Bem-vindo a casa, Noah: carta ao viajante Noah para ler quando for grande

Conseguiste fazer algo raro: uniste o país num só coração e numa aspiração só e respiramos todos de alívio. É possível que tenha havido um mar de lágrimas por todo o Portugal. Qual futebol, qual carapuça. O nosso troféu és tu, Noah.

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Uma fotografia de Noah divulgada pelos pais nas redes sociais DR

Querido Noah,

por esta altura, imagino que já saibas tudo sobre os dias em que deixaste todo um país de coração nas mãos, em que nos deixaste a todos a rezar para que fosses encontrado vivo e de saúde. Espero também que já tenhas bem a noção de que foi uma parvoíce arriscares-te assim — mas estás mais que perdoado, afinal tinhas menos de três anitos e, tendo eu nascido e crescido numa aldeiazinha, como tu, apesar de em tempos menos perigosos, sei bem o que quer dizer sentirmos a liberdade da natureza que nos cerca, sentirmo-nos à vontade na nossa casa quando esta acaba por ser toda a aldeia e arredores.

Por isso também, durante estas arrepiantes horas em que não sabíamos de ti, não me saíam da cabeça as vezes em que “fugi” de casa, e às mais variadas idades, deixando, claro, como tu, os meus pais aflitos. Mais a minha mãe, coitada, que o meu pai, de quem sou um clone com duas ou três diferenças das boas, se havia coisa que não o preocupava era eu meter-me pelos caminhos das nossas terras (nossas num sentido mais comunitário que de propriedade efectiva) ou visitar as nossas famílias do campo (nossas, uma vez mais, num sentido muito comunitário – lembro-te que no Alentejo todos os adultos são nossos Ti') ou ir à caça de laranjas e figos e peros e de outras maravilhas bem roubadas, aventurar-me ao bolinho-bolinho (era uma vez por ano mas por ali podia ser todos os dias). E, claro, sempre por quilómetros de nada e de tudo, sozinho muitas vezes, outras em grupo de amigos. Ao meu pai, como aos teus, imagino, só o preocupava se fossem, digamos, horas a mais sem saber de mim. Também tinha algum medo de eu cair duma arriba, ou, terror (meu) de cobras. Quanto a lobos, raposas, javalis, não havia medos, só bons conselhos. Aliás, o meu pai deu-me, precisamente, dois bons conselhos que te deixo: “Leva sempre uma caninha e anda sempre com uma faquinha”. Ainda hoje, quase nos 50 com que te escrevo – por coincidência sentado no velho super-mercado dos meus pais e cercado de memórias –, não me aventuro pelo mundo sem uma caninha nem uma faquinha.

Deixa-me falar-te de mim, ao dia em que te escrevo, pouco depois de te saber, graças a Deus, bem e feliz com os teus. Sou, neste momento, jornalista e editor de muitas viagens, minhas e de outros, numa revista que talvez ainda exista ao dia em que me lês, a Fugas, do jornal PÚBLICO. O que sei de ti, neste 2021, é tudo pelos jornais: vives na aldeia de Proença-a-Velha, estiveste 35 horas desaparecido, terás andado uns 10km durante esse tempo, embora tenhas sido encontrado a apenas 4km da casa dos teus pais no mato por voluntários das buscas (os grandes heróis desta história, como já saberás) — também bateram terreno agentes, mergulhadores, foram usados meios cinotécnicos e drones... —, chegaste ao hospital desidratado, com pequenas escoriações, fizeste soros, dormiste. À hora em que te escrevo, já deixaste o hospital de Castelo Branco, de onde saíste, “óptimo”. Mais vale prevenir. Felizmente, foste encontrado a tempo. Repara (e acredita que todos trememos ao ler isto): “Se fosse apenas encontrado hoje [um dia depois], a chover, estaria em hipotermia”, disse a directora-clínica do hospital. Também te digo que nessa notícia ficámos a saber uma palermice daquelas que a pandemia nos traz: só a tua mãe ficou a dormir contigo no hospital; o teu pai teve de voltar para casa por causa das “restrições”. Sim, porque ainda por cima nos desapareceste durante uma pandemia, nervos maiores.

Acredita que não olhei para a tua história como mais uma história. Nem te escrevo por causa de cliques (uma coisa que já não deves conhecer – este texto está cheio de links, mas acredito piamente em dar aos leitores toda a informação que possa desconhecer) e distracções dessas sem interesse nenhum. Escrevo-te porque te acompanhei desaparecido de lágrimas nos olhos, continuaram a correr-me as lágrimas agora de alegria quando te acharam com vida (repara no título do PÚBLICO: é mesmo “Noah foi encontrado com vida") e confesso-te que escrevo com os olhos ainda pouco secos. Conseguiste fazer algo raro: uniste o país num só coração e numa aspiração só e respiramos todos de alívio. É possível que tenha havido um mar de lágrimas por todo o Portugal. Qual futebol, qual carapuça. O nosso troféu és tu, Noah.

Deixa-me dizer-te por que me decidi a escrever este texto (para ti, sim, mas para todos os leitores que me dêem a honra de lê-lo, claro): porque de repente, tendo lido que não havia indícios de crime (temos tido casos terríveis nos últimos anos), nem culpa dos progenitores – apesar de alguns debates mais acesos ("onde acaba a autonomia de uma criança e começa a negligência dos pais?"), li também que terias despertado do teu sono e simplesmente ido à procura do teu pai que tinha saído para trabalhar no campo de madrugada. Percebi-te logo muito bem.

Li que os teus próprios pais dizem que és muito desenrascado e que, mesmo tão pequenino, já andas a fazer tropelias semelhantes — felizmente bem acompanhado pela tua cadela. De todas as vezes que vi a tua foto (aparecias muito com a cadela ao lado), desejei com todas as forças que ela te tivesse continuado a acompanhar. Sei bem como um cão nos pode salvar a vida. Seja pelos caminhos perdidos da minha Zambujeira e do meu Alentejo, seja pelas terras perdidas da tua Proença-a-Velha.

Um dia, Noah, escrevi um artigo mais íntimo, como este, e tive de pensar bem se o deixava partir para o mundo com o título No dia em que fugi de casa — é que quando escrevemos temos que ponderar bem nas nossas responsabilidades, por mais pequena que seja a nossa fama. Poderia este título, apesar de numa revista só lida por +20s (e upa upa), influenciar alguma criança a fugir de casa? Ponderei e ponderei e deixei-o ir com esse título porque era esse o seu título natural. Aí conto.

No dia em que fugi de casa para ir descobrir mundo, teria eu uns sete ou oito anos, fiz uma mochilinha para o caminho com pão, umas latas de salsichas, uns livrinhos de BD, talvez água ou sumos. Pouco mais de um quilómetro depois de começar a aventura, parei debaixo de uma árvore e devorei o meu piquenique enquanto lia os meus livrinhos. Mais uns passos depois e já estava de visita ao monte da minha tia, que sempre me parecera um refúgio perfeito para escapar à aldeia cheia de gente. A minha fuga ficou-se por aqui, mas estou certo que, quando o meu pai me foi apanhar ao monte na sua velha carripana saltitona, eu tinha aventuras para contar-lhe. Que as aventuras não se medem aos palmos.

A tua “aventura”, até porque a fizeste com muito menos aninhos que eu, foi tão arriscada como grande, Noah. Não vamos mitificá-la, não terias ainda consciência para tanto, mas eras mesmo pequeno de mais para tais odisseias mais prolongadas. Imagino que depois dessa, espero que bem mais velho, já te tenhas feito a mais e diferentes caminhos. Não sei porquê, tenho este pressentimento que serás um grande viajante e nunca te falhará o espírito aventureiro, seja qual for o caminho pessoal e profissional que a vida te deu e dará, que escolheste e escolherás.

O que quero dizer-te, e sim, com alguma emoção e esperança (seria bom sinal se isto se realizasse), é que quando fores grande e leres isto me contactes. Bem sei que até a Marinha Portuguesa já sugeriu que aos 18 te inscrevas para os Fuzileiros. Espertos, viram-te logo potencial para fazeres parte do “Destacamento de Acções Especiais, onde as tácticas de sobrevivência são fundamentais”. Como eles, espero que também tenhas aproveitado “com a família a tua infância”. Agora que já és grande, espero que gostes de estudar o mundo e te interesses não só pelo que está à volta da tua terra como por descobrir o resto — começa-se sempre pelas vizinhanças, isso já descobriste. Aliás, a nossa aldeia é o maior dos nossos mundos. Sempre será. Se um dia quiseres saber como transformar as fugas de infância noutras coisas, até a escrevê-las, dá-me um toque.

E, nessa altura, como agora, ficarei muito feliz por poder dizer-te: bem-vindo a casa, Noah.