Como ajudar o seu filho a comunicar melhor? Um guia para o dia-a-dia dos pais

Até à entrada no 1.º ano de escolaridade, uma criança atravessa um percurso crucial de aquisição de competências linguísticas e comunicativas, que pode e deve ser estimulado pela família.

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Jason Leung/Unsplash

As crianças comunicam desde o nascimento através do choro, do sorriso, do olhar ou das vocalizações. E é desde esse primeiro momento que nós, os adultos, procuramos decifrar essa comunicação não-verbal e responder às suas necessidades.

Na interacção comunicativa com os adultos, a criança começa a interessar-se pelo mundo que a rodeia e a descobrir a influência do seu comportamento nos outros. Gradualmente, vai desenvolvendo a sua linguagem e começa a compreender o que lhe é dito, que se transformará, mais tarde, em sílabas, palavras e frases.

Diferenças entre comunicação, linguagem e fala

A comunicação é a forma mais ampla de transmitirmos mensagens e emoções. Nela, cabe a linguagem (descrita no quadro em cima) e a fala (o acto motor, que envolve a coordenação neuromuscular). Até à entrada no 1.º ano de escolaridade, uma criança atravessa um percurso crucial de aquisição de competências linguísticas e comunicativas, que pode e deve ser estimulado pela família.

Nas sessões de terapia da fala, são muitos os pais preocupados com o aparente atraso no desenvolvimento linguístico dos filhos. Comparam-nos com outras crianças e estranham o atraso na fala, o vocabulário reduzido ou a aparente dificuldade em aprender mais.

Após a avaliação terapêutica, que é necessariamente individual, sugerimos a todos os pais que integrem estratégias simples de estimulação da comunicação e da linguagem nas rotinas familiares:

  • No dia-a-dia habitue-se a descrever o que faz ou vai fazer, o que vê, o que cheira ou o que sente, promovendo a escolha da criança: “Queres o copo azul ou o amarelo? Queres a maçã ou a banana? Vamos brincar com o avião ou com o carro?”;
  • Durante a conversação, devolva à criança, de forma correcta, as palavras mal pronunciadas e/ou “abebezadas”;
  • Desenvolva o jogo simbólico “o faz de conta” (brincar às casinhas, ao médico, a ida ao supermercado…). Personifique um bombeiro, um enfermeiro, um vendedor e exemplifique a suas funções;
  • Escolha um item que esteja no espaço à sua volta e descreva-o utilizando várias características até a criança adivinhar (ex.: “Eu vejo… um brinquedo, redondo, preto e branco que serve para chutar");
  • Joguem o jogo do “Dá-me cinco”: peça à criança que diga cinco itens de uma categoria semântica à escolha (ex: vestuário; frutas, instrumentos musicais);
  • Realizem jogos para estimular a expansão frásica “A Joana vai ao supermercado…” pedir à criança para dar continuidade à frase;
  • Poderá fazer o jogo em que a criança é o professor, diga frases gramaticalmente incorrectas e a criança terá que reconhecer o erro e, posteriormente, corrigir (por exemplo: “Eu comi duas cenoura”; “Amanhã fui à praia”; “A menina bebe a maçã”; “A Joana é minha irmão”).

Com o 1.º ciclo chegam os desafios da leitura e da escrita

Ao terminar o jardim-de-infância, uma criança já deve possuir alguns pré-requisitos fundamentais para a aquisição da linguagem escrita. Um deles é a consciência fonológica, ou seja, a capacidade de identificar e dizer rimas e de dividir frases em palavras e estas em sílabas, de manipular sílabas ou de identificar os sons nas palavras.

A aprendizagem da leitura e da escrita não é um processo natural e espontâneo como a aquisição da fala. É uma aprendizagem que envolve competências linguísticas, cognitivas, psicomotoras, entre outras, cruciais para o sucesso académico. Pode e deve utilizar algumas das estratégias abaixo para estimular a leitura e a escrita do seu filho:

  • Pedir à criança para ler a lista de compras e identificar os produtos no supermercado;
  • Promover a correcção dos erros de escrita através da segmentação silábica e fonémica ao invés da clássica escrita do erro várias vezes (ex.: /banana/ - ba/na/na (silábica) – b/a/n/a/n/a) (fonémica);
  • Jogue ao jogo do “Stop” com categorias apropriadas à idade da criança;
  • Incentive a criança a pequenas tarefas de escrita integradas nas rotinas diárias, como escrever bilhetes ou recados para a família;
  • Incentive a escrita através da banda desenhada;
  • Promova actividades de escrita utilizando o computador, isto ajudará a criança a soletrar as palavras;
  • Aproveite a hora da preparação da refeição para pedir à criança que leia a receita do almoço ou jantar.

O carácter cumulativo da aprendizagem

No próximo ano letivo, numa parceria com o Instituto para o Desenvolvimento Social (IDS), será lançada uma formação para Educadores e Professores, com o objetivo de reforçar as competências de estimulação de comunicação e linguagem em contexto primário e pré-primário. Os profissionais educativos são fundamentais na detetação e atendimento das dificuldades das crianças e na transmissão de informação rigorosa e útil aos pais, um trabalho ainda mais necessário após longos meses de confinamento.

As crianças têm o seu próprio ritmo e preferências e é natural que algumas demorem mais tempo a falar correctamente. No entanto, a aprendizagem tem um carácter cumulativo e fechar os olhos quando a criança demonstra dificuldades inabituais para a idade não a vai ajudar. Pelo contrário, provavelmente agravará os problemas na etapa seguinte e assim sucessivamente. Na dúvida, consulte um terapeuta da fala. As estratégias referidas devem ser promovidas com todas as crianças, de forma rotineira, instrutiva e divertida, durante a passagem pelo jardim-de-infância e nos primeiros anos do 1.º ciclo.