Entre dois rios, bons ares e bons vinhos

A proximidade dos rios Cávado e Homem ameniza os vinhos e engrandece a paisagem que se aprecia das quintas. O loureiro gosta dessa vizinhança e a laranja de Amares também.

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Quinta d'Amares e mosteiro de Santo André de Rendufe (Amares)
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Casa da Tapada (Amares)
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Trilho da geira romana
Vinho
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Quinta Solar das Bouças (Amares)
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Quinta d'Amares (Amares)

Não é à toa que o loureiro se dá nos vales de três rios que atravessam a região dos Vinhos Verdes. A proximidade de Cávado, Ave e Lima traz amenidade aos vinhos feitos com esta casta de bago gordo. Em Amares, descobrimos produtores a fazer um trabalho interessante com loureiro, mas também com alvarinho, que se dá igualmente bem por ali, ambos beneficiando da protecção oferecida pelas serras Amarela e do Gerês e pelo Monte de São Pedro.

Primeira paragem: Quinta D’Amares, com o “seu” magnífico mosteiro de Santo André de Rendufe. O mosteiro do século XI é hoje do Estado, mas fica bem no meio da propriedade murada e atravessada por um aqueduto do século XVII, enformando a sua paisagem. A quinta foi adquirida pelo pai do actual proprietário, José Alberto Pedrosa, e o projecto de produção de vinho começou em 1991, com a renovação da vinha.

Com temperaturas médias a rondar os 15 graus e vindimas que podem experimentar 30 a 35 graus, a Quinta d’Amares produz essencialmente loureiros. A casta ocupa praticamente toda a quinta, à excepção de uma parcela num alto para lá do mosteiro, onde há alvarinho e arinto, esta para o espumante, aposta recente – o enólogo Diogo Schartt sublinha tratar-se de uma “região com enorme potencial” para espumantes.

São 60 hectares de vinha entre muros altos e mais 12 hectares “fora”, apresenta Schartt, que ali está há dois anos e continuou os ensaios em barricas de carvalho francês iniciados em vindimas 2015. A experiência, que para já permitiu lançar no mercado o Vinesa Loureiro 2018 e o Vinesa Alvarinho 2018, é para repetir.

Na Quinta d'Amares, o enólogo Diogo Schartt procura fazer "vinhos aromáticos e equilibrados", "com um frescura típica da sub-região do Cávado".
Nos 72 hectares de vinha da Quinta d'Amares produz-se sobretudo uvas da casta loureiro.
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A quinta está a construir um centro vínico, com abertura ao público prevista para 2022, que permitirá cimentar o enoturismo. O projecto será aberto às “comunidades locais que queiram mostrar o que de melhor se faz na região”. Enquanto isso não acontece, a quinta continua a receber quem por lá aparece para saber mais sobre a histórica propriedade e os seus vinhos.

A quinta fica entre os rios Cávado e Homem e é “influenciada pelos ventos marítimos”, ares que conjugados “com boas práticas de viticultura” criam a tal “atmosfera com temperaturas amenas, essenciais durante o abrolhamento e na fase da maturação” e que permitem “obter vinhos aromáticos e equilibrados” e “com uma frescura típica da sub-região do Cávado”, explica Diogo Schartt.

Ares que nos abrem o apetite para o almoço que se segue, no Elvira. Para encontrá-lo, há que seguir para sul, pelas estradas N205-3 e N205, atravessando por fim a ponte do Bico, onde os dois rios se juntam. Em dez minutos se chega à mesa.

Restaurante Elvira (Braga)
No restaurante Elvira (Braga), quem fica na varanda, de olhos postos no Cávado, tem uma vista tão prazerosa quanto a refeição.
Na carta do restaurante Elvira (Braga), há filetes de polvo suavíssimos e enxutos, servidos com arroz malandro de grelos.
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Mesa de encher a vista

Elvira Silva e a família estão a ter “um dia complicado” – casa cheia e alguns grupos –, mas a recepção no restaurante Elvira é feita com sorriso pronto e serviço eficiente e atencioso. É que, pensando bem, diz a mulher de figura discreta e comando seguro, “dias complicados são todos”. Quem fica na varanda, de olhos postos num dos cotovelos do Cávado, tem uma vista tão prazerosa quanto a refeição.

Carlos, um dos irmãos que trabalham com Elvira, traz para a mesa “a última garrafa” do Royal Palmeira Loureiro
2017 e fala com paixão do vinho e do seu produtor. Um branco untuoso e muito fresco que acompanhou sem mácula tanto o porco preto com legumes e ovo estrelado como os filetes de polvo, suavíssimos e enxutos, com arroz de grelos.

Mesa desfeita, volta-se a atravessar para a margem direita do Cávado e a seguir pela nacional 205. Chegados ao corte para Rendufe, o caminho é em frente, pela estrada municipal 568, para chegar à quinta Solar das Bouças, em Prozelo.

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Solar das Bouças (Amares)

Um despertar inspirador

“Querem ver o Cristo do Cutileiro?” A omnipresente Maria José parece adivinhar o pensamento dos visitantes recém-chegados ao Solar das Bouças. Por onde começar? É difícil focar um só ponto de interesse. A propriedade de 40 hectares é lindíssima e para onde quer que se olhe se vê arte. Entre o que é acervo da quinta e o que é da exposição “Arte da Leira para a Bouça”, há obras de Mário Rocha, Paulo Neves, Graça Morais, Abel Manta e muitos outros.

Foi o anterior dono, Fernando Van Zeller, quem encomendou o tal Cristo a João Cutileiro. Mas quando a quinta passou para as mãos da sociedade de investimentos que António Ressurreição lidera, a essa forma de arte chamada vinho juntaram-se as obras artísticas que hoje fazem a alma do lugar.

“Eu já tinha uma pequena colecção e trouxe-a para aqui. Isto é uma galeria de arte que sai fora do normal e queremos que ajude a potenciar a marca”, explica António, enquanto revela aquele que é ainda um projecto em curso e que convive com o Cávado ao longo de um quilómetro do traçado do rio. No bosque de Barreiros, tenciona construir uma unidade de alojamento que permita aumentar a capacidade instalada – para já, cinco quartos no solar e duas casas, uma com quatro e outra com três quartos.

O dia no Solar das Bouças (Amares) amanhece com um postal inspirador de neblina e luz quente.
Além do vinho e do hotel boutique, a alma do lugar vive de uma considerável colecção de arte. “É uma galeria que sai fora do normal”, diz o CEO António Ressurreição. ,
O Cristo encomendado pelo anterior proprietário ao escultor João Cutileiro é uma das peças mais emblemáticas da colecção de arte do Solar das Bouças (Amares).
Solar das Bouças (Amares)
No hotel boutique Solar das Bouças (Amares), os quartos são confortáveis e despojados, sem que nada lhes falte. E oferecem vistas matinais inspiradoras.
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Nos vinhos, negócio principal do Solar das Bouças, a influência do Cávado é providencial, já que “no tempo das geadas permite ter temperaturas um ou dois graus mais altas”, afastando a calamidade, e “no Verão faz baixar as temperaturas os mesmos um ou dois graus, evitando os escaldões”. Também aqui o loureiro convive com o alvarinho. Curiosamente foram os alvarinhos que cativaram no imediato – primeiro o nariz e depois a boca. O alvarinho clássico, mais seco do que os de Monção e Melgaço, e o alvarinho Premium, extremamente vegetal, com notas de espargos e um pimento vermelho que acorda de imediato o olfacto.

Da mesma forma que António deixou uma vida como gestor na indústria têxtil para fazer o “restart”, também o hóspede se sentirá a começar de novo e a “voltar à terra” no hotel boutique ​do Solar das Bouças. Dormir bem em leito confortável, quarto despojado, mas sem nada que lhe falte –, abrir a janela e ver uma bruma que canta sobre o Cávado. Um despertar inspirador. No piso térreo, Maria José faz o resto, num pequeno-almoço que é arte efémera, com panquecas ainda quentes, iogurte caseiro e doces de kiwi e laranja da quinta. Um acordar destes faz-nos o dia.

Um alto-relevo junto da Casa da Tapada parece representar Santiago Matamoros. “Esta quinta estaria no Caminho de Santiago e é uma ligação que gostávamos de retomar”, diz Luís Serrano Mira.
Casa da Tapada (Amares)
Na quinta da Casa da Tapada (Amares), o alentejano Luís Serrano Mira encontrou um lugar com história e vista desafogada.
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Vinhas e património

Deixando Prozelo para trás, segue-se a freguesia de Fiscal, e um encontro marcado com Luís Serrano Mira. A ligação deste alentejano a Amares não será óbvia, mas também se faz de laços fortes. “O meu avô foi sempre muito ligado ao vinho, e fazia férias de termas no Gerês. Em casa dele sempre houve vinho verde”, conta o administrador da Casa da Tapada – e da Herdade das Servas, em Estremoz, a que os mais atentos ao mundo dos vinhos mais depressa o ligarão.

A quinta tem 24 hectares, metade com vinha (mas apenas dois a produzir vinho), metade com mata. Esteve nove anos “parada” e, como tal, pede agora “muito trabalho”. Em curso durante a visita estão as obras de ampliação da adega e a construção de um miradouro de onde é possível ver as serras do Gerês.

A Casa da Tapada foi erguida no século XVI pelo poeta Francisco de Sá de Miranda, conta Catarina Soares, que é da terra e está responsável pelo enoturismo. “No início, existiu uma história de amor”, começa: Sá de Miranda apaixonou-se por Briolanja de Azevedo, de Vila Verde, e casaram em 1530. O poeta era um homem influente junto da corte e a quinta no Minho “era o seu refúgio”. Já na altura “ele produzia vinho”, atalha Serrano Mira, que também chama a atenção para o alto-relevo que parece representar Santiago Matamoros. “Esta quinta estaria no Caminho de Santiago e é uma ligação que gostávamos de retomar.”

A Casa da Confraria, a Casa da Eira – onde no futuro nascerá um alojamento local – e uma capela completam o edificado. E as visitas turísticas, simples ou incluindo prova, cruzam tudo isto: vinho, história e arquitectura.
Os vinhos, com assinatura do enólogo Ricardo Constantino, da Herdade das Servas, são minerais, frescos e elegantes, e bebem da tal circunstância de estarem neste “triângulo” desenhado pelos rios Homem e Cávado.

Na mata, há javalis, corças e esquilos, aves de rapina e outros pássaros. São famosas as “corujas da Tapada” e todos estão representados num painel que divide com os vinhos a atenção do visitante na loja-sala de provas da quinta.

A incontornável Churrasqueira de Caldelas (Amares) mudou o nome para Restaurante Caldelas, mas mantém-se conhecida pelos pratos de bacalhau, pelo cabrito e pelas carnes barrosãs.
Restaurante Caldelas (Amares)
José Antunes, filho dos fundadores da Churrasqueira de Caldelas, pegou no negócio de família em 2008.
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A arte de bem servir

Foram os vinhos nascidos na quinta de Luís Serrano Mira que acompanharam as pataniscas fofas, o bacalhau à Braga, a costeleta de vitela e umas já famosas rabanadas na incontornável Churrasqueira de Caldelas. Desde 2018, chama-se Restaurante Caldelas, mas mantém-se conhecido pelos pratos de bacalhau, pelas carnes barrosãs e pelo cabrito, sempre acompanhados por hortícolas da época e comprados a lavradeiras locais.

Numa das mesas, almoçam Maria do Céu e José, fundadores desta casa bem no centro de Caldelas e pais do actual proprietário, José Antunes, “um homem dos números com o bichinho da restauração” que passou a gerir a Churrasqueira em 2008. Queria ficar longe do sector, mas o abanão que o negócio de família sofreu ainda antes da crise financeira ditou o seu regresso a casa.

José não é só de números, é “de negócios”. E de visão. Visão que o levou a perceber, por exemplo, que quem passava a caminho de Santiago ficaria feliz por levar no passaporte de peregrino um carimbo local. Hoje é no seu restaurante que os viajantes “validam” a credencial.

Curiosidade avulsa: a escassos metros do restaurante nasceu não só o pai de José, mas também António Silva, o saudoso Chefe Silva, que ajudou a família a construir a carta do restaurante e a apurar a técnica da rabanada.

Sem sair de Caldelas, há que fazer uma visita a Maria José Pereira na sua loja de artesanato junto ao rio Alvito. “A amizade num [sic] se compra, constrói-se dia após dia”, lê-se no saquinho de pão que está a bordar com as cores de Amares. Há 19 anos que Maria José vende por ali lenços dos namorados e outros artigos com o famoso bordado. Por ali e na oficina que tem por debaixo de casa, em Besteiras, onde faz a época do frio (de Novembro a Fevereiro). “O bordado aplica-se em tudo”, afiança – o sortido da pequena loja atesta-o.

Parque das Termas de Caldelas (Amares)
Na loja de Maria José Pereira, em Caldelas (Amares), o bordado dos lenços dos namorados serve de motivo para diversas peças.
O trilho do Parque das Termas de Caldelas dá acesso ao percurso da Geira Romana, antiga via que ligava Braga a Astorga.
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Esmoer na Geira romana

Das termas de Caldelas, é fácil chegar ao miradouro de Santo Ovídeo ou seguir à descoberta da Geira Romana, nome popular dado a um troço da Via XVIII do Itinerário de Antonino, que ligava Braga a Astorga. A Geira passa muito perto dali e é hoje um dos caminhos para Santiago de Compostela. As setas amarelas indicam que se vai na direcção certa. O Trilho da Geira PR9 (10 quilómetros) fica já em Terras de Bouro, mas é uma oportunidade bem-vinda para queimar os excessos de um roteiro enogastronómico por terras de Amares. E de descansar o estômago antes de se voltar à mesa.

Na Casa Lata, como é mais conhecida a casa dos vinhos Terras de Amares, espera-nos José Carlos Costa. Aqui, o enoturismo é um projecto completo, com a produção de vinho e um agro-turismo a ocupar respectivamente José Carlos e a filha Margarida. O vinho ocupou por inteiro o espaço que outrora também era do gado e da produção de leite.

Na Casa Lata (Amares), o enoturismo é um projecto completo, com a produção de vinho e uma casa de agro-turismo.
A prova dos vinhos da Casa Lata (Amares) tanto pode ser acompanhada por queijos e compota caseira como pode ser uma daquelas “que substitui um jantar”.
Na Casa Lata (Amares), José Carlos Costa e Paula Barbosa produzem vinhos democráticos da casta loureiro.
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Com uvas de parcelas arrendadas e espalhadas por Amares e pelos concelhos vizinhos – em 85 hectares, apenas cinco são da família –, José Carlos e o experiente Fernando Moura, enólogo que também assina os vinhos do Solar das Bouças e faz consultoria em toda a região, fazem loureiros democráticos. A casta representa 80% da vinha plantada.

É Margarida quem acompanha os visitantes. Está sempre disponível, mas o melhor mesmo é marcar, pelo menos ligar antes de ir. A prova mais simples custa 8 euros por pessoa e inclui quatro vinhos. Por 15 euros, os vinhos fazem-se acompanhar por queijos e compota caseira. Para uma prova “que substitui um jantar”, o valor já é 30 euros. Normalmente, está disponível apenas para hóspedes, mas na época baixa é para todos. Qualquer uma das provas inclui visita guiada e exclusiva à adega e à vinha.

A laranja de Amares, “de casca fina, sumarenta, com muitas sementes e de Verão”, começou por ser um plano B para Arminda Costa. Hoje, a produção artesanal Quelha Branca ocupa toda a família.
“A laranja de Amares gosta de terrenos que drenem bem, não gosta de terrenos encharcados”, explica Arminda Costa, que se dedica a transformá-la na Quelha Branca.
A Quelha Branca faz compotas, algumas com vinho verde, mas também há tuiles à l’orange, farripas de tangerina, biscoitos e azeite aromatizado com laranja.
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Laranja local, economia circular

O loureiro gosta dos soutos de Amares e arredores – deste “solo granítico, com alguma argila residual” que, explica o enólogo Fernando Moura, “é permeável mas não é um saco roto”. A laranja, ao que parece, também o aprecia.

“A laranja de Amares gosta de terrenos que drenem bem, não gosta de terrenos encharcados”, conta Arminda Costa, que, com o marido, Fernando Macedo, começou a transformar a laranja de Amares numa altura em que não tinha colocação como professora e o futuro se lhes afigurava incerto.

Aquela variedade de laranja – “de casca fina, sumarenta, com muitas sementes e de Verão” – começou por ser um plano B. A produção artesanal Quelha Branca é uma segunda ocupação, efectivamente, mas que ocupa hoje toda a família. “Temos a produção certificada como biológica e acima de tudo queremos que a produção seja sustentável. Tentamos ter resíduo zero”, conta Arminda. “Não queríamos ser mais um produtor, queríamos ter um produto diferenciado que ao mesmo tempo apelasse à economia circular.” Na Quelha Branca, tudo se transforma.

Dali, saem compotas feitas com sumo e pedaços de fruta, e que sabem a fruta. Algumas também levam vinho verde. Também há tuiles à l’orange, farripas de tangerina “cozinhadas em calda de açúcar e desidratadas”, e azeite aromatizado com laranja. Tudo embrulhado numa imagem inspirada nos mesmos lenços dos namorados que vimos nas mãos de Maria José Pereira. Os produtos Quelha Branca também estão na lojinha da artesã em Caldelas, assim como em lojas do Porto e noutros pontos do país. A tal economia circular. Numa região de vinho que não é só terroir.


Este artigo foi publicado no n.º 3 da revista Singular.

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