PS pior do que o PSD em 2009 e a anos-luz dos resultados que obteve em 2004

Uma comparação das eleições deste domingo com as duas anteriores para o Parlamento Europeu.

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Assis e Seguro, na hora de uma vitória curta Enric Vives-Rubio

Com uma abstenção recorde (ligeiramente superior a 66%), os socialistas acabaram por vencer as eleições europeias deste domingo, mas a escassa diferença (cerca de quatro pontos) não deixa António José Seguro sossegado.

O mapa eleitoral que resulta das eleições deste domingo mostra que os socialistas venceram nos círculos que incluem os principais centros urbanos (Lisboa e Porto) e que os sociais-democratas continuam a ter os seus bastiões nos distritos do Norte e Centro do país (a Guarda é a excepção). O PS ganha em dez círculos. O melhor score surge nos Açores (41,3%), logo seguido pelos dos distritos de Portalegre e Castelo Branco, com percentagens muito acima da média nacional.

Os sociais-democratas vencem em oito círculos, com os melhores resultados no distritos de Bragança e Viseu, rondando os 40%. Já a CDU mantém-se como a força mais votada em Beja e Setúbal. O MPT de Marinho e Pinto obteve o seu melhor score na Madeira com 10,3%.

A vitória do PS ficou assim a anos-luz dos números obtidos pelos socialistas nas eleições europeias de 2004, aquelas que se realizaram num quadro político semelhante ao actual. O governo de então era também de coligação PSD/CDS e os dois partidos concorreram às europeias aliados na Força Portugal. O PS conseguiu então 44,5% (mais de um milhão e meio de votos), elegendo 12 eurodeputados. A aliança PSD/CDS ficou-se pelos 33% e nove eurodeputados. A CDU atingiu os 9,1% e garantiu a eleição de dois parlamentares, enquanto o Bloco de Esquerda elegeria apenas Miguel Portas, não atingindo os 5% de votos. Então, a taxa de abstenção ultrapassou também os 60%.

Essas europeias foram, aliás, marcadas por diversos incidentes. Desde logo, a morte do cabeça de lista do PS, Sousa Franco, em plena campanha eleitoral numa iniciativa na lota de Matosinhos, que acabou por ser substituído por António Costa. Apoiado no resultado das europeias e na previsível saída de Durão Barroso para Bruxelas, o líder do partido, Ferro Rodrigues, exigiu ao Presidente da República de então, o também socialista Jorge Sampaio, que convocasse eleições antecipadas, o que Sampaio não fez de imediato, gerando uma acesa controvérsia entre duas personalidades oriundas originalmente da mesma família política – o MES (Movimento da Esquerda Socialista). O governo acabaria por cair mais tarde, já com Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro e Durão Barroso a caminho de Bruxelas para presidir à Comissão Europeia.

O país ficou cor de rosa nessas eleições, com os socialistas a ganhar em 15 dos 20 círculos, com resultados sempre muito próximos dos 50% dos votos na maior parte dos distritos e na Região Autónoma dos Açores. Os melhores scores foram obtidos em Castelo Branco e Portalegre, ultrapassado aí os 50%. A este vendaval socialista só resistiram os distritos de Bragança, Vila Real, Viseu e Leiria e a Região Autónoma da Madeira que votaram maioritariamente na Força Portugal. Mas a coligação PSD/CDS acabaria mesmo por ser apenas a terceira força mais votada em Setúbal, Beja e Évora, distritos onde a CDU ocupou o segundo posto.

Já nas eleições europeias de 2009, os socialistas, liderados por José Sócrates, que era também o primeiro-ministro, foram penalizados não só pela política do Governo de então, mas também pela escolha de um cabeça de lista que parecia à partida uma excelente aposta, o constitucionalista Vital Moreira, mas que viria a demonstrar algumas fragilidades no terreno, nomeadamente no combate com Paulo Rangel do PSD.

Os sociais-democratas conseguiram então 31,70% dos votos (oito eurodeputados) enquanto os socialistas se quedaram pelos 26,58% (sete deputados). As duas forças à esquerda do PS acabaram também por surgir como vencedoras da noite eleitoral, com o BE a eleger três eurodeputados (10,73%) e o PCP dois (10,66%). O CDS conseguiu também a eleição de dois parlamentares com os seus 8,37%.

O mapa que emergiu dessa noite mostrava um país cor de laranja, já que os sociais-democratas ganharam em 15 dos 20 círculos, conseguindo o seu melhor resultado na Madeira com 52,53%. Ao PSD só escaparam os distritos de Portalegre, Lisboa (ambos para o PS) e Setúbal, Évora e Beja (CDU).