“Existe um antes e um depois do João Cutileiro na escultura nacional”

Artistas e altos representantes do Estado reagem ao desaparecimento do histórico escultor, que morreu na madrugada desta terça-feira, aos 83 anos.

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João Cutileiro em Março de 2015 ANTÓNIO COTRIM/LUSA

“Existe um antes e um depois do João Cutileiro na escultura nacional.” Foi assim que, em declarações à agência Lusa, o escultor Rui Chafes reagiu ao desaparecimento de João Cutileiro, que morreu na madrugada desta terça-feira, em Lisboa, vítima de complicações provocadas por um enfisema pulmonar. O vencedor do Prémio Pessoa em 2015 define Cutileiro como “um nome incontornável, um pioneiro e um exemplo para muitos escultores mais novos do que ele”, descrevendo-o como um “inovador”, um “precursor corajoso” e “uma personagem histórica e quase heróica da renovação da escultura em Portugal”.

Similares palavras usou José de Guimarães, que se referiu a Cutileiro como alguém que “​modificou completamente o panorama da escultura em Portugal” e “um pai” para escultores como José Pedro Croft ou Manuel Rosa. “Homem com uma grande personalidade e um poder criativo muito grande, trabalh[ou] sempre como um operário”, sem medo de ser “inovador e polémico”, recordou o artista de 81 anos.

Para o escultor Pedro Fazenda, Cutileiro foi importante “por ter reformulado a relação com um material de excelência para a escultura, que é a pedra, renovando métodos de trabalho e a própria relação do objecto artístico com a sociedade e a produção”. Essa renovação “teve uma importância muito grande e é muitas vezes escondida pela visibilidade que o trabalho dele teve, sobretudo durante umas décadas”, opinou o artista ligado à associação Pó de Vir a Ser, sediada em Évora, geografia indissociável do percurso pessoal e profissional de João Cutileiro.

O ensaísta e curador Delfim Sardo, actual administrador do Centro Cultural de Belém (CCB), lembrou por sua vez o “grande papel” que Cutileiro assumiu enquanto “mobilizador de uma nova geração de escultores”, geração essa que ajudou a implementar um “novo pensamento” sobre a escultura, incorporando e estudando as noções do “volume”, do “corpo” e do “espaço público”.

Ouvido pela Lusa, o administrador do CCB acrescentou ainda que voltar a olhar para a escultura Dom Sebastião (1973), situada na Praça Gil Eanes, em Lagos, é a “melhor homenagem” que se pode prestar ao artista na hora do seu desaparecimento. “É uma peça do início da década de 1970, anterior ao 25 de Abril, que tem um sentido de oportunidade enorme: sendo uma homenagem a um rei, é uma visão crítica sobre o Portugal do Estado Novo, sobre um país com umas luvas e umas botas demasiado pesadas para conseguir mexer-se. De alguma maneira, sintetiza o espírito de uma época, o sentido crítico de uma época e a oportunidade que a escultura no espaço público pode ter.”​

"Dessacralizou a estatuária"

“João Cutileiro nunca foi indiferente, nem nunca nos deixou indiferente”, assinalou por sua vez Marcelo Rebelo de Sousa numa nota publicada no site da Presidência da República. “O surrealismo interessou-o, a política tentou-o, as viagens ao estrangeiro abriram-lhe horizontes”, observou o chefe de Estado, que, depois de destacar as “revisitações do imaginário” e o “franco erotismo” do trabalho de Cutileiro, acrescenta ter tido “o privilégio de com ele privar em certa época, num ambiente de amizade”.

“Trabalhando predominantemente com mármore, as suas obras públicas contribuíram para renovar o espaço público em Portugal e dessacralizar a estatuária. É com profunda tristeza que lamento a sua morte”, escreveu na rede social Twitter o primeiro-ministro, António Costa, para quem “a escultura portuguesa tornou-se contemporânea” com João Cutileiro.

Já a ministra da Cultura, Graça Fonseca, referiu que o escultor “soube romper com a tradição, abrir novos caminhos e reinventar Portugal e a sua história, criando uma mitologia ao mesmo tempo própria, mas também colectiva, pela forma como, a partir dela, vemos em espelho aquilo que somos, com humor e com assombro”. “Na arte, como na vida pública, João Cutileiro foi um criador corajoso, mas também um homem generoso, um mestre para muitos e um exemplo que teremos sempre presente. A sua obra, parte fundamental do património artístico português contemporâneo, é um legado que, permanentemente, continuará a desafiar, questionar e motivar-nos”, acrescentou.

“Afirmava que o desenho era a origem de tudo, e depois de deixar a sua marca na paisagem portuguesa — merecendo destaque, pela ruptura que constituíram, as obras instaladas no centro de Lagos, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, mas igualmente no Palácio de Mateus, em Vila Real, ou na Assembleia da República, onde se encontra o busto de Natália Correia —, era pelo desenho que se vinha expressando nos últimos anos, na mesma linha figurativa que o caracterizava”, frisou o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, sustentando que, tendo sucedido “ao mestre Leopoldo de Almeida”, João Cutileiro inseriu-se numa geração que “ajudou a revisitar a identidade portuguesa”.