Saturação e banalização são hoje os maiores riscos da pandemia

Cristina Ponte, da Universidade Nova de Lisboa, defende que “há uma necessidade de fornecer dados de uma forma diferente, mais espaçada (semanal), menos monótona e menos cansativa”.

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Saturação e banalização são hoje os maiores riscos da pandemia,Saturação e banalização são hoje os maiores riscos da pandemia Adriano Miranda

A saturação da população e a banalização das mortes causadas por covid-19 são actualmente os principais riscos da pandemia provocada pelo novo coronavírus, na opinião da especialista em comunicação Cristina Ponte, da Universidade Nova de Lisboa.

“Há uma saturação com uma situação que sabemos que não acabou, mas há um cansaço, há um risco de banalização, isso é o que me preocupa mais”, afirmou em entrevista à agência Lusa a professora catedrática, referindo que a tendência começa a ser a de desvalorizar as mortes de cinco a seis pessoas por dia e de as comparar às causadas por outras doenças ou acidentes.

Para a investigadora, a “banalização da informação” diária apresentada pelas autoridades de saúde deve ser alvo de reflexão, por forma a ser transmitida com clareza e objectividade, mas evitando que o modelo de fornecimento dos dados deixe de ter impacto. “A pandemia não acabou, isso tem de ser comunicado, mas há uma necessidade de fornecer dados de uma forma diferente, mais espaçada (semanal), menos monótona e menos cansativa”, vaticinou.

A intenção já manifestada pela directora-geral da saúde, Graça Freitas, de libertar os portugueses do boletim diário relativo à covid-19 parece-lhe, por isso, uma boa medida.

Numa análise à comunicação institucional feita ao longo do último ano e meio, Cristina Ponte identificou também o risco de “confusão” com a panóplia de regras aplicadas sucessivamente em diferentes contextos, de estabelecimentos comerciais a territórios: “Houve uma diversificação que penso que foi necessária, no sentido em que o país não era homogéneo, havia zonas que tinham contextos diferentes, mas isso também levou a alguma confusão”.

“Depois, as próprias vozes governamentais também nem sempre estiveram em sintonia”, observou, referindo-se às tutelas da educação, da saúde e da economia, face às medidas de confinamento que condicionaram as diversas actividades. “Às vezes até o próprio poder local —​ estivemos em período pré-eleitoral e isto foi também muito usado. Quase que cada autarca se transformou num expert de como gerir a pandemia no seu concelho. Houve aqui alguma confusão”, admitiu.

Ao nível do aconselhamento, a investigadora do Instituto de Comunicação da Nova considera que foi descurada a área da comunicação e do comportamento, nomeadamente psicólogos e peritos em comunicação de crise.

A circunstância faz também, segundo Cristina Ponte, com que os chamados negacionistas e movimentos que encaram todas as medidas de segurança sanitária como “um exagero” tenham encontrado terreno — “felizmente um espaço ainda muito pequeno e esperemos que continuem assim”.

Task force marcou viragem na comunicação

A entrada em funções da task force para a vacinação, liderada pelo oficial Henrique Gouveia e Melo, marcou um ponto de viragem na comunicação relativa à pandemia de covid-19, defende a investigadora Cristina Ponte.

“Para já foi logo uma figura diferente, uma figura singular, não era um tecnocrata, era alguém operacional, que até se apresentava daquela maneira”, afirmou a especialista em comunicação, referindo-se ao uniforme militar com que o coordenador da task force assumiu o combate ao novo coronavírus.

“Acho que o contributo dele, num momento em que não estavam a chegar as vacinas com a velocidade que se pretendia, e a liderança que imprimiu neste processo foi muito importante, porque foi uma figura tranquila, sem dramatização e ao mesmo tempo uma figura em que as pessoas reviram a autoridade do ser capaz de conduzir a missão”, considerou.

Para Cristina Ponte foi também “muito importante” o facto de a grande maioria da população desejar ser vacinada e de não ter vingado em Portugal “um movimento antivacinas forte”, como noutros países da Europa, nomeadamente em França.

“Foi um bom exemplo de uma liderança eficaz para a condução de uma acção, complementada com um contexto de saúde e de uma população que confiou e que desejou também ser vacinada”, disse. O desempenho da missão acabou por contribuir para o prestígio das Forças Armadas, cuja imagem se encontrava abalada, admitiu.

A gestão da comunicação da pandemia foi, segundo a investigadora, “um enorme desafio”, porque “não vinha nos manuais” e abrange vários fenómenos que não apenas a questão da saúde pública como um todo, mas a forma como as pessoas lidam com situações inesperadas, com os medos, com a recusa e a manipulação da informação.