UE oferece milhões mas não abre a porta aos Balcãs Ocidentais

Chefes de Estado e governo da União Europeia reúnem-se mais uma vez com os líderes dos seis países candidatos à adesão, para confirmar o seu compromisso com a região. Mas isso não quer dizer que estejam prontos para abrir negociações formais com a Albânia e a Macedónia do Norte.

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Os líderes políticos dos Balcãs estão cada vez mais impacientes com as manobras de Bruxelas

Para “disfarçar” a sua divisão quanto à importância e a oportunidade de promover o dossier do alargamento, ao mesmo tempo que discutem o “papel internacional da União Europeia no mundo global”, os líderes dos 27 prepararam uma longa lista de anúncios, programas, planos de acção, itinerários e acordos de cooperação com os países dos Balcãs Ocidentais que são candidatos à adesão ao bloco.

“Em comparação com anteriores cimeiras entre a UE e os Balcãs Ocidentais, teremos vários anúncios muito concretos para o aprofundamento desta relação e para o desenvolvimento da perspectiva europeia e da integração da região”, explicou uma fonte europeia, um dia antes de seguir para a Eslovénia, onde esta quarta-feira vai decorrer mais uma cimeira entre os chefes de Estado e governo da UE e dos Balcãs Ocidentais.

Bruxelas apresentará um um novo programa de 30 mil milhões de euros para investimentos em conectividade e na transição energética, e um novo pacote extraordinário de 3,3 mil milhões de euros para o apoio à recuperação económica e social da crise da covid-19, complementado com a doação de um número suficiente de doses de vacina para que a região possa atingir a mesma meta de cobertura da vacinação da UE até ao final do ano.

Também será anunciado um plano de acção para os transportes, que inclui um acordo para “corredores verdes” para o tráfego de mercadorias, e um calendário para a redução progressiva das tarifas de “roaming”. Ou ainda a criação de um “espaço de inovação comum” e a assinatura de acordos de cooperação política e de segurança nas áreas das migrações ou combate à radicalização e ao crime organizado.

Isto tudo porque, como justificou a mesma fonte, os 27 acreditam que este é um “bom momento” para a UE ser mais “assertiva” numa região que é disputada por outras potências mais próximas, como a Rússia, ou mais longínquas, como a China. “Convém não esquecer que a UE continua a ser o maior parceiro comercial, o maior contribuinte e o maior investidor nos Balcãs”, acrescentou um outro responsável europeu, num recado para as capitais da região que seguramente não impressionará os líderes políticos cada vez mais impacientes com as manobras de Bruxelas.

É que por mais bem-vindos que possam ser os planos e os milhões destinados à região, a grande promessa da abertura das portas do clube europeu à Albânia e à Macedónia do Norte, os dois países que já cumpriram todos os pré-requisitos para a abertura formal das negociações de adesão, e ainda ao Montenegro, Sérvia, Kosovo e Bósnia-Herzegovina, continua por realizar. E não será nos próximos dias que esse projecto ficará mais perto de se concretizar.

Na sua habitual carta de convite aos líderes, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, nem sequer menciona a palavra “alargamento”: a cimeira com os Balcãs Ocidentais, escreveu, será uma “oportunidade” para recordar a sua importância estratégica e discutir o “compromisso” com a região. Segundo o PÚBLICO apurou, uma referência à “ambição” do alargamento deverá constar na declaração final que os 27 estavam a negociar, mas devidamente calibrada com uma nota sobre a “capacidade da UE para assegurar o seu próprio desenvolvimento e a integração de novos membros.”

Papel da UE no mundo

As expectativas são muito maiores para o debate político que Charles Michel vai promover, já esta terça-feira, durante um jantar de trabalho imediatamente após a chegada dos líderes a Brdo, nos arredores da capital eslovena. “Gostaria que tivéssemos um debate estratégico sobre o papel da União na cena internacional à luz dos recentes desenvolvimentos no Afeganistão, da parceria de segurança AUKUS e da evolução das nossas relações com a China”, escreveu o presidente do Conselho Europeu, que defende uma “política externa robusta” e uma maior capacidade e autonomia da UE na salvaguarda dos seus interesses.

“Não se espera que a UE vá alterar a sua política em relação à China, nem repensar a relação transatlântica durante o jantar. Mas tivemos desenvolvimentos sérios no palco global nas últimas semanas e é importante que a UE clarifique a sua posição”, observou uma fonte europeia.