Morreu Raffaella Carrà, estrela da pop e da TV, ícone de libertação sexual

Célebre pelas canções e coreografias provocadoras, ícone da libertação sexual feminina em países ainda muito marcados pelas imposições morais da Igreja, diva adoptada, pelas mesmas razões, pela comunidade gay, a cantora, apresentadora e actriz italiana morreu esta segunda-feira, aos 78 anos.

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A carreira de Raffaella Carrà teve início no cinema, antes da viragem decisiva para a música (e televisão) na década de 1970 CLAUDIO ONORATI/EPa

“Mais aplaudida do que [o presidente] Pertini, mais cara do que Michel Platini, mais milagrosa do que [o canonizado] Padre Pio”. Em 1984, Raffaella Carrà surgia assim descrita no semanário italiano L’Espresso. Nessa altura, carreira estabelecida há mais de duas décadas, Carrà era estrela em Itália, onde nasceu, em Espanha e na Argentina, países onde vivera e se tornara figura televisiva, era, enfim, estrela da canção, do cinema e da televisão por todo o mundo latino. Célebre pelas canções e coreografias provocadoras, ícone da libertação sexual feminina em países ainda muito marcados pelas imposições morais da Igreja, diva adoptada, pelas mesmas razões, pela comunidade gay, Raffaela Carrà morreu esta segunda-feira, aos 78 anos, de uma doença não especificada, noticiou a agência italiana Ansa.

“A Raffaella deixou-nos. Foi para um mundo melhor, onde a sua humanidade, o seu riso inconfundível e o seu extraordinário talento brilharão para sempre”, declarou o seu companheiro, Sergio Iapino, no comunicado em que anunciou a morte da cantora, bailarina, actriz e apresentadora.

Nascida a 18 de Junho de 1943 em Bolonha, o seu percurso inicial indicava estarmos perante alguém destinado a fazer carreira na Sétima Arte. Estreou-se no grande ecrã aos 9 anos, integrada no elenco de Tormento del Passato, de Mario Bonnard, e estrelou vários peplum, as reconstituições históricas que foram marca do cinema italiano do período, até meados da década de 1960, chegando mesmo a chamar a atenção de Hollywood — em 1965, contracenou com Frank Sinatra e Trevor Howard no drama da Segunda Guerra Mundial Von Ryan’s Express. Inadaptada à sociedade americana, regressaria a Itália depois de um breve período nos Estados Unidos. A sua decisiva ascensão ao estrelato chegaria na década de 1970, a mesma em que dá o salto para a música e inicia a sua carreira discográfica.

Apesar de já ser presença televisiva regular, é enquanto co-apresentadora de um programa de variedades, Canzonissima, que ganha definitivamente protagonismo. Chocando o Vaticano, e os sectores católicos mais conservadores no geral, pelas coreografias e guarda-roupa apresentados no programa — terá sido a primeira mulher a mostrar o umbigo em horário nobre, o que levou a reacções iradas; surgiu certa vez vestida de freira e rodeada de bailarinos despidos a cantar um medley dos Beatles —, bem como pelas letras das suas canções, como Tuca tuca (1971), A far l’amore comincia tu e Forte forte forte (1976), Raffaela Carrà era, ainda assim, uma estrela transversal na sociedade italiana.

“Foi o primeira ícone pop [em Itália], mas as donas de casa sempre gostaram dela. Ela revolucionou o entretenimento televisivo”, escreveu a jornalista Anna Maria Scalise em 2008. “Imagine todas aquelas mulheres nos arredores de Roma ou na província de Brescia que pensavam que fazer amor era um acto que só podiam praticar com os seus maridos de uma maneira bastante insatisfatória”, dizia há alguns anos o artista e curador italiano Francesco Vezzoli, referindo-se especificamente a Tanti auguri, tema de abertura do seu programa Ma Che Sera, onde cantava, por exemplo, que a guerra e o ódio não têm hipótese de florescer quando “há amor na cama”.

O ano passado, o Guardian recordava-a como alguém que, antes de Donna Summer, cantara o sexo e a sensualidade de uma forma libertadora e assertiva, tanto para as mulheres como para a comunidade gay. A mulher que costumava contar, de forma provocadora numa sociedade patriarcal, que na adolescência só namorara rapazes gay (“pelo menos, não me tentam apalpar quando vamos ao cinema”), era citada no jornal britânico a explicar que não tinha como inspiração nenhum artista ou género em particular. “Falo com crianças, com pais que vêem desporto, com as suas mulheres, portanto, com as famílias italianas de espectadores de TV”.

O período que passou sedeada em Madrid, pouco após o fim do franquismo, apresentando e protagonizando um programa televisivo de grande audiência, conduziu a que fosse distinguida em 2018 com a Ordem de Mérito Civil da Coroa espanhola — “um ícone de liberdade”, definiu-a então a Casa Real. As temporadas passadas pouco depois em Buenos Aires, actuando na televisão argentina, transformaram-na também em fenómeno na América Latina, consolidando o sucesso que os discos já ali haviam garantido. No início dos anos 1980, regressou definitivamente a Itália.

Bob Sinclair, o DJ e produtor francês, editou em 2011 Far l’amore, que se inspirava (e samplava) A far l’amore comincia tu. O duo sueco The Knife, a banda que é parte experimentalismo musical, parte instalação artística, recuperou excertos de sons e passos coreográficos para o imaginário visual dos vídeos e digressão de Shaking the Habitual, o seu álbum de 2013. Influência inesperada e transversal, a da artista que dizia cantar sobre e para as famílias italianas plantadas em frente à TV.