Um “falso” Erasmus dentro de quatro paredes: como foi estudar em Portugal durante o confinamento?

Cecília e Frederica trocaram terras italianas pelas ruas lisboetas, que só viram pela janela durante quase três meses. Julia preferiu seguir em frente, rumo a restrições pandémicas que nunca viveu na Suécia. Emanuela conheceu um Portugal livre de confinamento, mas por pouco tempo. Entre aulas à distância e, em alguns casos, sem quase conhecerem as faculdades de acolhimento, como foi a experiência de fazer um Erasmus+ confinado?

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Em cima: Cecília Tessiore e Frederica Galvagni. Em baixo: Emanuela Maltese e Julia Karlsson.

Cecília Tessiore veio de Turim, em Itália, e escolheu a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL) para realizar um semestre de mobilidade, ao abrigo do programa Erasmus+. Neste momento, termina a licenciatura em Ciências da Comunicação. Quando chegou a Portugal, durante o segundo confinamento, foi informada de que a faculdade não reabriria e que as aulas seriam à distância. “Recebi um email da Universidade Nova [de Lisboa] e fui informada que as aulas seriam dadas online. Não foi uma boa notícia porque a minha ideia era ir à universidade e conhecer os meus colegas.”

Fazer Erasmus sempre foi um objectivo. Na concretização desse sonho, nada a impediu, nem mesmo uma pandemia que tanto impacto causou no seu país de origem. “Em Itália, a situação é a mesma, mas desde sempre que gostaria de fazer Erasmus, conhecer pessoas, línguas, e isto não me parou. Queria muito ir para outro país e ter uma experiência nova. Outros colegas da universidade italiana escolheram ficar em casa, mas eu nunca pensei nisso, tinha muita vontade de ir”, recorda, em entrevista ao P3.

De portátil na mesa e Zoom ligado, Cecília assiste às aulas na cozinha do pequeno apartamento, de alojamento local, que divide com o namorado, em teletrabalho no único quarto da casa. Com um calendário organizado e dividido por cores, Cecília tenta orientar-se no meio de uma língua que não domina. Apesar de não ter tido muitas oportunidades de aprender, Cecília comunica com um português perceptível e misturado com castelhano. “Em algumas disciplinas sou a única estudante Erasmus, então a professora fala muito, muito rápido. De cada vez que não entendo fico em dificuldades”, lamenta.

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Cecília Tessiore é natural de Turim, na Itália. DR

Desde 19 de Abril, data de regresso ao ensino presencial universitário, a FCSH/UNL decidiu manter a grande maioria das unidades curriculares em regime online, passando apenas as disciplinas práticas, e outras que se justificasse, e avaliações, para regime presencial. No caso de Cecília, isto fez com que só fosse à faculdade assistir a uma aula, uma vez por semana.

Para Frederica Galvagni, a tão esperada oportunidade de sair de casa e retomar as aulas presenciais não chegou. Também a tirar Ciências da Comunicação na FCSH/UNL, todas as cadeiras em que se inscreveu se mantiveram à distância, numa primeira fase. Assim, teve de continuar a assistir às aulas em casa, num apartamento que divide com mais quatro estudantes internacionais.

A segunda vez que entrou na faculdade foi em Maio, já na recta final do semestre, para falar com o P3. A primeira coisa que comenta é a beleza do campus da Avenida de Berna, em comparação com a faculdade italiana que frequente. Ao contrário de Cecília, Frederica expressa-se em inglês, com um forte sotaque italiano. A língua portuguesa é-lhe totalmente estranha.

Desde o começo do Erasmus+ que contacta com colegas e professores quase exclusivamente pela Internet. Sem encontros presenciais, Frederica sente ainda mais saudades da família, que vive em Como, Itália. “Às vezes sinto-me sozinha e penso que talvez tenha sido um erro vir para aqui, teria sido melhor ficar em Itália”, confessa.

“Eu estou sempre no computador, não consigo ver os meus colegas nem falar com eles. Não consigo falar bem com a professora quando tenho dúvidas. Não funciona tão bem como se fosse presencial. É importante conhecer os estudantes e eu não conheço ninguém, não me conseguem ajudar”, lamenta-se.

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Frederica Galvagni é natural de Como, na Itália. DR

Ensino à distância pela primeira vez

Julia Karlsson trocou a vida “quase normal” na Suécia por um confinamento em Portugal. “Não passámos por nenhuma quarentena”, conta. E as máscaras são “apenas uma recomendação” na Suécia. A estudante está a tirar o mestrado em Media e Comunicação e faz disciplinas de várias faculdades diferentes da Universidade do Porto (UP), em ensino maioritariamente online, desde Fevereiro. As aulas, diz, “têm funcionado bem”, apesar da grande barreira linguística.

“Quando havia restrições [no confinamento] era preciso ser criativo para conhecer pessoas”, comenta Julia, que acabou por convidar colegas internacionais e nacionais para sua casa. “Eu adoro conhecer pessoas, é a minha personalidade.” Apesar das aulas por Zoom, os professores têm-se mostrado disponíveis para lhe explicar a matéria que, em português, não entende. “A parte boa tem sido o apoio que recebi, mas isso tem sido dificultado durante esta altura. Normalmente, teríamos encontros de grupo para estudar ou estudantes mais velhos que nos podiam ajudar”, lamenta.

Mesmo sabendo que poderia enfrentar, pela primeira vez, um ensino online, Julia decidiu vir para Portugal, aconselhada pelos pais que a motivaram a não desistir de ter uma experiência de Erasmus+ feliz no Porto. O maior medo, confessa, era ficar “socialmente isolada” num país estranho, com uma língua diferente.

“Senti-me muito ansiosa no início do semestre porque saber que vinha para outro país durante seis meses, com uma língua totalmente diferente, é algo completamente transcendente”. Mas com “as restrições a aliviar, o tempo a melhorar e poder conhecer muitas pessoas fez com que ir para o Porto valesse a pena”.

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Julia Karlsson, aluna Erasmus+ na Universidade do Porto Julia Karlsson

“O sistema online funcionou muito bem”

Emanuela Maltese é italiana, da Sicília, e estudante de doutoramento na Universidade Carolina de Praga. Depois de um ano e meio na República Checa, mudou-se com o marido e a filha de quatro anos, em Dezembro de 2020, para Portugal, ao abrigo de um projecto Erasmus+ na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC). Para além de conciliar o doutoramento em Culturas e Literaturas na área anglófona com o trabalho de tradutora numa editora, Emanuela ainda se desdobra no papel de mãe, por vezes, confinada.

“É muito difícil porque para uma criança, na pandemia, ter um programa de actividades não é suficiente e, apesar de a escola dar actividades, foi muito difícil ficar num apartamento. Eu e o meu marido tivemos de fazer um plano. A qualidade do tempo é muito importante. Eu escolho estar duas horas com a minha filha sem pensar no estudo, graças a Deus posso fazer isso. Tudo junto é impossível.”

A universidade, conta, foi uma grande ajuda. “O sistema online funcionou muito bem. Recebi muitas sugestões, encontros online. A cada dois dias, perguntavam-me se queria fazer um encontro sobre um certo aspecto e também recebia acompanhamento de psicologia. Achei muito organizado.”

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Emanuela Maltese, aluna Erasmus+ na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. DR

Emanuela percorre com gosto a distância que separa a Margem Sul de Lisboa, onde mora, de Coimbra. Uma vez por semana, acorda às seis da manhã e apanha dois transportes públicos. As duas horas e meia de caminho, garante, valem a pena. “Gostei muito [da experiência]. Agora que consegui ir a Coimbra, gostei ainda mais. Consegui conhecer a linda cidade, os meus colegas. Fomos almoçar todos juntos, foi a realização de um ano.”

“Fizeram um semestre de mobilidade e nunca estiveram na faculdade fisicamente”

No ano lectivo de 2019/2020, 51,3% dos alunos Erasmus+ decidiram ficar em Portugal e completar o programa no meio do primeiro confinamento, segundo o estudo Student Exchanges in Times of Crisis. Research Report on the Impact of COVID-19 on Student Exchanges in Europe. Case Study: Portugal, da Erasmus Student Network (ESN). Face ao ano lectivo anterior, de 2018/2019, houve um decréscimo de 86% de chegadas de alunos internacionais a Portugal, no primeiro semestre, entre Setembro e Dezembro de 2020, segundo a Agência Nacional Erasmus+. Embora ainda não existam dados gerais sobre o segundo semestre, a tendência de diminuição continua.

Apesar da falta de presença física, as universidades tentaram que essa distância não fosse também emocional. A UC acompanhou semanalmente os estudantes e traduziram sempre em inglês todos os “os planos de contingência e os despachos do reitor referentes à situação”, refere o vice-reitor, João Nuno Calvão da Silva.

Na UP foi criada uma task force, com foco em “três dimensões: o sucesso académico, a integração sociocultural e o bem-estar físico e psicológico”. O apoio dado a nível de saúde mental foi muito importante porque, segundo Maria Joana Carvalho, pró-reitora da Universidade do Porto para a área das Relações Internacionais, a instituição teve um número significativo de alunos a recorrer aos serviços de Psicologia. Para além de receberem apoio, os alunos Erasmus+ foram “incansáveis” na ajuda a outros estudantes. A UP realizou uma campanha de entrega de refeições a alunos em isolamento profiláctico na qual os “estudantes Erasmus foram excepcionais”, conta a docente.

Muitos estudantes na FCSH/UNL só tiveram oportunidade de visitar a faculdade que os acolheu no final da experiência. “Desde que a faculdade abriu, convidámo-los a vir cá para nos conhecerem pessoalmente, para lhes oferecer um miminho da faculdade e, no fundo, ganharem uma ligação com a faculdade”, informa Ana Costa, coordenadora da Divisão de Apoio ao Aluno da FCSH. “Fizeram um semestre de mobilidade, que está quase a acabar, e nunca estiveram cá na faculdade fisicamente.”

Entre confinamentos e desconfinamentos, risos e incertezas, Frederica Galvagni viveu uma experiência agridoce, que prefere “lembrar com um sorriso”. Cecília Tessiore tem mais certezas: “É uma experiência que te permite crescer.”

Texto editado por Ana Maria Henriques