BCE imita Fed? Lagarde diz que zona euro e EUA estão em “situações diferentes”

Presidente do BCE recusa começar a traçar planos de retirada dos estímulos monetários na zona euro, numa altura em que nos mercados se assiste ao impacto da mudança de tom verificada na Reserva Federal norte-americana

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LUSA/STEPHANIE LECOCQ

A presidente do Banco Central Europeu (BCE) voltou esta segunda-feira a garantir que uma subida das taxas de juro na zona euro não é um cenário que esteja neste momento em cima da mesa, recusando a ideia de que a mudança de tom registada na semana passada na Reserva Federal norte-americana (Fed) possa ter uma réplica imediata por parte da autoridade monetária europeia.

Na passada quarta-feira, os responsáveis da Fed decidiram, num cenário em que a taxa de inflação subiu para valores próximos de 5%, dar um sinal aos mercados de que uma retirada dos estímulos monetários que estão a ser dados à economia dos EUA pode afinal estar mais próxima do se previa.

Na Fed, projecta-se agora que no ano de 2023 serão realizadas duas subidas de taxas de juro, o que também pode significar que antes disso serão suspensas as compras de activos por parte do banco central (e que actualmente são de 120 mil milhões de dólares ao mês).

Uma alteração do rumo da política monetária nos EUA tem habitualmente um impacto muito significativo nas outras economias mundiais e pode também forçar os restantes bancos centrais a mudar de direcção. No caso do BCE, contudo, a sua presidente fez questão, esta segunda-feira, de assegurar que o impacto das mudanças operadas nos EUA não será significativo.

Numa audição realizada no Parlamento Europeu, Christine Lagarde defendeu, quando questionada sobre a possibilidade de o BCE ter de fazer o mesmo do que foi feito na semana passada pela Fed, que “os EUA e a Europa estão claramente em situações diferentes”, salientando que a economia norte-americana está numa fase mais adiantada da retoma. “Pode ser tentador fazer uma comparação, mas é algo pouco sensato, tendo em conta as numerosas diferenças que se verificam entre as duas economias”, afirmou.

Lagarde, que voltou a garantir que actual subida da taxa de inflação na zona euro se deve sobretudo a factores de natureza temporária, reconheceu que a subida mais forte dos preços nos EUA terá algum efeito inflacionista na zona euro, por via das importações, mas defendeu que esse impacto “deverá ser moderado”.

Deste modo, com uma retoma que ainda é incerta – Lagarde identificou riscos ascendentes e descendentes – o BCE continua a preferir não começar já a traçar cenários de retirada dos estímulos monetários em vigor, nomeadamente as compras de activos e as taxas de juro muito baixas.

A ideia é evitar que se verifique no mercado uma subida das taxas de juro da dívida dos países da zona euro. “Uma alta sustentada das taxas de juro de mercado poderia acabar por se traduzir numa deterioração das condições de financiamento de toda a economia (...), algo que seria prematuro e constituiria um risco para a recuperação económica em curso e para as perspectivas de estabilidade de preços”.