O esquecido cinema italiano

Não há razões para falar de uma “aventurosa” história, mas sim de uma história desditosa.

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Beatrice Cenci, Riccardo Freda DR

L’avventurosa storia del cinema italiano é o título de uma preciosa referência bibliográfica. Acontece que no presente não há razão para falar de uma “aventurosa” história, mas antes de uma história “desditosa”.

Aquela que durante décadas se afirmou a mais importante cinematografia europeia (enquanto “indústria”, como Hollywood, seguramente que sim) foi reduzida a um estado intermitente pelo eclipse de grandes produtoras como a Lux e a Titanus, pelos desaparecimentos de Carlo Ponti e Dino de Laurentis, pelo colapso de um grande estúdio, a Cinecittà, e foi canibalizada e destruída pelas televisões privadas, sobretudo as de Berlusconi. E a consequência foi não só o ocaso de uma indústria e de uma enorme influência internacional como também uma considerável amnésia.

Certo, há um panteão reconhecido, constituído pelo “sagrado quarteto” do neo-realismo e depois, Rossellini, Visconti, Antonioni e Fellini, a que acrescem Pasolini ou ainda Zurlini , De Seta, Leone, Olmi, Bertolucci (só os filmes dos anos 60 e 70!), Bellochio e Moretti.

Então e tudo o mais? Então o cinema mudo e o do fascismo? Então a dupla à época mais influente do neo-realismo, a de Vittorio de Sica e do argumentista Cesare Zavattini, autores de Ladrões de Bicicletas, etc? Então os grandes realizadores que foram Mario Camerini (o “Lubitsch italiano”, disse-se), Raffaello Matarazzo, Vittorio Cotafavi e Riccardo Freda, ou, talvez mais irregulares mas com alguns filmes prodigiosos, Luigi Comencini, Mario Monicelli, Dino Risi e Francesco Rosi? Mesmo Mauro Bolognini fez os muito perturbantes O Belo Antonio e Agostino e Ettore Scola Tão Amigos Que Nós Éramos e Um Dia Inesquecível! E…?

Limito-me, para exemplo, a uma breve “ária do catálogo” de obras maiores do cinema sem serem dos “autores canónicos”: Una Donna Libera, de Cottafavi, Beatrice Cenci, de Freda (um filme de uma beleza plástica e de uma fisicalidade absolutamente deslumbrantes), A Iniciação de Giacomo Casanova, Veneziano e As Aventuras de Pinóquio, de Comencini, A Grande Guerra, de Monicelli, A Ultrapassagem, de Risi ou Salvatore Giuliano, de Rosi. Ou L’Uomini, Che Mascalzoni… e I Grandi Magazzini, de Camerini, Cattene, La Nave Delle Donne Maledette e sobretudo o díptico I Figli di Nessuno/L’Angelo Bianco, de Matarazzo, O Incompreendido, de Comencini, Casanova 70 e Renzo e Luciana (extraordinário episódio de sete minutos retirado na distribuição comercial de Boccaccio’70), de Monicelli, Uma Vida Difícil, de Risi, ou o tardio reencontro de De Sica e Zavattini em O Jardim dos Finzi-Contini. Etc…

Destes filmes quantos temos presentes? Vá lá, talvez Salvatore Giuliano, Uma Vida Difícil e Um Dia Inesquecível, ou A Ultrapassagem e Cattene, que passam regularmente na Cinemateca. É ponto já de si suficientemente indicativo do conhecimento e da fruição cinematográfica em falta.
As questões cruciais deste “esquecimento” são profundas, e não esclarecidas por nenhuma “política de autores”, muito menos de distinção entre os presumíveis “autores” e “artesãos”. Então e os actores e o star-system? E os argumentistas? E os géneros e sobretudo modos de produção?

PÚBLICO -
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A Grande Guerra, Mario Monicelli DR

Vejamos alguns exemplos. Um filme como A Grande Guerra é fruto de um realizador, Monicelli, um produtor marcante, De Laurentis, uma justamente célebre dupla de argumentistas, Age e Scarpelli, as icónicas presenças de Vittorio Gassman e Alberto Sordi, de elementos de comédia e uma abordagem intensa do conflito militar, com um alucinante final de fuzilamento dos soldados italianos pelos austríacos. Um género tão importante como o peplum, o “filme da antiguidade”, de túnicas e de lutas, é parte do ADN do cinema italiano, da sua irradiação, e dos vaivéns de indústrias cinematográficas, se recordarmos que Cabiria iniciou o filão em 1914 — e o impacto foi tal que se repercutiu logo no episódio da Babilónia em Intolerância, de Griffith, e se tornou recorrente no cinema americano (em muitos casos com rodagem na Cinecittà!), inclusive até à horripilante vaga recente de Gladiador e quejandos.

Como facilmente se compreende, o género foi parte integrante e importante do cinema fascista, com filmes como Cipião, O Africano, de Carmine Gallone, ou Fabíola, de Alessandro Blasetti. Mas mais precisamente o peplum floresceu de novo entre meados dos anos 50 e os dos 60, até ser “destronado” pelo western-spaghetti — de resto, de O Colosso de Rodes a Por Um Punhado de Dólares, Leone fez a passagem directa. Freda e Cottafavi foram mestres indiscutíveis, estatuto amplamente justificado por filmes como Teodora, Imperatriz de Bizâncio (admirável!) e Os Gigantes da Tessália, de Freda, A Revolta dos Gladiadores, As Legiões de Cleópatra e Hércules, O Conquistador, de Cottafavi (que, homem cultíssimo, definia o género como “neo-mitologia”). Mas nem Freda nem muito menos Cottafavi podem ser reduzidos ao peplum. Freda abordou mais latamente o “filme histórico” (como esse sublime Beatrice Cenci) e “de aventuras”, além do giallo, os thrillers ou filmes de mistério, mesmo horror, como no aliás divertidíssimo (o jogo começa logo no título) L’Orribile Secreto del Dr. Hitchcock, que passou na primeira Festa do Cinema Italiano, em 2008, dedicado precisamente ao giallo.

O caso de Cottafavi é ainda mais complexo — e ele e Matarazzo, grandíssimo mestre do melodrama, campeão do folhetim lacrimejante (e da bilheteira), são seguramente os cineastas italianos que mais importaria redescobrir em ciclos próprios. Num primeiro período, em filmes como Traviata 53 e Una Donna Libera (“filmes de mulheres” como, à época, só os Antonioni), Cottafavi não apenas definiu um universo próprio como uma singular figura de estilo, enquadrando a personagem com sucessivos travellings à frente e atrás. Depois foi o peplum. Enfim, dedicou-se a adaptações televisivas de grandes clássicos literários e teatrais e a temas históricos — e tenho o ignorado “período televisivo e didáctico” de Cottafavi como tanto ou mais interessante do que o de Rossellini, pondo à parte A Tomada do Poder por Luís XIV.

As abordagens deste glorioso e esquecido cinema são complexas e exigem diferentes níveis. E também propostas de programação como as que a Festa do Cinema Italiano tem feito e o muito que há a fazer no respeitante a realizadores, géneros, movimentos, períodos e até peripécias políticas que não podem ser rasuradas, como a passagem do fascismo a um emblemático neo-realismo no caso de Rossellini, ou que o esplendor máximo de Anna Magnani enquanto diva é Avanti a Lui Tremava Tutta Roma, a “Tosca anti-fascista” de Gallone... um dos mais salientes realizadores do fascismo!

Etc, etc…