Oposição condena discurso “de facção” de Cavaco, maioria enaltece “responsabilidade”

Esquerda faz coro nas críticas ao discurso do Presidente na sessão comemorativa do 25 de Abril na Assembleia da República.

Rui Gaudêncio
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Rui Gaudêncio

A oposição parlamentar acusa o Presidente da República, Cavaco Silva, de ter feito um discurso de 25 de Abril “claramente partidário” e de “facção”, semelhante ao de um “primeiro-ministro” ou de “um membro do Governo”. Partidos do Governo elogiam conteúdo “corajoso” e “sentido de responsabilidade”

 

Carlos Zorrinho, líder parlamentar do PS


“O senhor Presidente da República fez um discurso de cariz claramente partidário e apadrinhou a política de austeridade do Governo. Essa é a principal conclusão da sua intervenção”, sustentou o líder parlamentar do PS.


“Se o senhor Presidente da República tinha como intenção promover o consenso, com a sua intervenção de hoje, marcadamente partidária e de apadrinhamento da política do Governo, deu um contributo no sentido contrário”.

O discurso de Cavaco Silva em nada contribuiu para o consenso nacional e os socialistas vão continuar a oferecer resistência e a opor-se “a este caminho” seguido pelo executivo.

Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP

“Parecia um discurso de primeiro-ministro ou de um primeiro-ministro adjunto, tendo em conta a sua identificação com aquilo que o Governo tem vindo a afirmar”, disse o líder comunista  

Jerónimo de Sousa criticou também Cavaco Silva por “não reconhecer que o povo é quem mais ordena, precisamente no dia 25 de Abril”, classificando a ideia de que “de nada valerá ganhar ou perder eleições” como uma “demonstração de que o Presidente da República é tão responsável como o Governo pela situação que vivemos”.

“Não fica bem a um Presidente da República pôr as decisões europeias, nomeadamente o Tratado Orçamental, à frente da Constituição da República Portuguesa”, concluiu.

João Semedo, coordenador do Bloco de Esquerda

“O Presidente da República fez um discurso de facção que ofende os princípios da pluralidade e da democracia do 25 de Abril”, afirmou. Cavaco “reconheceu o insucesso da política de austeridade e apelou a mais austeridade e sobretudo à resignação dos portugueses perante essa austeridade”. “Foi um discurso inacreditável que até os cravos que estavam em frente do Presidente da República caíram, tal foi o choque com as palavras do Presidente.”

“O Presidente da República é hoje o fio que agarra o Governo. Este é, como já alguém já disse, um Governo de iniciativa presidencial”. Para Semedo, Cavaco Silva pode ter apelado ao consenso, mas contrariou esse consenso ao ter “um discurso de sustentação da maioria política e ideológica que o elegeu, um discurso próprio de um tempo em que há uma maioria de direita, um Governo de direita e um Presidente de direita”. “É grave que um Presidente da democracia, considere que a democracia, que as eleições, não são a solução para as crises políticas”, afirmou também.

José Luís Ferreira, deputado de Os Verdes

“Mais parecia tratar-se de uma intervenção de um membro do Governo. Como o Governo não tem direito ao uso da palavra nestas situações, falou o Presidente pelo Governo”, disse.

“Falou muito, mas disse muito pouco. Sobretudo, não disse aquilo que para ‘Os Verdes’ e para os portugueses era absolutamente fundamental e mais gostariam de ouvir, que era dizer que faz parte da solução, está empenhado em pôr termo ao pesadelo da austeridade e disponível para devolver a palavra aos portugueses para que decidissem o seu destino.”

O deputado entende que Cavaco Silva terá “reafirmado a sua cumplicidade com as políticas e os resultados que delas derivam”.

Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD

“O Presidente da República fez um discurso objectivo, sereno e que foi a meu ver também corajoso no sentido de realçar a capacidade do país – independentemente do posicionamento político dos cidadãos e mesmo dos agentes políticos –  para ultrapassar a grave situação em que nos encontramos”, disse.

Para o presidente do Grupo Parlamentar do PS, o discurso do Presidente da República “conciliou bem o esforço das pessoas com o acerto do caminho que, por parte do Governo e do Parlamento, tem sido encetado em conjunto com os nossos credores”.

“Esse caminho não tem sido de submissão mas de interacção. Estivemos perante um discurso de esperança, porque também apela à responsabilidade que todos temos de ter no futuro, estando no Governo ou na oposição, tendo a nossa ideologia partidária, mas tendo igualmente a capacidade de estabelecer compromissos e consensos naquilo que é essencial. Estamos a falar em ultrapassar uma das mais graves crises que Portugal passou ao longo da sua História”, acrescentou Luís Montenegro.

Nuno Magalhães, líder parlamentar do CDS-PP

“Foi um discurso com elevado sentido de responsabilidade e muito claro na explicação que deu aos portugueses dos sacrifícios que viveram, que estão a viver ainda, daquilo que foi conseguido com esses sacrifícios e daquilo que é necessário ser feito e nomeadamente do que está a correr menos bem, ou seja, o combate ao desemprego e financiamento de pequenas e médias empresas.”, afirmou.

Para o líder da bancada centrista, o chefe de Estado disse simultaneamente que o país não pode continuar a viver como vivia, mas “também tem que passar a viver com crescimento”. O CDS-PP, afirmou também, revê-se “na crítica” de Cavaco a “alguma tecnocracia europeia, que falhou, em alguns momentos algumas das suas previsões e metas”. “Aquilo que foi dito é muito aquilo que o CDS tem dito.”

 “Os apelos ao bom senso, ao consenso e a concórdia são para o país, são para os parceiros políticos, são para os parceiros sociais, até para honrar a forma, às vezes em protesto, mas em concórdia como os portugueses têm sobrevivido a esta altura muito difícil”, disse também.