”.

Em termos materiais, fala de uma bola de neve da qual faz parte. Aos cortes no vencimento, somaram-se os cortes na Educação — que se reflectiram na criação dos mega-agrupamentos, no aumento dos alunos por turma e nas alterações curriculares, medidas que, acredita, visaram dispensar professores.

Sem componente lectiva, Ferreira Gomes mudou de uma escola à porta de casa, onde estava destacado, para outra que o obriga a fazer 150 km por dia, gastando mais no transporte e com a alimentação. À mulher, professora, aconteceu o mesmo.

E é aqui que a bola de neve começa a rolar, diz, já que, ao baixarem drasticamente o nível de consumo, eles próprios deram o seu pequeno contributo para o travão na economia. O cinema e o teatro acabaram; os livros tornaram-se um luxo; as refeições fora, em família, foram banidas; e as férias deixaram de ser onde apetecia para assentarem no roteiro das casas de familiares.

Diz que vai ser cada vez pior e nem quer ouvir aos governantes que a culpa é da quebra da natalidade, já que, sem dinheiro e sem esperança, diz, os portugueses não podem ter filhos. Graça Barbosa Ribeiro

Eles perderam tudo para a insolvência

Carlos e Anabela (nomes fictícios), cerca de 40 anos
Torres Novas

Tribunais, credores e penhoras entraram de rompante na vida desta família. Com um salário reduzido para metade e as despesas a crescer, Carlos e Anabela Dias (nomes fictícios) procuraram ajuda. Acreditaram, de início, que aqueles a quem deviam dinheiro, os bancos, aceitariam um plano de pagamentos para saldarem as dívidas. Mas, em Maio de 2013, tornaram-se oficialmente insolventes. Um atestado que lhes tirou a casa, o carro e até o computador que os dois filhos usavam para estudar.

Foi uma troca de emprego que precipitou a falência judicial desta família de Torres Novas. Carlos ganhava 1200 euros por mês, mas o salário não era regular. “Às vezes, estava dois, três meses sem receber. Surgiu uma oportunidade e mudei”, conta. Mas a mudança foi drástica: passou a receber metade. E as despesas não desceram. Pelo contrário. Havia a escola de dois menores para pagar e créditos. Muitos créditos.

Entre empréstimos para comprar a casa e o carro, juntando-lhes créditos ao consumo e cartões de crédito, Carlos e Anabela acumulavam uma dívida de 130 mil euros quando foi declarada a insolvência, tal como aconteceu a quase 40 mil particulares desde 2011. Foram surpreendidos, pouco tempo depois, por penhoras dos salários e pela apreensão do automóvel e de móveis e equipamentos. Quando foram obrigados a sair de casa, passaram a viver com os sogros.

Mas a experiência ainda nem vai a meio. As penhoras continuam, retirando-lhes cerca de 600 euros por mês. Além do salário de Anabela, os credores também estão a ser pagos através da pensão de sobrevivência da mãe de Carlos (cujo marido foi fiador de um empréstimo da família). Assim será por, pelo menos, cinco anos, como prevê a lei, mesmo que não consigam pagar a totalidade da dívida. “A partir daí, começamos do zero. O país, se calhar, não pode dizer o mesmo”, remata Carlos. Raquel Almeida Correia

Com um canudo e sem resposta aos currículos enviados

Vera Ferreira, 20 anos
Vila Nova de Gaia

Vera Ferreira esqueceu rapidamente os seus sonhos. No Verão, quando terminou a licenciatura em Ciências da Comunicação, na Universidade do Minho, começou a procurar trabalho. “Altamente apaixonada” por rádio, deu prioridade ao jornalismo, a sua área de especialização. Inscreveu-se em sites de ofertas de emprego, enviou dezenas de currículos “sem obter qualquer tipo de feedback”, procurou uma oportunidade no programa Impulso Jovem. Rapidamente percebeu que tinha as portas fechadas.

Em poucos meses, “o ânimo começou a ir abaixo”, conta a jovem de Vila Nova de Gaia. E as perspectivas não melhoraram quando começou a dirigir a procura de emprego para outras áreas ligadas à comunicação. Há umas semanas, foi finalmente à primeira entrevista — numa empresa de realização de eventos. Vera estava disposta a aceitar o salário mínimo que lhe propunham, apesar do conselho em contrário da mãe, mas nem a chamaram.

“Acho tão triste e desanimador um jovem andar a estudar para acabar, no meio de tantos outros, no desemprego”, desabafa. Entretanto, surgiu-lhe a possibilidade de fazer um estágio profissional, numa agência de viagens, mas o processo ainda está à espera de aprovação. Certo é que o sonho do jornalismo foi posto de lado, juntamente com a perspectiva de um salário condizente com a sua formação superior. “Sei que, se quiser um bom salário, não posso ficar em Portugal”. A emigração também foi uma saída para vários dos seus amigos e, por isso, já não a assusta.

E nem a possível baixa de impostos que o novo Orçamento do Estado pode conter — ou mesmo a possibilidade de um novo Governo no próximo ano — a anima. Para Vera, essas eventuais mudanças não chegam para fazer o desemprego jovem diminuir. “Os problemas por que o nosso país está a passar são muito mais graves e não se resolvem de um dia para o outro”. Samuel Silva

A empresa que criou sobreviveu, e isso é um alívio

Jorge Martins, 64 anos
Fundão

Há um antes e um depois na vida da Macambi. A empresa do Fundão que fabrica móveis por medida e se dedica à carpintaria nunca teve uma equipa comercial. Não era preciso. Os clientes batiam à porta a encomendar cozinhas, roupeiros ou escadarias de madeira. Com a construção civil ainda de saúde e a pintar a paisagem da Beira Interior com novos edifícios, a Macambi não precisava de se preocupar muito.

Mas isso foi até 2008. Luís Jorge Martins, de 64 anos, um dos quatro sócios da empresa fundada há 20 anos, recorda que, com a crise a tornar-se cada vez mais real, os clientes começaram a escassear. Quase 100% do trabalho que alimentava a pequena empresa, com 31 trabalhadores (a maioria com menos de 40 anos), eram conseguidos graças às casas novas da região. “Quando a construção começou a parar, foi preciso alterar a estratégia. Foi preciso ir à procura de trabalho”, conta Martins.

Criou-se uma equipa de vendedores, dedicada a encontrar os clientes onde quer que estivessem. Primeiro, avançaram para Lisboa, onde faziam pequenos trabalhos para familiares e amigos. Depois, procuraram fora de Portugal. Nos últimos dois anos, França e Suíça têm sido países importantes. “Cerca de dois terços dos trabalhos que fizemos este ano foram para fora, o que nunca tinha acontecido. Já temos trabalho garantido até ao final do ano”, revela.

O negócio mudou. Antes, a Macambi fabricava em grandes quantidades. Agora organiza encomendas mais pequenas para clientes particulares e precisa de ter mais encomendas para alcançar os mesmos valores.

Luís Jorge Martins diz que as medidas de austeridade tiveram impacto profundo na região, desde logo, com a criação de portagens na A23. A burocracia também aumentou. E, apesar da boa relação que tem com a banca, “não há contemplações”. A Macambi esteve à beira de desaparecer. Mas se tudo continuar a correr bem fora de Portugal, esse cenário está posto de lado. “É um alívio muito grande”, desabafa o empresário. Ana Rute Silva

Sem subsídio de desemprego já não dá almoço à família ao domingo

Adelaide Paiva, 56 anos
Vila Nova de Gaia

Os cortes no subsídio de desemprego tiveram um impacto imediato na vida de Adelaide Paiva: deixou de reunir os dois filhos, nora, genro e netos no almoço dominical em sua casa. “Reunir a família não é nada de mais, não é viver acima das possibilidades, mas implica gastos e, sobretudo agora com o corte de 10% que vão fazer no meu subsídio, deixou mesmo de ser possível”.

Quando costurava casacos de homem e senhora numa confecção no Porto, Adelaide Paiva recebia entre 450 e 460 euros líquidos por mês. Foi com este emprego, que manteve durante 42 anos, que criou filho e filha. “Todos os meses, era um quebra-cabeças. Recebíamos em dinheiro vivo, eu e o meu marido, e, no fim do mês, espalhávamos o dinheiro na mesa, e tirávamos x para o aluguer, x para a luz…”. O que sobrava não dava para férias, mas, nos últimos anos, já com os filhos a viver por sua conta, dava para os chamar para almoçar ao domingo.

O marido entretanto fez-se vigilante e começou a ganhar um pouco mais: 600 euros por mês. Mas, em Março, e já com dois meses de salário em atraso, Adelaide requereu o subsídio de desemprego. “Já não apanhei o corte de 6% que o Tribunal Constitucional inviabilizou. Mas agora, que vou completar seis meses de subsídio, vou apanhar com o corte de 10%”.

Em números: Adelaide, que trabalha desde os 13 anos, vai passar a receber 377 euros. Paga 230 euros de prestação da casa. Passou a evitar falar ao telefone. “Se aumentaram o salário mínimo para os 505 euros, porque entenderam que esse era o mínimo para as pessoas não passarem fome, como é que julgam que alguém sobrevive só com 377?”.

No centro de emprego, disseram-lhe que tinha de mostrar comprovativos de pelo menos três tentativas de procura de emprego por semana. “Às minhas colegas, falaram em três por mês. Não sei se se enganaram no meu caso, mas, seja como for, nem sempre consigo. E há sítios onde as pessoas dão desculpas para não terem de passar essa declaração”. Independentemente disso, Adelaide tem de se apresentar de 15 em 15 dias no centro de emprego da sua área de residência, em Gaia, sob pena de perder o direito àquela prestação.

Com os seus 56 anos e mais de 72 meses de registo de remunerações, Adelaide Carneiro vai receber subsídio de desemprego durante 900 dias, a que acrescem mais 60 dias por cada cinco anos com registo de remunerações nos últimos 20 anos. É o período máximo, consideradas as alterações que vigoram desde Abril de 2012 e que, para a generalidade dos empregados, reduziram a duração do subsídio entre um mínimo de cinco meses e um máximo de 26. Na lei anterior, a duração mínima era de nove meses e a máxima de 38. As novas regras fizeram também baixar o valor máximo daquela prestação para os 1048 euros (a que se subtraem 10% deste montante após os primeiros seis meses), mas, porque recebia pouco mais do que o equivalente ao Indexante dos Apoios Sociais, ou seja, 419,22 euros, Adelaide não foi afectada por esse corte. “Ainda não chegámos ao tempo de Salazar, em que as pessoas não tinham dinheiro para se calçar mas eram multadas se andassem descalças, mas não estamos muito longe. Estou desacreditada disto tudo…”. Natália Faria