O céu cinzento lá fora

Eu sei que a memória nos prega partidas. E que estes Verões da infância, provavelmente, também tinham altos e baixos. Mas tantos baixos assim? Custa-me a acreditar.

Foto
Adriano Miranda

Já não se pode confiar no Verão. Ele anda completamente imprevisível, e nem estou a falar das cheias mortais que deixaram parte do Centro da Europa mergulhada no caos absoluto. Estou a falar de algo mais simples, como estar a aproveitar um dia fantástico de praia no sábado à tarde, com direito a diversos mergulhos num mar de temperatura agradável (para os padrões do Norte, entenda-se), e acordar no domingo com um céu pintado de cinzento e um vento frio a pedir um casaco para esconder os braços.

Julho tem andado assim. Dias de frio ou chuva, a fazerem-nos desesperar pelo calor, seguidos de uns poucos dias bons, que nos enganam com a ideia de que desta é que foi, desta é que o Verão chegou.

Se calhar foi sempre assim, mas não é essa a memória que guardo.

O meu Verão de antigamente tinha muito calor quase todos os dias. Havia tempestades assustadoras, de relâmpagos e chuvas violentas, acompanhadas por um ar pesado e quente. Mas isso era uma raridade que quebrava a monotonia dos dias em que (se a mãe estivesse para aí virada) até podíamos andar de fato de banho vestido em casa e mergulharmos no tanque de pedra como se fosse o mar. Porque estava sempre calor.

Eu sei que a memória nos prega partidas. E que estes Verões da infância, provavelmente, também tinham altos e baixos. Mas tantos baixos assim? Custa-me a acreditar. A ideia que tenho é que passava meses descalça, a saltitar pela rua até à casa da avó, uns escassos metros à frente, onde estavam os primos com quem brincava. Descalços, com pouca roupa, sempre com sol, sempre com calor.

Eram três longos meses de cabelos desgrenhados, pés sujos, um gelado com sabor a laranja ou limão, que inevitavelmente acabava a derreter para cima das nossas mãos, deixando-as peganhentas de açúcar. Quando a tal tempestade chegava, fechavam-se portas e janelas, ficava-se com medo, a luz ia abaixo quase sempre, mas depois passava tudo e o ar parecia ainda mais limpo.

Agora os dias bons são uma lotaria. Pelo menos cá no Norte. O meu telemóvel está sempre a lembrar-me que mais para sul estão quase 30 graus, dia sim, dia não, enquanto me mostra o céu cinzento e uns meros 22, 21 graus de máxima cá para a minha zona. E para o fim-de-semana, avisa-me, chuva. E espero que ainda mude, mas bem pode ser que não.

Portanto, em vez de estar a planear um regresso à praia no próximo fim-de-semana, fica-se sem saber muito bem o que fazer, a pensar que o sofá é muito convidativo para descansar, sim senhor, mas que já temos o Outono e o Inverno todo para isso. E que agora queríamos era ar livre, sol a aquecer-nos e água salgada a deixar sulcos na pele.

Tenho saudades do Verão, mesmo estando a vivê-lo. Fico a lembrar-me de uma viagem à Irlanda, em pleno mês de Agosto, em que eram raros os dias em que não era preciso vestir o casaco polar ou o casaco da chuva e em que se tornou habitual dizermos a brincar, nos dias em que lá estivemos: “Isto é muito bonito, mas para a próxima vimos no Verão.”

Aqui no Norte, isto também não é nada feio, mas se o Verão se instalasse a sério, assim, vá, durante um mês que fosse, a malta também agradecia.