Portugal tem hoje o teste do "bom aluno" nos mercados

Portugal vai tentar provar nesta quarta-feira que está em condições de caminhar pelo seu próprio pé nos mercados com a primeira emissão de dívida a longo prazo desde 2011.

Vítor Gaspar conseguiu ontem um parecer favorável à extensão dos prazos dos empréstimos
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Vítor Gaspar conseguiu ontem um parecer favorável à extensão dos prazos dos empréstimos Georges Gobet/AFP

Portugal prepara-se para fazer nesta quarta-feira o primeiro leilão de dívida a longo prazo desde que teve início o programa de ajuda externa da troika. Segundo as informações avançadas, o Tesouro deve colocar um mínimo de 2000 milhões de euros com um prazo a cinco anos, num leilão que vai contar com o apoio de quatro bancos, um dos quais português.

Os analistas esperam que Portugal não ultrapasse a taxa de juro que é exigida no mercado secundário, onde a dívida é trocada entre investidores em segunda mão com referência a uma taxa de juro implícita. Os juros das Obrigações do Tesouro a cinco anos no mercado secundário rondam actualmente os 4,8%, taxa pela qual os investidores devem alinhar para o leilão desta quarta-feira.

Para ajudar o Tesouro português na tarefa de regressar temporariamente à emissão de dívida a longo prazo nos mercados primários estarão os bancos internacionais Barclays, Deutsche Bank, Morgan Stanley e o português BES. Cabe a estes bancos assegurarem o interesse de investidores que cubram os objectivos mínimos de venda de dívida, num molde de ida aos mercados chamado "leilão sindicado".

Desde que Mario Draghi anunciou, em Setembro, o apelidado Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE) que os mercados têm aprofundado a sua trégua ante a escalada de juros na dívida dos países do Sul e da periferia. Desde então, os juros da dívida soberana caíram em toda a linha para Espanha, Portugal, Itália e Irlanda.

Espanha e Itália, os únicos destes países com acesso normal ao mercado a longo prazo, têm aproveitado o período de acalmia para emitirem grandes quantidades de dívida a juros que se aproximam dos valores pré-crise do euro.

É neste contexto que o Governo tem planeado há semanas o regresso aos mercados primários. Com uma caminhada bem-sucedida, Portugal conseguirá provar aos investidores que está em condições de sair em boas condições do resgate internacional, com fim marcado para 2014. Estará também a enviar um sinal ao Banco Central Europeu (BCE), na esperança de cumprir as exigências para a entrada de Portugal no MEE. Segundo afirmou Mario Draghi, o programa de compra de dívida ilimitada só estará aberto aos países capazes de realizar emissões a longo prazo, algo que o Estado espera provar nesta quarta-feira.

Juros baixos não estão assegurados
Existem diferenças consideráveis entre a emissão de dívida no mercado primário e a tendência para a troca de dívida em segunda mão do mercado secundário, o que levanta dúvidas em relação às taxas de juro que o leilão sindicado pode, de facto, atingir.

Na manhã desta quarta-feira, os juros implícitos da dívida no mercado secundário a cinco anos encontravam-se ainda na casa dos 4,8%. Mas o facto de as taxas estarem a cair no mercado secundário não é, por si só, uma garantia do sucesso nas emissões. É que as taxas do mercado secundário podem não significar muito, tendo em conta o nível muito reduzido de transacções que se tem vindo a verificar no último ano.

Em todo o caso, o molde de leilão sindicado pode garantir a manutenção das taxas em baixa. Mas quando Portugal tiver que realizar emissões de maior dimensão, encontrar um volume suficiente de procura pode revelar-se difícil.

Mas, mesmo que os juros se mantenham na casa dos 4,8%, o Tesouro português vai pagar mais do que o que aconteceria se não fizesse o leilão de dívida desta quarta-feira. A troika assegura empréstimos a uma taxa média de 3,4% e com prazos mais longos do que cinco anos.

A Irlanda já passou no teste

O regresso parcial e antecipado aos mercados que Portugal tenciona cumprir nesta quarta-feira foi já ensaiado pelo melhor "aluno" na turma dos países sob resgate, a Irlanda. Em Julho de 2012, também através de um processo de leilão sindicado, a Irlanda colocou no mercado cerca de 4190 milhões de euros a cinco anos, com uns juros que rondaram os 5,9%.

Este primeiro ensaio foi encarado pelo Governo irlandês e pelos líderes europeus como um sucesso na antecipação ao regresso da Irlanda aos mercados, agendado também para 2014.

O Tesouro irlandês fez novo leilão de dívida a longo prazo no mercado primário em Janeiro de 2013, superando as expectativas dos investidores ao colocar 2500 milhões de euros a cinco anos com juros nos 3,5%. Este segundo leilão foi um reforço das Obrigações do Tesouro irlandês que haviam sido emitidas em Julho de 2012.

Notícia actualizada às 9h04.