O amor está no ar. E como está o cérebro?

Um aumento da libertação de oxitocina tem sido associado a sentimentos de união, quer em casais do mesmo sexo quer em casais heterossexuais. Só para que não restem dúvidas.

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Paulo Pimenta/Arquivo

Estamos em Fevereiro. Segundo algumas modas recentes e algo discutíveis, o mês no qual se celebra o amor. Como se algo grandioso como o amor pudesse ser contido num mês do ano! Mas podemos aproveitar o contexto para discutir como funciona um cérebro enamorado. Seja amor filial ou romântico, porque apesar de os distinguir, o cérebro encontra-lhes algumas semelhanças.

A neurobiologia do amor é um tema complexo que envolve a integração de várias áreas cerebrais, bem como múltiplas hormonas e neurotransmissores. Com o objetivo de esmiuçar esta complexidade, temos ao nosso dispor os progressos consideráveis nas técnicas de imagiologia cerebral. Em particular, o aparecimento da ressonância magnética funcional (do inglês functional magnetic ressonance imaging ou fMRI), capaz de detetar variações no fluxo sanguíneo em resposta à atividade neuronal.

Pela primeira vez, consegue ter-se acesso ao cérebro integral em funcionamento, através da deteção de alterações na ativação de zonas cerebrais especificas dos pacientes, quer em repouso, quer no decorrer de tarefas de memória, de reconhecimento facial, audição de música, leitura, jogos, etc..

Estudos com fMRI nos quais se evoca ou apresenta fotografias de pessoas queridas a indivíduos saudáveis, demonstram a ativação de áreas do cérebro associadas à recompensa e ao prazer, como o corpo estriado ventral e o córtex cingulado anterior, bem como áreas cerebrais envolvidas na regulação das emoções e no processamento de informações sociais.

Por outro lado, a oxitocina, uma molécula produzida no hipotálamo, desempenha um papel crítico na regulação da formação de pares em mamíferos monogâmicos. Em seres humanos, verificou-se que a administração intranasal de oxitocina aumenta o comportamento relacionado com vínculo, incluindo olhar para a região dos olhos, confiança interpessoal e empatia. É muitas vezes referida como "a hormona do amor" devido ao seu papel na promoção da interação social. Afinal, é produzida quando se estabelece o vínculo entre mãe e filho ou em situações de confiança mútua nas relações sociais.

Muitos artigos cómicos tiraram partido destas descobertas, perguntando se poderíamos finalmente fabricar a poção do amor, ou ter um antídoto anti-Cupido para bloquear estas respostas quando a sogra não gosta assim tanto da nora! Mas o processo é bem mais complexo e longe de estar limitado a uma molécula única.

E o amor homossexual? Obviamente que os neurocientistas fizeram essa pergunta, sendo um tema de interesse crescente entre a comunidade científica. Embora o número de estudos seja ainda muito reduzido, há evidências de que os mecanismos neurobiológicos envolvidos no amor entre pessoas do mesmo sexo são semelhantes aos envolvidos no amor heterossexual.

As mesmas regiões do cérebro associadas à recompensa e à motivação são ativadas quando os indivíduos visualizam imagens de seus parceiros românticos, independentemente do género do parceiro. Da mesma forma, um aumento da libertação de oxitocina tem sido associado a sentimentos de união, quer em casais do mesmo sexo quer em casais heterossexuais. Só para que não restem dúvidas — especialmente para os homofóbicos, que assim deixam de ter bases científicas para uma eventual discriminação.

Mas e o que acontece quando o amor romântico acaba? Ou perdemos um ente querido? Significa que os mecanismos associados ao amor romântico e afeto por aquela pessoa deixam de ser ativados no cérebro.

Curiosamente, isto pode ocorrer tanto como resultado de alteração nas circunstâncias do indivíduo, como também quando há aumento do stress, ansiedade ou diminuição da motivação devido a outras circunstâncias. Em casos extremos, pode ocorrer o que se designa de síndrome do coração partido, também conhecida como cardiomiopatia de Takotsubo. É uma condição cardíaca temporária que pode ocorrer em resposta a um estímulo emocional intenso, que se associa a perda de alguém querido ou o fim de uma relação.

Mas para os menos românticos entre os leitores, fiquem a saber que pode obviamente acontecer como resposta a qualquer emoção intensa e extrema. A condição é caracterizada por sintomas como dor no peito, falta de ar e alterações na função cardíaca que podem ser confundidas com um ataque cardíaco. Os mecanismos subjacentes a este fenómeno não são ainda totalmente conhecidos, mas há evidências de que seja desencadeado por um aumento abrupto de mediadores de stress, como a adrenalina e cortisol, na circulação sanguínea, em resultado de uma emoção intensa, levando a alterações na função cardíaca. Esta é uma condição reversível e, na maioria dos casos, o coração regressa à função normal dentro de alguns dias ou semanas, exceto em idosos ou indivíduos com problemas cardíacos pré-existentes, nos quais pode ter consequências mais graves.

Muito interessante seria também estudar o cérebro daqueles que não conseguem ou não sabem processar o fim de relações, cometendo crimes injustamente em nome do ‘amor’. Uma nota importante: independentemente da natureza, romântica ou não, a existência e promoção de interações sociais saudáveis previne a demência e melhora a qualidade de vida. Factos demonstrados por vários estudos.

Para terminar, claro que perguntei ao ChatGPT, uma ferramenta de inteligência artificial, que não possui cérebro (ou coração), se seria capaz de amar: ‘Como modelo de linguagem de inteligência artificial, não tenho sentimentos, emoções ou experiências pessoais. Não tenho a capacidade de amar ou sentir amor da mesma forma que os humanos. Eu existo apenas para gerar texto com base em padrões nos dados em que fui treinado.’

Em conclusão, o mecanismo neurobiológico do amor é complexo e multifacetado, o que obviamente exige espírito crítico e rigoroso na análise dos dados científicos, e sobretudo, sem emoções à mistura. Mas ainda bem que é algo individual, complexo e com algum mistério. Senão, onde estaria o romance para celebrar em fevereiro? Recomendo que oiçam o ‘Love will tear us apart again’ dos fabulosos Joy Divison e leiam o livro do sociólogo italiano Francesco Alberoni Enamoramento e Amor enquanto pensam sobre isto!

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