Tropas eritreias mantêm presença em Tigré e bloqueiam acesso a agências humanitárias

Mais de quatro milhões de pessoas do Norte da Etiópia estão em situação de insegurança alimentar. Nos poucos hospitais que estão abertos há ruptura de bens essenciais.

Foto
A população de Tigré está em risco de fome MOHAMED NURELDIN ABDALLAH/Reuters

Mais de um mês depois de o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, ter anunciado a retirada dos soldados eritreus da região de Tigré, os militares eritreus mantêm a sua acção violenta no norte da Etiópia.

A CNN indica que os soldados eritreus têm total controlo em alguns pontos do país e empreendem uma campanha de terror contra a população tigré, bloqueando o acesso de agências humanitárias à região. Este bloqueio pode afectar os 1,25 milhões de tigrés em situação de insegurança alimentar que vivem em áreas onde as agências não conseguem entrar.

Numa visita à região central de Tigré, a CNN recolheu testemunhos de trabalhadores humanitários, profissionais de saúde, soldados e deslocados na cidade de Axum e na região central de Tigré, indicando que a situação está pior do que se imaginava. As tropas eritreias controlam totalmente alguns locais no Norte da Etiópia onde as autoridades etíopes não conseguem exercer controlo , enquanto empreendem uma campanha de terror.

A equipa do canal viu soldados eritreus vestidos com o antigo uniforme etíope a verificar pontos de controlo e a obstruir e ocupar caminhos vitais ao acesso das agências humanitárias. Há também registos de pilhagem de bens alimentares, segundo um documento do Centro de Coordenação de Emergência de Tigré. E, num dos poucos hospitais operacionais na região, há relatos de vigilantes nos corredores, ameaças aos profissionais de saúde, e também roubo de material hospitalar. 

"Não há ajuda, não há comida, não há nada"

O impacto da pouca acessibilidade das agências e bens essenciais pode ser devastador para a população: dos 5,7 milhões de tigrés, 4,5 milhões estão em situações de insegurança alimentar, de acordo com a ONU. As autoridades norte-americanas estimam que cerca de 1,25 milhões vivem em áreas onde as agências humanitárias não conseguem chegar. 

“Com base nas nossas estimativas, nestas áreas onde não conseguimos aceder, nas zonas rurais, por exemplo, os habitantes locais estão a ceder à fome. Mas não conseguimos confirmar isso, o que é parte do problema”, disse à CNN Thomas Thompson, o coordenador de emergência do Programa Alimentar Mundial.

E os poucos hospitais que estão em funcionamento começam a apresentar rupturas de vários bens essenciais, incluindo sangue e oxigénio. Somando-se o roubo de materiais, contribuem para uma “parte da disfuncionalidade dos hospitais”, disse à CNN Emily Dakin, coordenadora da Equipa de Resposta de Emergência em Casos de Desastre da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês).

Segundo Girmay, um etíope que levou ao Hospital Universitário de Axum a filha malnutrida de sete anos, “não há ajuda, não há comida, não há nada”. Para colmatar as necessidades da população, a ONU anunciou na semana passada um fundo de 40 milhões de dólares (33 milhões de euros) para operações humanitárias na região.

Além de casos de malnutrição, os profissionais de saúde dizem receber vários casos de diferentes traumas consequentes de destroços, balas, esfaqueamentos e violações. Aliás, a violência sexual é uma das armas de guerra usadas no conflito. E, de acordo com um médico ouvido pela CNN, surgiu um pico de casos nas últimas semanas, considerado como “a ponta do icebergue”: muitas mulheres têm sido drogadas, feitas reféns e violadas em grupo.

Apesar da pressão internacional, não há sinais da retirada das forças eritreias, seis meses depois do início do conflito entre a Frente de Libertação do Povo Tigré e o Governo etíope, com o auxílio eritreu. A campanha inicialmente contra os líderes tigré por realizarem eleições na região, estendeu-se à população e já fez milhares de mortos e deslocou milhões de pessoas.

De acordo com um relatório citado pelo subsecretário-geral da ONU para os assuntos humanitários, Mark Lowcock, e pela embaixadora dos EUA na ONU, Linda Thomas-Greenfield, a camuflagem dos soldados eritreus com os uniformes etíopes indica uma intenção de “permanecer em Tigré indefinidamente”.