Opinião

Armando Vara e a sua circunstância

Vara merece a nossa vénia: não há melhor descrição para o que lhe aconteceu.

Não consta que Armando Vara tenha tido oportunidade de estudar Filosofia em Paris, mas os bons exemplos que temos ao nosso lado são sempre inspiradores.

E por isso, na sexta-feira, à saída do tribunal onde foi condenado a cinco anos de prisão efectiva pelos juízes do processo Face Oculta, Vara citou com admirável acuidade o filósofo espanhol Ortega y Gasset. Após se ter confessado em “choque”, comentou desta forma a sua pesada sentença: “Acho que tem muito a ver com a minha circunstância.”

Bravo. Embora afectado pelo choque, Armando Vara teve ainda assim a perspicácia de se afirmar como um perspectivista e um leitor atento de Ortega y Gasset e da sua primeira obra, Meditaciones del Quijote. Foi aí que o espanhol cunhou aquela que se tornou uma das suas frases mais conhecidas: “Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo a ela não me salvo eu.” De facto, se a percepção das coisas e o que delas penso está dependente do lugar em que me encontro e de uma perspectiva que é sempre alterável, então, mesmo que eu continue a ser eu, as modificações da minha circunstância podem afectar profundamente a minha vida. É uma pena este homem perder tanto tempo com robalos – poucas vezes encontrei tamanha sapiência, lucidez e intuição filosófica na boca de um condenado.

Vara merece a nossa vénia: não há melhor descrição para o que lhe aconteceu. Repare-se que Armando Vara nunca deixou de ser Armando Vara nem de se comportar como Armando Vara, mesmo quando já não precisava de ser Armando Vara. Embora ganhasse muitos milhares, continuava a facilitar negócios por poucas dezenas. Porquê? Porque era essa a sua natureza. Foi o que fez durante toda a vida. E durante muito tempo a sua circunstância estimulou-o a isso, num longo processo de enriquecimento do eu. Só que um dia, para sua surpresa, as regras mudaram. O ambiente transformou-se. As circunstâncias alteraram-se antes do eu se pôr a salvo. E Vara apanhou cinco anos de cadeia.

A maior dificuldade filosófica com que ele agora se debate é como trabalhar os ensinamentos de Nietzsche e Ortega y Gasset deixando Sócrates de fora. Não me refiro ao grego, claro, mas ao português, que no seu espaço na RTP fez questão de deixar “uma palavra pública de amizade” ao “engenheiro José Penedos e ao doutor Armando Vara”, que estão “a viver um momento muito difícil”, esperando “naturalmente” que os recursos “possam provar a sua inocência”, da qual ele está certo porque conhece “ambos”. Comovente. Sócrates, não há dúvida, também continua a ser Sócrates, e por isso o padrão mantém-se: ser solidário e piedoso com os amigos que vão caindo em desgraça (já acontecera com Ricardo Salgado), ao mesmo tempo que garante nada ter a ver com os casos em questão.

E não tem, de facto: as famosas escutas que foram mandadas destruir pelos saudosos Pinto Monteiro e Noronha Nascimento não visavam qualquer conversa sobre robalos e sucata. Visavam apenas um alegado atentado contra o Estado de direito e uma tentativa de controlo da comunicação social. Coisa pouca. E o problema é este: sendo Vara e Sócrates quem são e tendo eles um percurso comum de décadas, tanto nos negócios como na política, é muito difícil acreditar que a intimidade das suas circunstâncias seja apenas circunstancial. Espero que José Sócrates tenha estudado suficiente Ortega y Gasset em França. Na minha perspectiva, os “pistoleiros do costume” são cada vez mais e as circunstâncias ajudam-no cada vez menos.