As diferenças entre um doutoramento no século XX e XXI

Um doutoramento é mesmo uma caixa de ferramentas, útil a muitas empresas.

Ter um doutoramento no século XXI não é igual a ter um doutoramento no século XX. E está tudo bem.

Foram recentemente divulgados os resultados anuais das candidaturas ao Concurso de Bolsas Individuais de Doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Nesse sentido, parece-me uma boa altura para uma leve reflexão sobre a caixa de ferramentas que é um doutoramento, seja em que século for. O presente artigo não é nada que se assemelhe a conselhos de carreira ou a um guia para se fazer x ou chegar a y. É apenas uma reflexão pessoal que poderá ser importante ser replicada por doutorandos e doutorados do nosso país.

A 29 de julho, 1450 jovens investigadores ficaram a saber que conseguiram uma competitiva bolsa de doutoramento da FCT. Esta bolsa irá permitir ao investigador, matriculado numa universidade, desenvolver durante quatro anos o seu projeto de investigação, com um “salário mensal” e propinas pagas (trata-se de uma bolsa de investigação, não um contrato de trabalho, apesar de ser um trabalho em regime de exclusividade). Uma bolsa que permite, e bem, que o investigador se foque em exclusivo na sua investigação, que culminará com a obtenção do grau de doutoramento. Um caminho que pode ter porções tão grandes de entusiasmo como de desgaste. E depois de terminado, o que acontece?

No século XX, de uma forma geral e não particularizando percursos, a universidade onde o investigador se doutorou absorvia, com necessidade (com o crescimento do ensino superior português), o profissional para o seu corpo docente. Iniciava assim, o doutorado, uma carreira pública de professor do ensino superior, agilizando estas responsabilidades em paralelo com a investigação científica. Em alternativa, o investigador também poderia conseguir o mesmo percurso numa outra universidade, quer nacional (com várias novas universidades e politécnicos a serem criados), quer estrangeira. Neste último caso, vários investigadores tornavam-se, por mérito próprio, nomes sonantes na investigação internacional, e quem optava por voltar, mais tarde, entrava pela “porta grande” nas universidades portuguesas. Assim se formou, e lotou, uma boa parte do tecido académico nacional, com qualidade. E está tudo bem.

No século XXI, o número de doutoramentos aumentou exponencialmente, em paralelo com o acesso crescente ao ensino superior. O percurso geral de um doutorado já não é o mesmo, a linearidade já não é a mesma, mas muitos doutorados têm a mesma formatação. A maioria das universidades nacionais tem o seu corpo docente completo há várias décadas. Quando, pontualmente, são abertos novos concursos, a competição é enorme (milhares de doutorados a concorrer a dezenas de vagas) e a endogamia uma realidade.

Desta forma, não é possível a academia absorver os milhares de doutorados portugueses, incluindo quem optou por fazer carreira no estrangeiro e gostaria de voltar. A esmagadora maioria está em “fila de espera” com a sua caixa de ferramentas na mão. E aqui, não está tudo bem.

A carreira académica ainda é uma realidade, tão válida e meritória como qualquer outra carreira, para quem a quiser percorrer com a realidade presente de que o caminho agora é mais longo e sinuoso do que a anterior realidade.

No entanto, é urgente o grau de doutoramento ser compreendido, visto e divulgado na plenitude do seu potencial e utilidade. Não como algo de valor definido, finito e com limites de utilização. Não como um caminho de uma única direção, mas sim como um início de uma entusiasmante variedade de caminhos.

Ciência, inovação e tecnologia são palavras e conceitos que estão cada vez mais presentes no nosso dia a dia (e ainda bem). São também palavras que estão intimamente ligadas a um doutoramento, e são o presente e o futuro da grande maioria das áreas da nossa sociedade e do nosso tecido empresarial. São pontos-chave que as empresas já estão ativamente a procurar, comprovado pelo aumento de 38% de doutorados no sector privado, desde 2015.

No total, são 8% os doutorados residentes em Portugal a trabalhar em empresas. Um valor que, apresar de crescente, é ainda muito reduzido quando comparado com a realidade europeia. Um valor que poderá ser essencial para as empresas, com os indicadores nacionais de inovação, tanto em investimento como em serviços e produtos, a baixar no ranking europeu. Um valor com impacto direto nos doutorados que procuram oportunidades estáveis, não só de ter um emprego, como de ter uma carreira estável e com progressão.

Aos futuros novos doutorandos, aos quase doutorados e aos doutorados que esperam por oportunidades, neste presente século talvez seja preciso planear a carreira de forma diferente. Planear antes, durante e depois de um doutoramento. Um plano pessoal, flexível e adaptável às mais-valias e forças particulares de cada doutorado, em paralelo com as necessidades do mercado de trabalho.

É fundamental o atrevimento de fazer caminhos que ainda não foram trilhados ou que tenham ainda pisadas frescas à frente. É essencial perceber que um doutoramento é mesmo uma caixa de ferramentas, útil a muitas empresas. De uma perspetiva geral, um doutorado é um profissional que resolve problemas complexos diariamente, baseado em criatividade, conhecimento especializado, comunicação e com técnicas de análise e sentido crítico de excelência. É difícil uma empresa não precisar de nada disto. E se algumas empresas ainda não souberem reconhecer isso, é essencial cada um mostrar e acelerar este reconhecimento.

Quão entusiasmante poderá ser ter um emprego que antes não existia, dar um contributo à sociedade de uma forma que anos antes não seria possível? É aqui que um doutorado do século XXI se pode e deve distinguir. E é aqui que tudo pode ficar bem melhor.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico