Maaza Mengiste: “Os nossos corpos são territórios a proteger”

Maaza Mengiste escreveu um épico com acção na guerra de 1935 na Etiópia. O Rei-Sombra desafia todo o tipo de fronteiras. É um retrato sem heróis sobre a contradição, o trauma, a culpa, o interdito, o corpo, sobretudo o feminino, e o modo como ele é instrumentalizado.

Foto
NFS Nuno Ferreira Santos - 3 Maio 2022 - PORTUGAL, Lisboa - Ciclo Conferencias do Nobel, uma parceria entre a Camara Municipal de Lisboa e a Fundacao Jose Saramago que integra o programa do Centenario do nascimento de J Saramago. Segunda sessao. Na foto a escritora e fotografa etiope-americana, Maaza Mengiste Nuno Ferreira Santos

O nome Maaza Mengiste é um dos mais respeitados na literatura contemporânea. Natural de Adis Abeba, onde nasceu em 1974, saiu do país muito nova depois da revolução etíope do mesmo ano. Etíope, americana, viveu na Nigéria, no Quénia, depois nos Estados Unidos, mais recentemente em Roma e agora em Berlim. O seu segundo romance, O Rei-Sombra, foi finalista do Booker em 2020. Nele, conta numa perspectiva íntima — ou doméstica, prefere dizer — a invasão italiana por parte de Mussolini da Etiópia de Haile Selassie. Dá protagonismo às mulheres, humaniza um imperador cheio de culpa e inventa um rei-sombra chamado Minim que quer dizer Nada e é estranhamente semelhante a Selassie. Estamos diante de uma longa canção onde se destaca o trabalho de linguagem. A escritora explora-a de modo a que a ela se torna uma das protagonistas deste romance sem heróis onde se pergunta quando é que uma guerra acaba realmente ou quanto é que conseguimos guardar na memória do que acontece. Tudo começa com uma criada, Hirut, e uma caixa cheia de objectos, pedaços dessa memória espartilhada. Esta é uma conversa em Lisboa com uma escritora finalmente publicada em Portugal.

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