É possível amar uma cidade?

A relação tornou-se diária, menos idealizada, mais real. Com lutas, cedências, conflitos e vitórias. E não desistiu até cumprir o que prometeu à sua amada. Na poesia é muito bonito. Na fase inicial também. Mas todos sabemos que é nas provas dadas que se reconhece o amor verdadeiro.

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"Amar também é saber quando partir. Isso o meu pai soube, com a noção de dever cumprido" Andreia Patriarca

Desde que me lembro que vejo o meu pai vestir-se, calçar os sapatos, arrumar as coisas e sair da praia “antes que a maré suba”. Uma espécie de acordo silencioso com o mar. Como se o areal só pudesse comportar um dos dois e jamais os dois em simultâneo. Ou como se a sua função naquele dia de praia estivesse concluída. Os passeios à beira-mar foram dados. A maré subiu. É hora de partir.

Ainda não fiz nenhuma crónica sobre política. Também não será esta. No rescaldo das autárquicas (sempre quis usar esta expressão), poderia discorrer acerca das empresas de sondagens, da falta de coligações ou da abstenção. Mas acho que se tem comentado e reclamado muito competentemente. Do Twitter aos artigos de opinião, não sei o que teria a acrescentar ao panorama do comentário político acerca deste tema. Não é que o tema não mexa comigo, pelo contrário. Mas, convenhamos, não sou entendida o suficiente e ia acabar por copiar o Pacheco Pereira ou o Rui Tavares. E eu não sou boa a fazer artigos de opinião. Não consigo escrever “no rescaldo das autárquicas” sem perceber que vou para fora de pé, nem introduzir percentagens e dados cheios de clarividência, numa retórica convincente. Daria uma péssima analista política.

Ademais, quem me conhece sabe que acabo sempre, de uma maneira ou de outra, a falar da minha vida. E, por isso, não vou falar do político que é meu pai, mas do meu pai que é político. E aqui até uso político quase no sentido original da palavra, da Pólis.

É possível amar uma cidade? Como se ama uma pessoa? Lisboa já nos tem feito crer que sim, na vasta obra de poesia que existe sobre o Tejo, as colinas, o castelo. Mas o amor platónico da poesia é fácil. É possível amar uma cidade? Talvez seja consensual que o amor se reconhece. Não se sabe o que é, mas sabe-se que é.

Lembro-me de ter oito anos, de estar com o meu pai em Amesterdão a andar de bicicleta e do seu entusiasmo: “E se andássemos assim por Lisboa?”, ou nos mercados em Madrid: “Isto em Lisboa é que era!”. “Lá está ele”, pensava eu. “Pode sair de Lisboa, mas Lisboa nunca sai daquela cabeça.” Quando me foi visitar ao Rio de Janeiro fui apresentar-lhe, orgulhosa, a cidade que me tinha apaixonado, ansiosa por que ele percebesse o motivo da minha troca. E ele adorou. Mas era uma adoração muito pueril, vaga. Seguia-se um silêncio e eu percebia logo que ele estava a pensar na outra. Ia caminhando, empolgado com as esplanadas em cada esquina, viradas para a rua. Parava em cada uma para beber um sumo. “O que é que lhe está a dar para beber tanto sumo?!” Não era só sede. Nem estava, de súbito, rendido à tropicalidade. Estava a tirar ideias para partilhar com a sua amada.

Durante os quatro anos em que estive longe, travámos esta guerra tácita em que eu enumerava as qualidades do Rio e ele retorquia: “E Lisboa? Lisboa está espectacular.” Quando regressei, depois dos anos de ausência, comprovei que ele tinha razão. Lisboa estava diferente. Mais bonita, mais verde.

Das vezes em que vi o meu pai mais enfurecido, foi quando demos de caras com um homem a deitar lixo para o chão, no nosso bairro em Lisboa. O meu pai não se controlou e deu-lhe um sermão que, na altura, me deu vontade de me esconder. Ficou verdadeiramente irritado. Como se estivessem a maltratar o seu amor. E estavam.

Como todos os amores, este passou por várias fases. Teve a fase assolapada e adolescente. O amor transgressor. O auge da paixão em que o meu pai plantava árvores clandestinamente em Lisboa. Eu cresci a achar que era normal as pessoas plantarem árvores ao fim-de-semana. No bairro onde nasci, sempre que passo por alguns jardins, aponto para as árvores que plantámos quando eu tinha seis anos: um castanheiro-da-índia, um pinheiro bravo, uma laranjeira. Eram mais baixas que eu e hoje já fazem sombra às minhas filhas.

O meu pai sempre odiou andar de carro, em geral, e, ainda mais, em Lisboa. Impacienta-se, começa a bufar e, se não estiver a conduzir, é possível que diga: “Vou a pé!” Será possível amar Lisboa dentro de um carro? Os enamorados vão a pé. E a pé ele vai. A pé sempre foi. À medida que vai andando, vai-nos contando as histórias das ruas, das árvores, dos restaurantes, das pessoas. Farta-se de passear por Lisboa. Fê-lo muito com o seu amigo e mentor Gonçalo Ribeiro Telles, um homem que com ele partilhava este amor. O meu pai sempre soube reconhecer os outros apaixonados por Lisboa e desses nunca teve ciúmes. Pelo contrário, sempre gostou de estar perto deles a falar da amada. Uma forma muito evoluída de amor. Desde sempre que quis cultivar em mim este amor por Lisboa. Levava-me aos jardins, igrejas, museus, ou então “vamos só ali ver o rio”. Levava-me ao Museu Geológico de Lisboa e apontava para os ossos dos dinossauros: “Este aqui andava pelo Areeiro.”

Pior do que dentro de um carro, só dentro de um centro comercial. As únicas vezes que consegui arrastar o meu pai para centros comerciais foi para ir ao cinema e, mesmo assim, a muito custo. Será possível amar Lisboa dentro de um centro comercial? Para ele, sempre foram as pequenas lojas, os pequenos produtores, os seus produtos e as suas histórias. Já me advertiu: “O futuro está aqui, está no comércio local.” Uma visão ecológica para a cidade e para o mundo, com valores políticos e humanos, misturada com a educação que sempre me deu. No seu caso, as duas nunca estiveram dissociadas.

Quando foi eleito vereador, a paixão deu lugar ao compromisso estável. Tornou-se um marido dedicado. Mas não por isso menos romântico. Como aqueles casais que mantêm os hábitos dos primeiros tempos de namoro para reavivar a chama, o meu pai continuou a plantar árvores e a fazer caminhadas. Tinha muitos sonhos, como qualquer apaixonado. Alguns tão extravagantes para a época, que lhe chamavam maluco. O corredor verde do Ribeiro Telles, a frente ribeirinha, as ciclovias, os mercados, as hortas, os jardins e, até, as vinhas. Nunca parou de sonhar. Mas sonhar só é fácil. E isto é uma relação séria. Os sonhos deram lugar a projectos e objectivos. A relação tornou-se diária, menos idealizada, mais real. Com lutas, cedências, conflitos e vitórias. E não desistiu até cumprir o que prometeu à sua amada. Na poesia é muito bonito. Na fase inicial também. Mas todos sabemos que é nas provas dadas que se reconhece o amor verdadeiro.

No dia do seu aniversário almoçámos na Margem Sul, com vista para Lisboa, e ele, a olhar para ela, babado: “Não há nenhuma igual.” Tantos anos se passaram e tantas dores de cabeça lhe deu e ainda a olha como se fosse a primeira vez: “Já reparaste na silhueta? É a silhueta mais bonita de todas.”

Às vezes, e não direi nomes (outra coisa que sempre quis dizer), iam surgindo pretendentes: alguém para exercer determinadas funções em Lisboa, alguém a prometer mundos e fundos para a cidade. O pânico na cara do meu pai era o mesmo de um ex-namorado que não esquece o amor da sua vida e que nunca achará ninguém suficientemente bom para ela: “Esse? Mas ele nem a conhece! Nem sabe nada sobre ela!” Só faltava mesmo: “Ele não a ama!” O que mais o preocupava era que o seu sucessor não a amasse e não a fizesse feliz. “E ela cai nisso?” Às vezes cai. Faz parte da vida, da democracia. Poder escolher é muitas vezes escolher o que pode não ser o melhor para nós.

Hoje, já vê as netas brincarem nos jardins que ajudou a florescer, como sempre quis. Graças ao seu trabalho, Lisboa ganhou o Prémio de Capital Verde Europeia. Este ano ele ganhou o maior prémio de ecologia do país, o prémio Gonçalo Ribeiro Telles, o mentor e amigo com quem passeava a pé.

Amar também é saber quando partir. Isso o meu pai soube, com a noção de dever cumprido. Decidiu sair e deixar as funções que tão bem executou durante 16 anos.

Talvez sentisse que a maré ia subir. E não por medo, o medo nunca o impediu de agir, mas por respeito, pôde sair confiante, sabendo que deixou uma marca inequívoca e uma cidade muito diferente, para melhor.

O trabalho está feito. A maré subiu. É hora de partir.

Mas nunca de deixar de amar.