Um Algarve menos visitado: um périplo por igrejas ricas em história e não só

O leitor José P. Costa guia-nos por um outro Algarve, o de igrejas que merecem ser visitadas: da igreja matriz de Vila do Bispo e da dourada monumentalidade da Igreja de Santo António em Lagos às singularidades da Igreja Matriz de Tavira.

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igreja de Santo António, em Lagos

Vi muitas coisas nas minhas viagens e o meu saber ultrapassa as minhas palavras
in Livro Bíbico de Ben Sir, ou Eclesiástico, 34,11

O Algarve - cujo nome árabe é Algarbe Andalalus, e foi, em 1267,  através do tratado de Badajoz, que ficou definitivamente considerado território nacional - não é só praia, mas também, registe-se. Contudo, a vertente cultural e, particularmente, a religiosa, está ali presente em muitas localidades. Atentemos, pois, a alguns locais onde podemos descobrir, ver ou rever espaços religiosos de inquestionável beleza e sentimento.

Assim, principiemos por Vila do Bispo, cujo primeiro registo data de 1329, devido à carta foral assinada por D. Afonso IV, onde encontramos a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, a qual foi edificada em finais do século XV. O interior da Igreja é de notável beleza, harmonizando de forma peculiar a talha dourada dos altares, o revestimento azulejar das paredes e a pintura decorativa do tecto. É composta pela Nave, pelo Baptistério, pela Capela do Senhor dos Passos, Capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo, pela Capela de São José, Altar de São Vicente, Arco triunfal e Capela-mor.

Depois seguimos até Lagos, designada por Lácobriga, cerca de 2000 a.C. pelos cónios. Aqui visitamos a Igreja de Santo António, considerada Monumento Nacional, edificada em 1707 e reconstruída em 1796, considerada uma das mais belas do nosso país graças ao seu revestimento em talha dourada do período  barrroco, pelo que esta é uma visita imperdível. A igreja só presta serviços religiosos no dia do seu padroeiro, ou seja no dia 13 de Junho.

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Igreja Matriz de Vila do Bispo

Rumamos até Silves, conhecida por Xelb, Xilb ou al-Shilb, durante o domínio muçulmano. Nesta cidade é importante visitar a Igreja da Misericórdia. Em 1491, por doação de D. João II à rainha D. Leonor, Silves passou a pertencer à casa das rainhas, o que terá motivado a construção desta igreja na segunda metade do século XVI, para servir a Santa Casa da Misericórdia, entretanto fundada pela ‘rainha-velha’, apodo como também ficou conhecida D. Leonor de Lencastre (1458-1525), por ter vivido nos reinados do primo e sogro, D. Afonso V, do marido, D. João II, do irmão, D. Manuel I, e do sobrinho, D. João III. No seu interior podemos observar um templo de dimensão razoável, de uma só nave, coberta por uma abóbada de berço, seccionada por cinco nervuras paralelas partindo de mísulas diversamente decoradas.

Partimos até à capital do distrito, Faro, cujo primeiro registo é do século VIII a.C, com a designação de Ossónoba, e em 1249 D. Afonso III designou-a por Santa Maria de Faaron, ou Faaram. Aqui temos de nos demorar na visita à Sé Catedral, a qual foi edificada após a conquista da cidade aos mouros. Construída possivelmente sobre a antiga mesquita – que por sua vez teria sido edificada sobre um templo cristão visigótico, foi entregue à Ordem de Santiago. A Sé de Faro está implantada na zona mais antiga da cidade medieval – núcleo histórico de Vila-a-dentro. A ampla escadaria e o grande adro empedrado com a estátua de D. Francisco Gomes Avelar, Bispo do Algarve, enquadram o monumento. Sucintamente, podemos destacar as capelas do Senhor Jesus dos Pobres, de Nossa Senhora do Rosário, e de S. Francisco de Paula.

Terminamos este breve périplo de cariz religioso na Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, situada em Tavira, cidade fundada por D. Paio Peres Correia em 1239, e que em 1266 recebe o primeiro foral doado por D. Afonso III. Este local de culto terá sido fundado no século XIII no local da antiga mesquita do tempo de ocupação muçulmana. Aqui podemos contemplar as duas Capelas colaterais góticas, o Retábulo das Almas, a Capela do Santíssimo, a Capela do Senhor dos Passos, a Capela Batismal, o Portal gótico, o Retábulo de São Bartolomeu, e a Capela-mor. Nesta igreja é possível observar ainda diversos exemplares de azulejaria, pintura, talha e imaginária religiosa de várias épocas.

Mas, aceitem, viajar e visitar também faz fome e sede, pelo que entretanto fomos degustando os néctares vínicos que no Algarve se produzem, como os da Adega Cooperativa de Lagos, os do Marquês dos Vales Syrah, Monte das Laranjeiras, Quinta de Tôr, entre tantos outros vinhos brancos e tintos. Tantos são igualmente os pratos tradicionais desta província, não esquecendo as boas carnes que também fazem parte da habitual dieta, mas que desta vez prescindimos, não entrando, assim, no pecado da carne, pelo que, optámos pela peixaria de que destacamos as cataplanas, os percebes, as canjas de conquilhas, o xarém, os carapaus alimados, os arrozes malandrinhos, os peixes na grelha e no forno, não terminando o amesendamento sem provar os queijos de figo e amêndoa, as gargantas de freira, as estrelas de figo e amêndoa, tarte de alfarroba, e, não abusando, mas como digestivo, o omnipresente medronho, ou os vários licores regionais, e é tudo isto que podemos e devemos apreciar, saborear com calma, com paz e com muito amor, sem que, releve-se, caiamos no pecado da gula.

Chego a esta conclusão: o que é melhor e vale a pena é comer e beber, e cada qual gozar o resultado do trabalho que se tem neste mundo, durante o pouco tempo de vida que Deus nos dá
in Livro Bíblico Eclesiastes, 5, 17).

José P. Costa