As maiores lutas que travamos são as que ocorrem dentro de nós

Um dia perguntaram-me se não me incomodava que a Noura rezasse tantas vezes por dia, a primeira logo pelo nascer do sol. Respondi que não. A mim incomoda-me a injustiça, a maldade, o desrespeito pela pessoa do outro e a discriminação.

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jakob rubner/Unsplash

Conheci a Noura quando ambas éramos estudantes universitárias. Ela foi minha colega de quarto e tinha chegado a Portugal uns meses antes, com uma bolsa de estudo, ao abrigo de um acordo de cooperação com o estado português. A Noura é palestiniana, portuguesa e muçulmana. Nasceu e viveu a sua infância no Kuwait, sendo vítima de uma guerra que a haveria de deixar um ano sem ir à escola e meses sem ver o céu azul, devido aos bombardeamentos constantes durante a Guerra do Golfo. Passou a adolescência em Gaza, de onde é originária a sua família. Um dia normal de escola poderia ser interrompido por um ataque israelita, com os palestinianos a incentivar crianças e adolescentes a ir para a rua e defenderem a sua cidade como pudessem.

O que acontece há anos na Palestina é já descrito como um sistema de apartheid, onde se põe de atalaia a desigualdade, injustiça e discriminação. A Palestina há muito que foi transformada numa favela ocupada por uma força militar, onde matar pessoas de forma impune é legítimo, e em que diariamente se atenta contra a dignidade humana, maltrata e humilha, numa violação constante dos direitos humanos. É uma ocupação silenciada, sendo apenas notícia quando a escalada de violência aumenta, com Israel a apequenar-se, de cada vez que invoca como argumento a necessidade de defesa, utilizando meios desproporcionais de ataque/resposta.

As consequências para a saúde psicológica são graves. A conhecida teoria da hierarquia das necessidades humanas do psicólogo Maslow é representada por uma pirâmide, onde na base se situam os dois níveis de necessidades básicas relacionadas com a sobrevivência, tais como as fisiológicas e de segurança, e nos restantes níveis as necessidades de ordem superior, nas quais se incluem amor/pertença, estima e realização pessoal. Segundo esta teoria, só sentimos necessidade de satisfazer o desejo do próximo nível, se o anterior estiver sanado. É assim que miúdos e graúdos vão crescendo, à altura da vida possível naquelas paragens, com sérias restrições à satisfação das suas necessidades básicas e ainda mais às de nível superior. A ocupação dura há tanto tempo que nenhuma geração na Palestina conheceu uma época de paz, prosperidade e segurança.

A maioria dos israelitas nunca terá conhecido um palestiniano durante toda a sua vida e se o fez, foi provavelmente quando serviu no exército. A psicologia social evidenciou que indivíduos pertencentes a grupos externos são percepcionados como mais similares, entre si, do que os indivíduos dos grupos aos quais pertencemos. Daí surgirem comentários vulgares, como os palestinianos ou israelitas são todos iguais. Este fenómeno é influenciado, naturalmente, pelo conhecimento que a pessoa tem dos outros povos e a sua abertura à experiência. Nelson Mandela diria, a propósito de um outro apartheid, que “ninguém nasce a odiar ninguém pela sua cor de pele, pela sua origem ou religião. Para odiar precisam de aprender”. Ter oportunidade de conhecer melhor o outro, torna mais difícil o ódio e a discriminação.

Já era psicóloga quando um dia convidei a Noura para conversar com um grupo de alunos na escola onde então trabalhava. Não apenas sobre a sua vida no Kuwait e Palestina, mas também a difícil adaptação a Portugal, um país cuja língua e cultura são tão distintas do que então conhecia. Fui testemunha das agruras e desse esforço enorme que fez diariamente, sem reprovar nenhum ano, no exigente curso de Medicina Dentária. Um dia perguntaram-me se não me incomodava que a Noura rezasse tantas vezes por dia, a primeira logo pelo nascer do sol. Respondi que não. A mim incomoda-me a injustiça, a maldade, o desrespeito pela pessoa do outro e a discriminação. Ter sido colega de quarto da Noura foi um privilégio. Com ela aprendi que um livro se lê sempre do princípio para o fim. O princípio dos livros dela, escritos em árabe, e o dos meus, em português, é que era diferente. Consigo, eu e a minha família, aprendemos que temos de respeitar as crenças dos outros por muito distantes que sejam das nossas. Mesmo quando isso implicou passar, em conjunto, um Natal com a mesa a abarrotar de comida, o qual coincidiu com o Ramadão, período de jejum para os muçulmanos durante o dia.

Foi a primeira vez que os alunos presentes naquela conversa contactaram com uma palestiniana, sabendo eu de antemão que dificilmente se dissocia a Noura da forma doce e tranquila como fala, mesmo quando um turbilhão de emoções se aloja dentro de si. As maiores lutas que travamos na vida são as que ocorrem dentro de nós, porque ao contrário do que diria Sartre, o inferno não são sempre os outros. Um olhar atento ao que alimentamos no nosso íntimo poderá ajudar a criar mais empatia, derrubar muros, reduzir distâncias e evitar sucumbir ao ódio e violência gratuita. Haja inteireza de alma e força nos corações!