Entrevista

Fernando Tordo: "O país está irrespirável para uma pessoa que faz música"

Fernando Tordo mudou de país e fê-lo batendo com a porta. Com estrondo e polémica. No Recife, onde está a viver, revisita as dificuldades com que um artista na sua condição se confronta e culpa “os alarves” que estão no poder pelo que considera ser a decadência da cultura em Portugal.

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Fernando Tordo no Recife DR

Às dez da manhã de um dia de calor tropical no Recife, Fernando Tordo aparece no hall do hotel onde está hospedado provisoriamente. Tinha acabado de trabalhar num tema com um poema de um autor pernambucano, tarefa que promete continuar no Brasil pelo menos enquanto a “situação” em Portugal não mudar. Veemente nas suas posições, diz ter sido obrigado a fazer uma opção, mas sublinha que essa opção foi feita sem amargura.

Estava à espera da polémica que a sua vinda para o Brasil suscitou em Portugal?
Eu não percebo por que é que a saída de um único cidadão, é músico mas podia ser engenheiro ou trolha, pode causar tanta confusão e tanta polémica. É por eu ser uma figura pública? O que eu leio e o que as pessoas escrevem é que o tipo está velho, já não interessa… então por quê tanta preocupação?

No Facebook disse que vinha sem amargura e sem tristeza, mas depois acrescentava que sentia necessidade de sair do país. Que necessidade era essa?
O país está irrespirável para uma pessoa que faz aquilo que eu faço, que é música. Tenho de organizar a minha vida em termos de venda de espectáculos e isso não existe. Não havendo trabalho, não tenho estímulo nenhum para funcionar. A questão é esta: as autarquias, que são o grande empregador dos artistas em Portugal, não têm dinheiro, ou pelo menos é o que dizem. Portanto, não há trabalho e não havendo trabalho e não sendo um artista da crista da onda, qual é o problema sair de Portugal?

Mas essa realidade é uma realidade pessoal ou, por aquilo que conhece, é comum a todos os artistas?
Não sei. Acho que os artistas, que as pessoas em geral se acomodam, mesmo que não estejam bem. Acomodam-se ao mal-estar. Eu não me acomodo ao mal-estar. Eu sou eu e as outras pessoas são as outras pessoas. Eu não me acomodo à situação em que está Portugal e não volto enquanto estiver assim. Não quero. Estou a organizar a minha vida noutro lado. Por isso é que gostava que esta conversa decorresse no Marco Zero [simbolicamente, o ponto de partida de todos os destinos do Recife e do Pernambuco], porque é começar de novo.

Este começar de novo tem um impulso original que, na sua própria definição, é “não aceitar esta gente que está a fazer mal ao país”, os “incompetentes”. Refere-se ao Governo?
Com certeza. Já olhou para o secretário de Estado da Cultura? Quem é aquela pessoa? A cultura em geral está entregue a Passos Coelho. Quem é o Passos Coelho? Como é que a gente pode suportar um país que tem no topo do Governo Paulo Portas? Os portugueses suportam e eu também suportei, mas não suporto mais.

Foram os portugueses que os escolheram.
Foi a escolha de muitos portugueses, que eu respeito, mas foi a escolha deles e eles é que têm de os aturar. Eu não.

Acha que a política cultural, ou a sua ausência, que está a determinar o contexto que faz com que artistas como o Fernando Tordo tenham problemas em encontrar trabalho?
Claro, porque Portugal é um dos únicos países do mundo em que artistas com 50 anos de carreira são tratados como se fossem cães. Claro que sim. São tratados como se fossem lixo, claro que sim. Vamos a Espanha, vemos artistas consagrados com 40 ou 50 anos de carreira e há um respeito pela vida inteira de uma pessoa dedicada a uma determinada matéria, seja a música, a arquitectura, seja a medicina, seja o que for. Respeito.

Portugal está a varrer para o esquecimento as pessoas que têm esse passado?
Se é o objectivo deles, comigo resultou perfeitamente.

Mas há artistas da sua geração que continuam a ter públicos, a fazer concertos. Por exemplo Sérgio Godinho. Teria o Fernando Tordo ficado ancorado nos seus dias de glória, sem ser capaz de se modernizar?
Eu sou o único português que gravou com uma orquestra de jazz que é uma das melhores do mundo, sou o único português que cantou 12 poetas prémio Nobel da Literatura em cinco línguas. Eu não sei ao que se está a referir. Acredito que não saiba. As coisas estão feitas, só não as ouve quem não quer, a culpa não é minha. Conhece mais algum português que tenha feito um disco em português com a melhor orquestra de jazz da Europa, a National Youth Jazz Orchestra? Gravámos em Abbey Road, nos célebres estúdios dos Beatles. As pessoas não sabem? Ficam a saber. Actualizar-me mais?

Recentemente fez na Fábrica do Braço de Prata, em Lisboa, uma ponte com uma nova geração da música portuguesa. O que o levou a fazer esse ciclo?
Queria muito arranjar um espaço em que, independentemente da preocupação de um ensaio para uma grande cena, conhecesse certos nomes da nossa música que, no meu entender, vão ficar. O António Zambujo vai ficar, a Luísa Sobral vai ficar, a Rita Redshoes vai ficar, a Celina da Piedade vai ficar. São pessoas que eu adoro e que perante um convite meu vieram com humildade.

Não poderia a partir daí encontrar outras fórmulas para manter a sua carreira?
Eu quando gravar um disco de duetos é com esta gente que quero gravar. Portanto isto está mais do que feito. Sei o que é que se passa, sei o que é esta gente e adoro-os. No outro dia o António Zambujo, que tem muitos contactos aqui no Brasil, mandou-me uma gravação vídeo de um espectáculo que fez no Rio de Janeiro com um dos mais ilustres guitarristas brasileiros, o Yamandú Costa, e cantaram a Estrela da Tarde. A Estrela da tarde é cantada aqui há muito tempo. A mais antiga gravação que conheço é de 1980, com uma actriz de telenovela que é cantora também. Estas pessoas com quem eu fiz estes espectáculos deram-me um prazer muito grande. Eu não me esqueci deles.

Esses espectáculos mostravam já o Fernando Tordo a lutar pela sua carreira?
Eu não parei de fazer coisas. Eu faço as coisas mais variadas. Faço música para mim, faço música para as outras pessoas, fiz música para a Carminho, para o Carlos do Carmo, para o Hélder Moutinho, para o António Zambujo, para a Mariza. São coisas que estão nos discos, estão gravadas. O que é que um compositor que não vende discos, que não tem trabalho, pode fazer mais? Dizem que não gosto do meu país. Eu adoro o meu país. Vivi uma vida inteira intensamente no país onde nasci, mas cheguei a uma altura em que a decepção é muito grande. Eu não sou herói, não tenho de ficar a gramar o estrago que uma data de alarves estão a fazer ao nosso país. Não quero. Lutei muito, antes, durante e depois do 25 de Abril para isso mudar. E não mudou. Nada. O 25 de Abril já não existe há muitos anos. Os partidos é que têm essa coisa na cabeça.

É uma frustração geracional?
É a frustração que é de um povo, não é a minha.

Vir para o Brasil é um acto de inconformismo?
Como é que eu posso estar parado? Tenho 50 anos de carreira, tenho de aproveitar e viver o dia-a-dia intensamente.

Fazê-lo em Portugal estava fora de questão?
Isso não existe em Portugal. Não tem a ver com o público, todos os artistas já tiveram casas cheias e casas menos cheias. Há alguns que estão sempre à espera de ter casas cheias e normalmente não têm; e há outros que estão à espera de ter casas vazias e às vezes elas enchem.

Qual era o seu caso?
O meu caso era muito regular. Eu tenho um público fixo, que se transmitiu de avós para pais e de pais para filhos. É fantástico. Eu continuava a ter público e não tive casas vazias por ter 50 anos de profissão. Eu fiz campanhas eleitorais nos anos 70 em que havia casas em que estavam 11 ou 12 pessoas. Porque as pessoas tinham medo de sair à rua por causa da política. O que é que eu tenho de contar mais? Mais nada. Sou um compositor, um homem da música. Ainda em Lisboa musiquei um grande poeta pernambucano, o Ariano Suassuna, que ainda não conheci pessoalmente mas faço questão de conhecer. Tenho uma viola caipira, que é uma sequência directa da nossa viola campaniça, do Alentejo, que é o meu último trabalho. Nos dois últimos anos o que tenho feito é mostrar às pessoas algumas coisas que os portugueses deitaram fora: os nossos instrumentos seculares, os cordofones portugueses. Deitámos tudo fora e eu fui aos fabricantes e mandei-os fazer de novo. Toco músicas do Fausto e minhas naqueles instrumentos.

O que tem a dizer sobre as críticas a alguns dos contratos que fez, incluindo os que celebrou com uma ONG na qual a sua mulher integrava a direcção?
A minha mulher faz parte de uma associação também tem as contas abertas, são facilmente fiscalizáveis. Não há artistas a fazer os espectáculos que eu tive de fazer por aquele preço. Isso não existe. Ensaiar com duas cantoras, uma bailarina, tive de fazer de coordenar todo o espectáculo… Não há artistas a fazer aquilo por aquele preço com qualidade. Há uns tipos que ficam admirados com isso: ‘Então não é que o malandro do Fernando Tordo ganhou cinco mil euros por espectáculo’? Mas por que é que não vão dizer isso aos que ganham 67 mil lá na terra deles?

Mas esses espectáculos foram objecto de um concurso ou de um ajuste directo?
Não, foi um ajuste que a minha mulher, que é membro da direcção, fez com a presidente da direcção. A minha mulher não é a presidente dessa associação. Não é. Faz parte da estrutura. Se eu fosse sócio de uma associação e se me dissessem assim, ‘o Fernando Tordo vai organizar um espectáculo”, eu ficava todo contente. Isso implicou ensaios, horas e horas, viagens… Uma das cantoras é a Maria Berasarte que faz parte do Quinteto de Lisboa e vive em Bilbau. Ela teve de vir duas ou três vezes a Portugal para ensaiar. Foi um preço baixíssimo. Só se fez porque eu estava lá, porque sou membro, da mesma forma que sou sócio do Benfica. Eu espero que me deixem ir receber o emblema de 75 anos de sócio do Benfica. Isso para mim é muito importante. É um dos meus projectos de vida. Estas é que são as coisas importantes da vida.

Como é que uma pessoa com quase 50 anos de carreira chega à idade da reforma e aspira receber apenas 200 euros?
Eu não aspiro. Eu não pedi a reforma. Esse é outro equívoco. Fiz um almoço de despedida com os meus filhos e os meus netos e o meu filho perguntou: ‘Se tu te reformasses quanto é que recebias?’. E eu disse, ‘sei lá, para aí 200 euros’. Mas eu não pedi reforma nenhuma. Os meus impostos estão pagos. Por outro lado [sobre os outros contratos no valor de 200 mil euros] trabalhei com o grande prazer de fazer aquilo que é a ambição de qualquer cantor: que é fazer uma tournée com uma grande orquestra. A referência que nós temos sobre isso é muito americana, que é a viagem pelos Estados Unidos dentro de um autocarro. É uma coisa fílmica, tem uma imagética, e eu quis fazer isso e fiz. Depois foi o malandro do Fernando Tordo que ganhou 200 mil euros por dez espectáculos tendo que pagar a 35 pessoas. Sendo que o mastro ganhava o mesmo que eu e os dois sócios ganhavam a mesma coisa. Vejam lá bem a fortuna que eu ganhei.

Terá recebido no final 10 mil euros.
Terei recebido uma coisa parecida. Com as despesas que tinha de pagar, talvez não tenha passado disso. Parece estranho, uma pessoa que aparece toda engalanada à frente de uma orquestra com 25 músicos, como é possível ganhar uma porcaria. Uma porcaria. Ao fim de quarenta e tal anos ninguém quer ganhar mil euros em coisa nenhuma, nem dois mil. Quer ganhar aquilo que alguns artistas em Portugal ganham, que está na casa dos 40 ou 50 mil euros.

Quais são os seus planos para o futuro? Vindo para o Brasil, por que veio para o Recife e não para o Rio de Janeiro ou para São Paulo?
Porque eu tenho uma relação com pessoas que estão a viver aqui. Estou aqui instalado [num hotel] enquanto não tenho casa. O meu projecto de vida é mesmo vir para aqui viver. O nosso filho, meu e da Maria Eugénia, acaba de se formar este ano e portanto espero que ela venha para cá em Setembro ou Outubro. Nessa altura já terei uma casa para viver. Eu estou ligado a pessoas que estão aqui…

Gente da cultura?
Não, mas estão ligados a um tipo de investimento que vai gerar cultura. Eu tenho estudado o Pernambuco [estado do Nordeste brasileiro cuja capital é Recife] quase obsessivamente. Tem uma situação musical especialíssima. Há aqui coisas únicas no mundo. Aliás, curiosamente o frevo [um estilo musical baseado em orquestra] foi considerado Património da Humanidade conjuntamente com o fado. No plano musical, há aqui coisas de um nível universal.

Portanto, para além de ideias e projectos, quando veio para cá tinha uma rede de protecção?
Eu estudo o Recife e Pernambuco há meses, em Lisboa. Trouxe muito trabalho adiantado. Agora estou apenas a confirmar coisas que estudei. E não houve um contacto que eu tivesse feito aqui que tivesse sido recusado. Um único.

Comprou bilhete de volta para Portugal?
Rigorosamente nada. Vou ter de voltar porque assinei um contrato para um concerto no 25 de Abril, em Viana do Castelo. Vou visitar a família, evidentemente, e alguns amigos. Mas vou apenas porque tenho um contrato.

E os seus 50 anos de carreira, que se celebram em 2015?
São celebrados da seguinte forma: o meu querido amigo e jornalista João Paulo Guerra escreveu o livro dos meus 50 anos de carreira que vai ser editado no final do ano. Foi um trabalho que fiz com ele durante anos, durante almoços em que a gente destrói uma cabeça de pescada e conversa. Gravámos centenas de horas..