Exames nacionais de 2020: para que serve a escola?

Olhando para os resultados dos exames de 2020, fica esta dúvida, entre outras. Será que mais ou menos três meses de aulas contam pouco e dois períodos letivos bastavam?

O ranking agora publicado foi construído com os resultados dos alunos nos exames nacionais do ensino secundário realizados no verão de 2020. Estes exames têm duas grandes diferenças em relação a todos os anos anteriores. Ambas resultantes do combate à pandemia de covid-19. Em primeiro lugar, apenas fizeram cada exame os alunos que dele precisavam como prova específica de acesso ao ensino superior. Ou seja, só fizeram exame de Português os alunos que queriam ingressar num curso superior e num curso que o exige como prova de acesso.

Em segundo lugar, embora os exames já estivessem praticamente fechados quando rebentou a pandemia (os exames nacionais começam a ser preparados em outubro de cada ano para o ano seguinte), foi decidido atribuir maior pontuação a cada item do que o previsto inicialmente de modo que as piores respostas de cada aluno pudessem ser desconsideradas. Ou seja, devido ao ensino não presencial e a toda a disrupção por este provocada, o currículo concreto abordado por cada escola secundária do país variou muito, e era importante criar condições de maior justiça com a possibilidade de perguntas extras por conta de matérias não dadas. Resumindo, os exames nacionais do ensino secundário de 2020 eram iguais aos dos anos anteriores, mas havia a hipótese de se errar algumas perguntas sem descontar e só foram a exame alunos que queriam ir para o ensino superior e que precisavam desse exame concreto para tal.

Vejamos então os resultados dos exames e comparemos com o que sucedeu em 2018, 2019 e 2020. Isto para quatro disciplinas: Português, História A, Matemática, e Física e Química A. As médias do exame de Português nestes três anos (numa escala de 0 a 200) foram 110, 118 e 120, a História A foram 95, 104 e 134, a Matemática A foram 109, 115 e 133, e a Física e Química A 106, 100 e 132. Se, dos rankings de 2019 para 2020, a variação a Português foi inferior a 1%, a História, Matemática e Física e Química a variação foi cerca de 30%.

Que isto tivesse sucedido num ano letivo igual aos outros: com aulas presenciais o ano todo, sem grande situação de alarme social, sem uma crise de saúde pública como nunca ninguém vivo tinha vivido antes, o resultado seria o esperado. Afinal, os alunos mais fracos a cada disciplina não foram a exame. Porém, a única parte “normal” do ano letivo 2019/2020 foi o primeiro semestre. Metade do ano letivo decorreu em estado de emergência, com aulas à distância, pessoas aflitas, confinamentos brutais, ansiedade galopante... No entanto, as médias dispararam à mesma (ainda que nem em todas as disciplinas) e as posições relativas dos estabelecimentos de ensino no ranking mantiveram-se muito semelhantes. Recordo o que escrevi no início: ainda que com a facilidade de poder não responder a tudo, os itens dos exames (as perguntas) eram iguais em dificuldade aos dos anos anteriores.

Isto não pode deixar de merecer uma cuidadosa reflexão. O facto de as médias serem muito elevadas só se explica por um de três fenómenos (ou uma combinação dos três): (i) o ensino online funcionou muito bem, (ii) mais ou menos três meses de aulas contam pouco e dois períodos letivos bastavam, ou (iii) a escola não acrescenta tanto às aprendizagens formais quanto queremos crer. Cada um terá a sua opinião. Por mim, proponho assumirmos (ii) e (iii) e pensarmos com coragem para que serve a escola hoje e o que queremos fazer dela. Ao contrário do que possam pensar, considero que temos aqui uma grande oportunidade!

Termino com mais uma “acha para a fogueira”: fizeram exame de Física e Química A 39.444 alunos, e 9390 tiveram negativa (24%), mas 17.996 tiveram 150 ou mais (52%). Mais de metade de excelentes resultados, portanto, com menos de metade do ano letivo.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico