Multidão e acesso controlado em Roma

Uma multidão de mais de 300 mil pessoas deverá estar hoje, no Vaticano, para assistir à cerimónia de canonização do padre Pio, o padre franciscano capuchinho conhecido seus estigmas, e um dos homens da Igreja Católica mais popular em Itália.

"Quero lá ir." Anna, 67 anos, doente, operada várias vezes, exprime deste modo à AFP o seu desejo de estar hoje, na Praça de São Pedro do Vaticano, para a missa presidida pelo Papa João Paulo II. Para esta senhora, como para muitos milhares de italianos, não haverá, hoje, nada mais importante que estar na cerimónia.

As autoridades tomaram medidas para acolher 300 mil pessoas, mas os responsáveis pela cerimónia acreditam que o número possa ser bem maior. Depois do anúncio da decisão do Papa, a 26 de Fevereiro, os capuchinhos do santuário de San Giovanni Rotondo, no sudeste de Itália, onde o padre Pio está enterrado, abriram uma central telefónica para reserva de lugares para a cerimónia de hoje. Desde então, mais de 250 mil bilhetes foram entregues aos interessados.

Em Roma, está montada um autêntico cordão sanitário à volta do Vaticano: o rio Tibre só pode ser atravessado para a Praça de São Pedro por quem estiver munido do papelinho mágico - oferecido, apesar de ter havido quem se tenha aproveitado e tenha conseguido ganhar dinheiro com alguns incautos. O metropolitano vai funcionar desde as cinco da manhã, com comboios de minuto a minuto. Uns quatro mil autocarros e 50 comboios especiais chegam de toda a Itália carregados de devotos.

Na cerimónia, não deixará de haver olhos concentrados na saúde do Papa, que apareceu muito fragilizado nas suas últimas aparições públicas.


Papa canoniza hoje o frade mais popular de Itália

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Roma prepara-se para receber mais de 300 mil pessoas Maurizio Brambatti/Ansa

Nascido em 1887, baptizado com o nome de Francesco Forgione, o padre Pio viria a tornar-se conhecido e venerado ainda em vida por milhares de pessoas, que lhe atribuíam poderes milagrosos. O facto valeu-lhe, logo em 1923, um decreto do então Santo Ofício, condenando as suas práticas e restringindo a sua acção ao santuário de San Giovanni Rotondo. De 1956 a 1962, o seu confessionário teve microfones instalados para averiguar o que o padre dizia aos fiéis. Foi o Papa Paulo VI quem ordenou o fim dessas medidas.

Quarto de sete filhos, entrou para os capuchinhos aos 16 anos depois de ter visto um frade de longa barba branca a mendigar uma fatia de pão à porta da sua casa. Aos 23 anos, foi atingido por estigmas nas mãos, nos pés e no tórax, que os seus devotos diziam que recordavam os estigmas de Jesus Cristo e que nunca mais cicatrizaram - até à sua morte, em 1968. A Igreja Católica, no entanto, não reconheceu a existência desses estigmas senão numa dezena de casos - e o padre Pio não está na lista. Os detractores deste padre italiano colocam mesmo em causa a autenticidade das feridas, mas as críticas mais importantes são para o negócio que rodeia a devoção do frade.

San Giovanni transformou-se de uma pequena aldeia do campo, em 1918, numa cidade de 26 mil habitantes, tornando-se um dos mais importantes lugares de peregrinação na Itália.

Uma das lendas que se conta dizia que o padre Pio tinha previsto a eleição de Karol Wojtyla como Papa, bem como o atentado sofrido por João Paulo II em 1981. O próprio Wojtyla já desmentiu ambas as histórias, mas sabe-se que, ainda quando era arcebispo de Cracóvia, Wojtyla escreveu ao padre Pio a interceder por uma amiga. A psiquiatra Wanda Poltawska, que sofria de um cancro na garganta, acabou por ficar curada, e assistiu, em Maio de 1999, à beatificação do padre Pio.

Para a canonização, o Vaticano reconheceu, em Dezembro último, a realização de um milagre não explicado cientificamente.