São estes os Globos de Ouro que nós queremos?

A educação de uma sociedade tem muito em comum com a educação de um cão. O seu comportamento é moldado pelo que aprende que não pode fazer, e pelo que é estimulado a fazer.

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LUSA/RODRIGO ANTUNES

Será talvez o maior evento de premiação em Portugal. E isso deixa-me a pensar. A elegância, a beleza, a riqueza, a extravagância e o talento de tantos, fazem brilhar os olhos dos portugueses. É tudo tão bonito, tão glamoroso, tão idílico que molda os nossos sonhos. Nós queríamos estar ali. Queríamos sentir o que eles sentem. Queríamos ser iguais a eles. Queríamos alcançar o que eles alcançaram, nem que seja nos nossos sonhos. E esse é o ponto que merece a minha reflexão.

A educação de uma sociedade tem muito em comum com a educação de um cão. O seu comportamento é moldado pelo que aprende que não pode fazer, e pelo que é estimulado a fazer, muito à custa do reforço positivo recebido pelo seu dono, premiando o bem que faz. Ora, nós discutimos muito a punição, as leis que balizam os nossos comportamentos, a justiça das penas aplicadas a quem prevarica, as consequências nefastas e contagiantes da impunidade, mal ou bem tudo isso é discutido regularmente e com afinco, porque acreditamos muito que disso depende uma melhoria dos nossos padrões de comportamentos em comum.

Mas será que chega discutirmos como e quem devemos punir para acreditarmos que estamos a lutar por um mundo melhor? A mim parece-me claramente que não. E o resto? E a educação pelo exemplo? E os estímulos positivos? Onde está a ênfase na cultura de premiação pela luta de uma sociedade e de um mundo que queremos ter? Não existe, ou quando existe é quase ridicularizado, como é o prémio de Fairplay. Quem é que se interessa com isso? O que importa é ganhar, nem que seja a roubar, é isto que o mundo nos ensina. E por isso teimamos em não valorizar o que depois no fundo todos nós concordamos como sendo epicentro da nossa existência, e a base da cooperação. A justiça, a igualdade, a segurança, a educação, a saúde, a bondade, a compaixão, a empatia e tudo mais que define o nosso humanismo. Mas tudo isso ninguém premeia. Nem sequer é nada sexy.

Para que não se diga que só critico sem apresentar soluções, eu tenho uma proposta já com tudo pensado. Pode ser para a SIC/Caras ou para quem nela acreditar. E mesmo se me roubarem a ideia, eu não ficarei chateado porque o que interessa é que aconteça. Eu tirava ali umas categorias, não sei bem dizer quais porque não as conheço na íntegra e não quero ofender ninguém, e colocaria estas:

  • Educação: Seria premiada a intervenção directa ou indirecta na educação nos locais do mundo onde ela escasseia ou é inexistente. Sem dúvida o principal pilar para salvarmos o mundo.
  • Desenvolvimento: Premiar as intervenções que têm como objectivo principal capacitar populações em risco para a sua autonomia em termos de segurança económica.
  • Refugiados: Gostava que não fosse um tema isolado, mas penso que terá de ser. Seria premiada a organização com maior impacto no alívio do sofrimento desta enorme fatia de seres humanos do planeta.
  • Intervenção médica: Seja na área da formação ou na intervenção médica directa das populações mais vulneráveis, aquém e além-fronteiras. 
  • Artes: Música, escrita, pintura, escultura, etc.... que tenha como objectivo principal enaltecer ideais humanitários. A arte de intervenção. A arte que luta por um mundo melhor.
  • Jornalismo: Valorizar o jornalismo de intervenção nas áreas mais esquecidas e para onde deveria estar o maior enfoque da comunidade internacional. É fácil “vender” o Afeganistão quando todos dele falávamos, o difícil é agora, que precisa da nossa atenção mais do que nunca, e aos poucos ninguém vai querer saber.
  • Filme e Fotografia: Intervenções documentais que mostrem os problemas de maior dimensão dos nossos dias e/ou as suas soluções. Ponham-nos a pensar, ponham-nos a sentir o que verdadeiramente interessa.
  • Planeta: Premiar as organizações com maior impacto ambiental. Alterações climáticas, diminuição do plástico, etc..
  • Mulher: Promoção da igualdade de género e essencialmente combate contra a discriminação no acesso à educação, trabalho infantil, e violência sexual que é tão real em tantos países.
  • Habitação: Valorizar aqueles que têm permitido que o sonho de ter um tecto seja uma realidade na contribuição para a dignidade humana.
  • Acção individual: Premiar aqueles que sozinhos ou sem grande organização, conseguiram através das suas acções ter um impacto positivo na vida dos que mais sofrem no mundo.
  • Direitos Humanos: Este será provavelmente o equivalente ao Óscar para o Melhor Filme. Quase todos os elegíveis para outras categorias estarão também elegíveis para esta.

Para começar, estes parecem-me os temas mais relevantes, mas certamente o tempo nos fará acrescentar “prémios” igualmente importantes. Mas e então a inspiração e o prémio atribuído ao vice-almirante Gouveia e Melo? Sinceramente, depois de tudo o que passamos, acho de uma profunda injustiça. Tenho imensa admiração pelo vice-almirante e desfaço-me em elogios pelas suas competências, mas depois de mais de um ano e meio em pandemia, para mim é óbvio que aquele prémio deveria ter ido para os profissionais de saúde incógnitos, principalmente os que estão ao lado dos doentes como os enfermeiros e auxiliares, e se ainda sobrasse algum espaço neste prémio especial da noite seria para aqueles que lutaram voluntariamente para mitigar a tragédia social e económica, das consequências da pandemia, os que deram de comer e/ou um tecto a quem tudo perdeu. Mas o que mais vende é o que está já está vendido, e os holofotes da SIC não poderiam gastar o seu tempo com ilustres desconhecidos.

Ainda tivemos tempo de ouvir que “as vacinas têm de chegar a todos os cantos do mundo”. Devo confessar que já reviro os olhos quando ouço esta frase. Uma coisa é a Organização Mundial da Saúde dizer isto, que tem que o dizer como instituição na representação mundial da saúde, que o é, outra coisa é alguém que tenha conhecimentos de causa e diga isto com a displicência que uma miss diz querer “paz no mundo”. Queremos todos. Eu também quero. Nada de errado em dizer isto, mas a mim soa-me sempre a ignorância atrevida, mas daquela que não podemos levar a mal, porque vem de um lugar com boas intenções.

Por que é que “vacinas para todos” não é só utópico como chega até ser hipócrita, se não for por ignorância? Porque há 25% da população mundial que não tem acesso a medicamentos essenciais, e há 50% da população mundial que não tem acesso continuado a cuidados de saúde, havia 260 milhões de pessoas em risco de morrer à fome em 2020, e cerca de nove milhões de crianças até aos 5 anos morrem todos os anos na sua grande maioria de causas facilmente tratáveis, sendo quase metade relacionadas com desnutrição... Agora digam-me que é a vacina contra a covid-19 que, de repente, é a maior prioridade para resolver a hipocrisia ocidental? Não é que não seja importante, simplesmente não me parece que esteja no topo das prioridades na luta por um mundo melhor.

Estes Globos de Ouro são bonitos, mas eu sonho e continuarei a lutar para que um dia sejam à imagem do mundo que gostaríamos de ter.