Soldados etíopes e eritreus detêm centenas de deslocados em Tigré, ONU em alarme

Mais de 500 pessoas que se encontravam em quatro campos de deslocados foram forçadas a entrar em carrinhas e muitas foram agredidas, segundo relataram as testemunhas.

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A escola primária de Tsehaye, convertida em campo de deslocados, foi um dos locais invadidos pelos soldados BAZ RATNER/Reuters

O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) mostrou-se alarmado esta sexta-feira com os relatos da detenção de deslocados por soldados eritreus e etíopes na região de Tigré, Etiópia, reforçando que os campos deveriam ser locais seguros. Segundo várias testemunhas, na noite de segunda-feira centenas de pessoas foram levadas de quatro campos de deslocados na cidade de Shire e muitas foram agredidas. 

“Repetimos o nosso apelo a todos os envolvidos para garantir a protecção dos civis, incluindo os que foram forçados a deslocar-se. É crucial que todas as partes do conflito reconheçam o carácter humanitário e civil dos campos de deslocados”, disse Babar Baloch, porta-voz do ACNUR, numa conferência de imprensa em Genebra.

“A situação é traumática e angustiante, não apenas para aos familiares dos desaparecidos, mas para todas as comunidades de deslocados a residir na cidade de Shire”, que recebe centenas de milhares de pessoas que fugiram da violência, acrescentou.

Após o ACNUR se ter dirigido às autoridades etíopes, algumas pessoas foram libertadas, afirmou Baloch, sem revelar números, informação avançada também pela CNN.

De acordo com as testemunhas, mais de 500 deslocados foram detidos depois das tropas eritreias e etíopes terem entrado em quatro campos de deslocados, onde agrediram várias pessoas e obrigaram-nas a entrar em carrinhas, nas quais foram levadas para a periferia de Shire. 

Segundo disse um trabalhador humanitário à CNN, os soldados acusaram os deslocados de pertencerem à Frente de Libertação do Povo de Tigré (FLPT), o grupo combatente em confronto com o Governo etíope. “Mas o ataque foi indiscriminado”, retorquiu. Os relatos foram negados tanto por Asmara como por Adis Abeba.

Um dos homens que foi libertado descreveu as agressões que sofreu: “Levaram-nos um a um e torturaram-nos. As pessoas aqui começam a correr e ficam assustadas de cada vez que vêem alguém de uniforme. Estamos a viver em terror”, contou, citado pela CNN.

Mais de seis meses de conflito

O conflito armado entre o Governo central e os líderes tigré estende-se já desde Novembro de 2020. A FLPT realizou as suas próprias eleições, que Adis Abeba não reconheceu, depois de Abiy Ahmed, o primeiro-ministro etíope, ter adiado as eleições nacionais, e avançou em Novembro para a guerra contra a FLPT a pretexto de um ataque a bases militares das tropas federais, contando com o auxílio eritreu.

Ahmed anunciou a retirada das tropas há mais de dois meses, mas os soldados eritreus mantêm-se em solo Tigré. E as atrocidades que foram reportadas desde o início do conflito contra os cidadãos continuam a ser relatadas: mortes indiscriminadas, violações em grupo e outros tipos de violência sexual, roubos, destruição de infra-estruturas, incluindo hospitais e terrenos agrícolas, falta de acesso a cuidados básicos e bens essenciais.

Além da violência, que já causou milhares de mortos e dois milhões de deslocados, mais de cinco milhões de pessoas de Tigré encontram-se à beira da fome, alertou esta semana o secretário-geral do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla inglesa). A situação deve-se, em parte, ao bloqueio do acesso das agências humanitário à região por parte dos militares.