Velha tradição minhota renasce

Lenços de amor: juras, promessas e declarações à moda antiga

Os Lenços dos Namorados do Minho foram, nas gerações passadas, verdadeiros “anéis de noivado” que estabeleciam vínculos e transmitiam mensagens de amor. Alzira Inácio contou ao PÚBLICO a sua história.

Tradicional lenço de amor do Minho
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Tradicional lenço de amor do Minho DR

"A amizade que eu lhe tenho só por morte terá fim. Aceite este lenço e não se esqueça de mim". Quando acabou de dizer a frase Alzira entregou o lenço a Joaquim e só o voltou a ver passados 17 anos. Foi um amor que resistiu ao tempo e à distância.

Alzira Inácio é “minhota de gema”. Apaixonou-se por Joaquim Lopes em 1952, num tempo em que as raparigas, sobretudo da região Norte do país, ainda bordavam em quadrados de linho, com linhas coloridas, mensagens de amor e desenhos codificados. O Lenço de Namorados que Alzira bordou para Joaquim já atravessou oceanos e encontra-se novamente em sua posse. “Foi feito em ponto pé de flor e tinha as nossas iniciais bordadas a ponto cruz. Os desenhos eram uns raminhos fraquinhos porque eu sempre gostei de coisas simples”, conta.

Segundo Ana Catarina Mendes, antropóloga que estudou os Lenços de Amor do Museu Nacional de Etnologia, os símbolos mais recorrentes que encontramos nos Lenços estão directa ou indirectamente ligados ao seu tema chave: o amor. Corações, motivos florais, chaves, pássaros e ramos, como os que Alzira bordou, são alguns dos desenhos mais frequentes. “Encontramos também silvas que são adornos bordados em forma de cercadura que imitam motivos florais e são também utilizadas para as orlas dos lenços”.

Quando Joaquim trocou o Minho pelo Brasil, Alzira tinha 17 anos e tinha namorado. “Namorava com outro porque não tinha muita confiança no que ia para o Brasil, mas já gostava dele, claro”. Quando soube que Joaquim ia partir, comprou “um paninho” e começou a bordar. Apesar de serem quatro irmãs, só Alzira aprendeu a arte dos Lenços de Namorados. “Copiava os da minha mãe e fazia às escondidas dela, nunca nos ensinou porque não queria que aprendêssemos, dizia-nos: ‘Não vos ensino, isso já não se usa, agora têm que aprender coisas modernas.”

Joaquim só voltou do Brasil em 1969. Nos 17 anos que estiveram separados pouco comunicaram a não ser por raras cartas. “Foi por Deus”, conta Alzira. Antes de Joaquim ter deixado o Minho, Alzira “despachou logo” o seu namorado. “Depois tive muitos pretendentes mas nenhum me agradava. Muitos até me vinham pedir ao meu pai em casamento mas eu não queria cá nada disso. Só com o que estava no Brasil”, recorda. Ficou à espera que Joaquim voltasse e diz que se não fosse ele não era mais nenhum: “Se ele não viesse, não casava”.

Como anéis de noivado

“Os lenços eram uma espécie de anéis de noivado”, conta Ana Catarina Mendes, na medida em que o seu uso por parte do homem significava aceitar o compromisso com a moça que o bordou. Eram uma declaração de amor que as “moças em idade casadoira” ofereciam como uma prenda entre namorados.

Os Lenços de Amor ou de Namorados têm como origem os lenços senhoris dos séculos XVII e XVIII e foram posteriormente adaptados pelas mulheres do povo. Numa primeira fase, começaram a ser usados como adereço do traje feminino passando mais tarde a peça integrante do enxoval que a moça começava a preparar na infância. “Entre lençóis e atoalhados era comum bordar-se um lenço subordinado ao tema do amor”, explica Ana Catarina, “depois de concluído era usado pela autora na bainha da saia ou no bolso do avental e mais tarde seria oferecido ao rapaz por ela escolhido. Este, por sua vez, para assumir publicamente o compromisso, usava-o por cima do casaco domingueiro, no bolso, ou ao pescoço”.

O lenço que Alzira bordou não cumpriu estes rituais, porque foi terminado perto da data da partida de Joaquim. Alzira sabia ler e escrever, completou com êxito a terceira classe. Por isso, a frase que bordou foi escrita por ela e não copiada de lenços já existentes como outras moças faziam. “Quem não sabia ler copiava os versos de outros lenços o que fazia com que a maior parte dos erros se deva à cópia (é comum encontrarem-se ‘S’ invertidos). Mesmo quando a autora sabia escrever, muitas vezes fazia-o com base na oralidade produzindo versos como: “Quando te vejo meu bem/ Meu amor minha alegria/Alebio do pensamento/ Cando sera esse dia”, esclarece, Ana Catarina Mendes.

O lenço que Joaquim levou para o Brasil e trouxe consigo 17 anos depois mantém-se, ainda hoje, quase intacto. Com medo de o estragar, nunca o lavou. Em 1970, quando já ninguém esperava, Alzira e Joaquim casaram. “O meu marido era muito alegre e muito jeitoso. Havia raparigas mais bonitas que eu mas ele escolheu-me a mim. Eu era mais simples. Da minha parte também se não fosse com ele já não era, estava decidido”.

”Amores à moda antiga”

Hoje com 76 anos, Alzira reconhece que os Lenços de Amor como compromisso são coisa do passado. “São amores à moda antiga”, reconhece, “As minhas filhas já não bordaram lenços, são de outra geração, os namoros agora são diferentes claro. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Alzira cita de cor parte da quadra que Camões escreveu há mais de 400 anos e resume, intemporalmente, as transformações que ocorrem nas formas de manifestar afecto.

Nas relações actuais, já não se cose com as linhas coloridas que um dia desenharam mensagens de amor codificadas. Ana Catarina Mendes conta que hoje em dia a produção individual é praticamente inexistente. Salvo raras excepções, os Lenços encontram-se à venda nas lojas de artesanato e as raparigas quando se casam encontram-nos aí. Os quadrados de pano que em tempos tiveram inscritos promessas de amor eterno são, actualmente, peças de artesanato procuradas por turistas em busca de coisas “típicas”, considerados verdadeiros objectos de colecção.

Nos últimos cinco anos, a “Adere – Minho”, Associação para o Desenvolvimento Regional do Minho vendeu mais de 2500 Lenços de Amor. Todos os Lenços certificados passam por esta associação e são oriundos de concelhos da região Norte como Ponte de Lima, Viana do Castelo, Barcelos, Braga ou Melgaço. Ana Catarina Mendes contou ao PÚBLICO que os Lenços de Amor estão muito em voga. “Um pouco em todas as áreas de criações multiplicam-se os artistas, em busca de inspiração, recorrem cada vez mais a temas do artesanato popular” e exemplifica: “Durante a Cow parade 2006 duas vacas tinham estampados motivos típicos dos lenços dos namorados e até os hipermercados Continente lançaram, no Outono de 2004, uma linha de roupa de casa e porcelana, inspirada nos mesmos, que incluía serviço de jantar, café e chá, atoalhados e roupa de cama.”

A história de Alzira e Joaquim pertence à das gerações passadas, onde os Lenços ainda não eram comercializados ou estudados mas apenas simples manifestações de amor. Joaquim e Alzira tiveram duas filhas e um casamento de quase 30 anos. “O lenço deu resultado”. Joaquim morreu em 1999. O objecto que em tempos fora o único elo que os unia ficou com Alzira. “Está aqui sempre comigo, as linhas é que desbotaram um bocadinho porque eu tive que o lavar com lixívia de tão negro que estava”, conta, como se juntamente com o lenço estivesse uma parte da sua vida da qual nunca se irá separar.