Temos poucos doutorados nas empresas? Ainda não há essa cultura

Portugal é dos países com menos doutorados a trabalhar nas empresas. Reitores estão reunidos nesta terça-feira para discutir como promover a contratação destes profissionais

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ANA MARIA COELHO

Portugal está a produzir três mil doutorados por ano. “É um número razoável”, classifica o professor universitário Carlos Fiolhais. O que fica aquém é a sua distribuição nas empresas — em 2016 estas empregavam menos de 5% dos que existem no país. Por que é que isto acontece? Há vários motivos. O principal: a formação destes quadros é um processo recente pelo que ainda “não se interiorizou, na sociedade portuguesa, o valor dos doutorados”.

A situação tem sido encarada como um problema. No ano passado, o Governo anunciou um conjunto de medidas para apoiar a contratação por parte das empresas. Esta terça-feira, no Porto, os reitores estão reunidos na 3.ª sessão da “Convenção do Ensino Superior 2020-2030”, para voltar a discutir como aumentar o número de doutorados a trabalhar nas empresas portuguesas.

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Os dados disponíveis no Eurostat pintam um retrato diferente para os outros países da União Europeia. Na Bélgica, por exemplo, os números estão longe dos que são conhecidos para Portugal. As empresas do país dão emprego a um terço dos doutorados. Mas José Manuel Mendonça, presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (Inesc Tec), avisa que é preciso “cuidado a olhar para as estatísticas”. “Temos de interpretá-las à luz do que é o terreno e a nossa realidade”, defende. Há vários países da Europa que há vinte anos estavam muito à frente de Portugal. Agora, “estamos a tentar apanhar o comboio”.

Muitas PME

“A transformação do nosso tecido industrial também é uma realidade recente”, aponta o responsável do Inesc Tec, o que também pode explicar o fraco investimento nos doutorados pelas empresas nacionais. No passado, “a estrutura industrial em Portugal era baseada na competitividade do custo da mão-de-obra e não da diferenciação tecnológica”.

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A própria demografia das empresas portuguesas parece condicionar a forma como contratam. “Temos poucas empresas de grande dimensão. É mais fácil para uma PME ir buscar inovação, ciência e conhecimento às universidades e aos centros tecnológicos que trabalham com as universidades do que ir buscar o doutorado e contratá-lo”, nota José Manuel Mendonça. E isso até pode não ser mau. Para o presidente do Inesc Tec é mais importante que “as empresas, cada vez mais, puxem as universidades para fazerem investigação com relevância social e impacto económico” e que “metam financiamento privado na ciência”.

Doutorado: “o cientista esotérico”

Depois, há o problema da ideia que as empresas têm do doutorado. Em Portugal, é visto como um profissional “muito caro”, nota Carlos Fiolhais. “Do ponto de vista dos empresários é alguém que não conhecem, que quer ganhar muito dinheiro.” José Manuel Mendonça corrobora: “Um doutorado é visto numa empresa como um professor, um cientista esotérico, que vai ter de ganhar muito dinheiro e que vai ter de mandar nos outros e não sabe.”

Também é preciso que o doutorado tenha vontade de sair da universidade — em Portugal, mais de 90% estão na academia. “É preciso que existam doutorados que queiram ir para as empresas, com o perfil, com as competências. A questão também é: onde estão os doutorados que querem ir, que são úteis e que as empresas reconhecem valor”, sublinha José Manuel Mendonça.

As coisas estão a mudar, mas não a um ritmo tão rápido como desejável. Carlos Fiolhais classifica a situação como “nada brilhante”. “Vai demorar a mudar. ”

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