Editorial

Fazer política com a estatística do emprego

A taxa de desemprego caiu no segundo trimestre. Há um efeito sazonal, mas não só.

Os partidos continuam a usar o emprego (ou a falta dele) como uma arma de arremesso político. Há pouco mais de um ano, e num dos períodos mais difíceis da estada da troika, a taxa de desemprego atingia um pico de 17,7%. Nesta terça-feira, o INE veio dizer que no segundo trimestre deste ano a taxa caiu para os 13,9%, o que representa uma quebra homóloga de 2,5 pontos percentuais.

É verdade que o segundo trimestre é, por norma, o período do ano em que o emprego sazonal é mais forte. Também é verdade que as estatísticas oficiais disfarçam fenómenos como a emigração e o trabalho precário. Mas é indiscutível que o mercado de trabalho começa a dar alguns sinais de retoma: no último ano a economia criou 90 mil empregos, o que é uma boa notícia.

O que é uma má notícia é a tentativa de aproveitamento político das estatísticas do INE. É o caso de Marco António Costa que veio "convidar o PS a comentar a redução da taxa de desemprego”. Ao colocar-se em bicos de pé e ao olhar para as estatísticas do INE como uma vitória partidária, o porta-voz do PSD também deveria assumir parte da responsabilidade pelo dramático número de 728,9 mil pessoas que continuam sem trabalho. A oposição, claro está, também se recusa a reconhecer quando há uma melhoria na estatística, e assim perde legitimidade política para criticar quando as coisas correm menos bem.

Mais do que um jogo de palavras, o que deveria preocupar realmente a oposição é que a taxa de desemprego está a aproximar-se dos 12%, limiar que o Banco de Portugal definiu como sendo o do desemprego estrutural, ou seja, a partir do qual os portugueses já não vão conseguir arranjar mais emprego a não ser que haja uma alteração estrutural na economia e/ou na qualificação de quem procura trabalho. Esta, sim, deveria ser a preocupação dos partidos.