Opinião

O pior de tudo será desvalorizar os resultados

Se, depois disto, os políticos europeus ainda acreditam que tudo vai acabar bem, então a Europa corre mesmo o risco de ser derrotada.

1. A vaga extremista e populista de direita confirmou-se. Haverá cerca de uma centena de deputados contra a Europa no Parlamento Europeu. O PPE volta a ganhar, embora com perdas. A social-democracia perde menos, mas volta a perder. Se somarmos o facto de a França ter sofrido um terramoto político, os resultados das eleições europeias são um péssimo indício para o futuro europeu. Que será ainda maior se os governos e os partidos europeus caírem na tentação de desvalorizar a vaga extremista, justificando-a com a abstenção ou considerando-a um fenómeno conjuntural explicado pela crise.

O problema é que quando um país como a França vê a Frente Nacional vencer as eleições europeias a uma distância razoável da UMP de Nicolas Sarkozy e remetendo os socialistas para um valor quase irrisório, alguma coisa está a funcionar mal não apenas na França, mas no coração da própria União Europeia. A França ficou ainda mas fraca. A Alemanha parece um país de outra galáxia: Angela Merkel soma e segue. E quando a social-democracia, que está na oposição em muitos países, não consegue sequer capitalizar o voto contra a austeridade, então a paisagem política europeia entra necessariamente numa fase nova.

2. A Europa mudou radicalmente desde as últimas eleições europeias, em 2009, quando os líderes europeus ainda diziam que a crise era “americana”. Começou com um problema da dívida soberana dos países mais vulneráveis da periferia. Chegou a contagiar a Espanha e a Itália. Pôs em causa o euro. Criou as condições para o “momento unipolar” da Alemanha. Submeteu os países que tiveram de pedir auxílio a programas de ajustamento violentos. Abriu feridas que se julgavam enterradas para sempre. Há razões de sobra para justificar a onda antieuropeia, cujos partidos não são todos da mesma estirpe, é necessário sublinhar. Alguns reclamam contra a imigração e a globalização (como, aliás, a extrema-esquerda) e querem uma Europa mais fechada ao mundo. Outros são partidos nacionalistas, cuja primeira prioridade é derrotar o próprio projecto europeu. Outros ainda rejeitam o regime democrático, como o Aurora Dourada, que foi o terceiro partido mais votado na Grécia. Não se trata apenas das vitórias que arrecadaram, mas da influência que já conseguirem. Algumas das suas bandeiras foram integradas, mais ou menos disfarçadamente, pelos partidos europeus. Em Londres ou Berlim, aprovam-se novas leis para poder expulsar, não apenas os imigrantes e refugiados que vêm de fora, mas os que imigram de outros países da União e que não têm trabalho. Merkel disse que a “União Europeia não era uma união social”. Com 26 milhões de desempregados, o medo da imigração tornou-se mais fácil. Em Paris, o novo primeiro-ministro Manuel Valls ganhou fama por ter mão dura contra os imigrantes ilegais. Nicolas Sarkozy exigiu a suspensão imediata de Shengen e a redução dos poderes da Comissão. O ministro da Economia do novo governo francês, Arnauld Montebourg (da ala esquerda do PSF e “desglobalizador” assumido), apresentou uma medida legislativa que dá novos poderes ao governo para exercer o “patriotismo económico”. Isto tudo porque a GE (americana) quis comprar a Alsthom (francesa). “Marine já ganhou”, escreveu o Monde. E ganhou mesmo: a Frente Nacional arrecadou 25% dos votos, deixando a UMP muito para trás (21%) e os socialistas numa posição miserável (14%). Nova derrota estrondosa para François Hollande, que não consegue convencer os franceses que há coisas que têm de mudar, mesmo na França.

O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte (liberal em coligação com os trabalhistas), publicou dois dias antes das eleições uma carta conjunta com o seu parceiro do FDP alemão para dizer que é preciso devolver aos Estados-membros uma boa parte do poder que está nas mãos da União. A campanha andou à volta disso. Geert Wilders, que fez da imigração o seu cavalo de batalha (primeiro contra os islâmicos, depois contra os polacos), teve uma relativa derrota: apenas 12%, menos 6 do que em 2009. David Cameron quis adiar a questão europeia com a promessa de um referendo “dentro ou fora” depois das próximas legislativas. Vergou-se à chantagem dos “eurocépticos” do seu próprio partido. Não lhe serviu de nada.

“O que vai fazer casta política que dominou a agenda europeia no último meio século”, pergunta Gavin Hewitt, o analista da BBC para a Europa. “O mais provável é que desvalorize [os resultados doa extrema-direita], chamando-lhes nomes feios e acreditando que desaparecerão com a crise.”

3. O segundo argumento dos partidos europeus é que, mesmo que a extrema-direita aumente a sua representação no Parlamento Europeu (aumentou e de que maneira), a maioria ainda pertence aos partidos pró-europeus (PPE, socialistas, liberais), mesmo que possam descer de 70 para 60% dos eurodeputados. A questão é que as consequências desta vaga extremista vão ser sentidas sobretudo a nível nacional. “Vão influenciar ainda mais as agendas dos respectivos governos e da sua acção no espaço europeu”, diz Jean Techau, do Carnegie Europe.” “[Os partidos europeus] tenderão a agir cada vez mais em função das opiniões públicas nacionais, dificultando ainda mais o consenso europeu”.

A ilusão também está no que quer dizer o “fim da crise”. O euro foi salvo, mas a economia está muito longe de recuperar a sério. A Finlândia entrou de novo em recessão por causa da crise na Ucrânia (a Rússia é o seu maior cliente) e perdeu a Nokia (a Europa está a perder qualquer vantagem tecnológica para os EUA). O crescimento da União ficou-se em metade das previsões para o primeiro trimestre. Duas grandes economias não conseguem arrancar: a França e a Itália. A deflação ainda é um risco real. A desigualdade veio para ficar. Os “passageiros frequentes”, na expressão do sociólogo alemão Wolfgang Merkel, adaptam-se facilmente à globalização. Os “comunitários” tornam-se perdedores. São estes, que não vão desaparecer, que alimentam os extremismos. O proteccionismo é um risco (como se vê em França): os extremos têm em comum a rejeição da Parceria Transatlântica para o Comércio e o Investimento que a União está a negociar com os EUA. São os novos amigos de Putin, que olham com admiração, como já disse Nigel Farage, o líder do UKIP britânico. Argumentam que a Rússia é fundamental para quebrar a dependência em relação aos Estados Unidos. Não gostam da tolerância das sociedades europeias e preferem a “moral” do regime autoritário de Putin. “A Rússia é obviamente a principal alternativa à hegemonia americana”, diz o filósofo francês Alain Benoist, que se reclama da nova direita. Defendem uma Eurásia de Vladivostock a Lisboa.

4. Segunda constatação fundamental: a direita voltou a ganhar à esquerda. A Itália é uma excepção, com Matteo Renzi, o jovem líder do Partido Democrático que chegou ao poder há dois meses, a aguentar muito bem a pressão do Cinco Estrelas de Beppe Grillo, conseguindo quase 40% dos votos. O PASOK quase desapareceu na Grécia e os trabalhistas irlandeses, que integram a coligação, foram os maiores perdedores. Ed Miliband não consegue afirmar-se como alternativa aos conservadores. Em Portugal, o PS não conseguiu capitalizar, nem de perto nem de longe, os custos da austeridade. Em Espanha, Mariano Rajoy voltou a ganhar. A crise deixou a social-democracia com apenas duas opções dilacerantes: aceitar a receita da austeridade ou radicalizar o discurso contra ela, sabendo que não pode ultrapassar certos limites se quer chegar ao poder e preservar o euro. Perdeu credibilidade enquanto alternativa. Viu parte do seu eleitorado tradicional – onde se incluem os marginalizados da globalização – ser atraído pelo discurso da extrema-direita. Não consegue adaptar-se às novas condições económicas geradas pela globalização, que estão a pôr em causa a sua grande obra no pós-guerra: o Estado social.

Se, depois disto, os políticos europeus ainda acreditam que tudo vai acabar bem, então a Europa corre mesmo o risco de ser derrotada.