Fed dá os primeiros sinais de mudança entre os grandes bancos centrais

Responsáveis da Reserva Federal norte-americana prevêem agora duas subidas de taxas de juro em 2023, um dos primeiros sinais de viragem na condução da política monetária.

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Reuters/Joshua Roberts

Com a sua nova previsão de que haverá duas subidas de taxas de juro durante o ano de 2023, a Reserva Federal norte-americana (Fed) deu nesta quarta-feira os primeiros sinais de que uma viragem da sua política monetária poderá estar agora mais próxima. É uma estreia entre as autoridades monetárias das grandes potências mundiais que irá aumentar a pressão sobre o Banco Central Europeu para definir rapidamente a sua estratégia de retirada dos estímulos. 

No final da reunião de dois dias do comité que, dentro da Fed, define a condução da política monetária, Jerome Powell, o presidente da instituição, manteve um discurso prudente, reafirmando a intenção de manter por mais tempo os apoios que o banco central tem dado à economia, através de taxas de juro muito baixas e da compra mensal de activos no valor de 120 mil milhões de dólares. 

No entanto, pela primeira vez, foram dados alguns sinais de viragem, que foram imediatamente lidos com ansiedade nos mercados. Depois de no início do ano ter dito que no interior da Fed nem sequer estavam a “falar sobre falar” acerca de uma retirada dos estímulos, Jerome Powell disse agora que, na reunião desta semana, aquilo que foi feito foi precisamente isso: “Falar sobre falar.” 

E, mais do que isso, nas previsões sobre as decisões futuras de mexidas nas taxas de juro da Fed que os seus membros regularmente publicam, passaram a ser projectadas duas subidas de taxas durante o ano de 2023, uma novidade que revela uma mudança de ambiente em relação à condução da política dentro da autoridade monetária. 

Estes sinais de mudança na Fed surgem numa altura em que se assiste na economia norte-americana a uma escalada da inflação. A variação de preços anual nos EUA subiu, em Maio, para 5%, e a Fed prevê actualmente que em 2021 a inflação se situe em média nos 3,5%, claramente acima do objectivo de 2% que definiu para si própria. 

Até agora, os responsáveis da Reserva Federal têm vindo a desdramatizar esta subida dos preços, salientando que uma grande parte dela se deve a factores temporários. E têm deixado claro que a preocupação central, nesta fase, continua a estar no outro objectivo da Fed, a manutenção de um nível elevado de emprego, deixando claro que a ultrapassagem do objectivo de inflação não é vista com uma grande preocupação. 

Ainda assim, com economistas como Lawrence Summers a alertarem para os riscos de um sobreaquecimento da economia na saída da crise, nos mercados são cada vez mais os que apostam que a Fed vai ter de mudar de rumo mais cedo do que o previsto. E, como é hábito, qualquer sinal dado nesse sentido, como o desta quarta-feira, conduzem a subidas nas taxas de juro da dívida pública e a descidas no valor das acções. 

O principal receio é o de que se repita o cenário vivido em 2013, quando uma declaração surpreendente do então presidente da Fed, Ben Bernanke, levou a um cenário de instabilidade nos mercados, com consequências em todos os pontos do globo. Desta vez, Jerome Powell não quer repetir o erro do seu antecessor e tenta operar a retirada de estímulos da forma mais gradual que for possível. 

Na zona euro, estas movimentações podem ter impactos importantes no rumo que o BCE dá à sua própria política monetária. Um sinal de que os EUA irão começar a subir as taxas mais rápido do que o previsto aumenta a pressão para que Christine Lagarde e os seus pares comecem também a mudar de rumo. A inflação europeia não está tão alta, mas também tem vindo a subir nos últimos meses (devido em parte a factores temporários). No caso da zona euro, acrescem as pressões que podem vir de países onde a subida e a preocupação com a inflação possa ser maior.