Estar com miúdos muitos dias seguidos pode provocar claustrofobia

É a mais pura das verdades que o ideal era termos uma aldeia a ajudar a criar os nossos filhos, mas na realidade o que acontece é que tendencialmente trabalhamos por turnos.

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@designer.sandraf

Querida Mãe,

Ia colar estas ideias no meu frigorífico, só para mim, mas depois lembrei-me que os avós também passam dias a fio com os netos nas férias, e por isso achei que também lhe podia ser útil!

Estar com miúdos muitas horas seguidas, muitos dias seguidos, pode provocar claustrofobia. É a mais pura das verdades que o ideal era termos uma aldeia a ajudar a criar os nossos filhos, mas na realidade o que acontece é que tendencialmente trabalhamos por turnos. Ficamos com eles, até o nosso marido chegar, estão na escola, na avó, ou com a tia, durante x horas, até os irmos buscar e esta versão intensa e solitária desgasta ao ponto de a perspectiva de os ter a todos de férias possa ser um bocadinho avassaladora. Foi por isso que me lembrei destas sugestões de como fugir um bocadinho, sem fugir de facto.

Aqui ficam alguns dos meus balões de oxigénio que me recarregam as baterias.

#1 Tomar um duche a meio do dia. Começo logo com a minha arma secreta que me surpreende sempre. Quando o ambiente ameaça ficar completamente caótico, largo tudo e vou tomar um duche. Não, mãe, não tenho a expectativa de que me deixem em paz muito tempo, mas curiosamente eles assumem que “não posso mesmo ir”, e tendem a resolver as questões sozinhos. É verdade que, às vezes, entram por ali adentro, pedindo-me para mediar uma discussão, mas normalmente entusiasma-se e entram para o banho também. E quando estão a brincar na água, saio e ganho mais uns minutos de sossego! (Para além de que ficam já lavados e é menos uma birra ao fim da tarde!)

#2 Secar o cabelo É um complemento do primeiro, mas funciona como um bónus. Sempre que começam o rol de queixinhas, ligo o secador e zás a comunicação torna-se tão chata e difícil que desistem!

#3 Jogo do “Procurem, enquanto eu fico no sofá”. Basta fazer uma lista de coisas a encontrar, numa versão simples do Caça ao Tesouro, com mesmo muuuuitas, e peça-lhes que façam uma cruz à frente da lista sempre que atingirem um dos objectivos — ou que lhe tirem uma fotografia com o (nosso) telemóvel. Só podem voltar quando a folha estiver completa

#4 A técnica do “Invista cinco minutos, receba 30” Muitas vezes parece que já não nos sobra energia para esta, mas se pusermos os olhos na recompensa, lá conseguimos encontrar uma réstia de combustível para a conseguir executar. Quando eles não param de andar atrás de nós a choramingar, e parece impossível acabar uma tarefa que seja, vale a pena parar e começar a brincar com eles. Investir de corpo e alma durante cinco minutos. Normalmente eles envolvem-se, e depois continuam a brincar sozinhos durante muito tempo.

#5 Este tem de ser usado apenas em SOS, mas é 100% fiável. Trazer-lhes um jogo novo (pode ser comprado, mas também podemos pedir emprestados a amigos jogos/brinquedos que os nossos filhos adoraram quando os visitaram). Costumo guardar alguns dos presentes de Natal ou de anos, para desencantar nestes momentos.

Mãe, quais são as suas estratégias?


Querida Filha,

Tenho tanto a dizer sobre isto, porque a verdade é que estes truques para sobreviver às férias aplicam-se também aos maridos. Ah, pois é, pelo menos na nossa cabeça, sentimos a necessidade de inventar ideias para que se entretenham sozinhos, sem precisarem da nossa companhia, mas isso pode ficar para uma outra birra.

Vamos a esta.

Conheces a expressão inglesa “Sitting duck”, um pato que está a sozinho no meio de um lago, quietinho, mesmo à espera de se caçado? Pois é exactamente assim que uma criança encara uma mãe ou uma avó que está sossegada no mesmo sítio.

Por isso basicamente o meu segredo de avó, com a vantagem de que os meus turnos têm fim à vista, é desistir de qualquer projecto pessoal que implique uma concentração prolongada, porque senão fico insuportavelmente frustrada com as constantes interrupções. Escolho, antes, cumprir todas as tarefas que tenho estado a adiar, como arrumar armários e livros, encerar móveis, encontrar os pares das meias desemparelhadas e coisas desse género que, aos olhos dos mais pequeninos, parecem muito emocionantes.

É claro que os avós podem tornar estas tarefas ainda mais aliciantes se oferecerem um pagamento à hora, moedas para um projecto que lhes seja querido (a M. já quase encheu um porquinho-mealheiro para ir à Disney).

A mim também me faz bem ser obrigada a desligar do computador, e acabo por ter uma recompensa enorme nas conversas e descobertas que fazemos juntos a cumprir missões que, a solo, me enchem de tédio. Além disso, quando se fartam de andar atrás de mim, percebem que a única alternativa é brincarem sozinhos e descobrem, também eles, o prazer da “solidão”. Nesses momentos, discretamente, tiro do bolso o telemóvel e faço o mesmo.

Ah, decididamente, não tenho inveja nenhuma de ti. Ser avó é muito melhor e como diz um íman que tenho no frigorífico se soubesse como era bom, teria começado por eles antes de ter filhos.


No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Mas, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram.

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