Eles largam as fraldas, não lhas tiramos!

Não podemos ensinar o controlo dos esfíncteres a uma criança, visto que é algo fisiológico, controlado pelo seu sistema corporal e não pelo que é imposto externamente.

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Shelbey Miller/Unsplash

Ultimamente parece haver uma pressão enorme para as crianças deixarem as fraldas rápido e cedo. Com ideias curiosas como: o Verão parece ser uma boa altura para as crianças deixarem as fraldas ou as fraldas estão a ficar muito caras e precisamos que deixem de as usar rapidamente. Na verdade, o desfralde é um marco muito sensível do desenvolvimento dos bebés e não pode ser propriamente ensinado. Ou seja, as crianças largam as fraldas, não somos nós que as tiramos, nomeadamente quando ainda não estão preparadas.

Algumas creches decidem desfraldar todas as crianças ao mesmo tempo e muitas delas têm diferenças de idade de dois ou três meses, o que torna este processo complicado. Em termos da maturação das competências, estas crianças podem ser completamente diferentes, pelo que o desfralde conjunto poderá trazer danos para algumas delas.

Portanto, este é um processo delicado e que depende de três áreas do desenvolvimento do bebé, que vão evoluindo de forma mais ou menos previsível: a criança tem de ter um desenvolvimento motor e neurofisiológico, e tem de ter competências emocionais e competências cognitivas para fazer o desfralde.

O nosso cérebro desenvolve-se de forma crânio caudal, ou seja, da cabeça para os pés. Conseguimos observar isto no comportamento das crianças: primeiro desenvolvem a visão, de seguida a audição e todos os restantes sentidos, depois a motricidade fina, dos braços e das mãos. E vamos percorrendo todo o corpo, da cabeça até às pernas e pés, começando assim a andar. Esta explicação breve do desenvolvimento dos sentidos serve também para o controlo dos esfíncteres e para a capacidade de ter a bexiga musculada, trazendo à criança a noção de bexiga cheia. Esta maturação do esfíncter e da zona muscular da bexiga tem um desenvolvimento mais ou menos previsível ao longo do tempo. Portanto, nós não podemos ensinar o controlo dos esfíncteres a uma criança, visto que é algo fisiológico, controlado pelo seu sistema corporal e não pelo que é imposto externamente.

O que devemos perceber em termos de sinais para ajudar, guiar e facilitar o processo de desfralde? Devemos ver se a criança consegue aguentar duas horas com a fralda seca, ou seja, usar a fralda como uma cuequinha. Perceber se a criança já tem o seu momento certo para fazer xixi e cocó, por exemplo de manhã ou a seguir às refeições. Isto também já nos dá uma previsibilidade do funcionamento do intestino e da zona da bexiga (zona pélvica).

É também importante o facto de a criança mostrar interesse. A criança durante os primeiros anos vê o pai e a mãe a utilizar a sanita e começa a pedir para fazer xixi e a perguntar sobre o assunto. Podemos aproveitar esses momentos para falar sobre o pote e explicar como tudo funciona. Pode fazê-lo com auxílio de um livro com o qual a criança se identifique ou através de uma personagem ou de um brinquedo de que ela goste.

Se a criança tiver alguns medos em relação ao uso do pote e da sanita, esses medos vão passar com o tempo.

Não esquecer que forçar a criança poderá trazer complicações. Temos imensos pais que nos consultam porque têm crianças com enurese (perda de xixi) e encoprese (perda de coc), infecções vaginais recorrentes ou casos de vaginismo na vida adulta da mulher, que tem a ver com esta fase ter sido atropelada.

Temos sempre de respeitar esta fase, seguir os bebés e ir atrás deles. Por que mostram receio? É como quando nós lhes queremos cortar as unhas e o cabelo e eles retraem-se, têm dificuldade em se libertar desses pedacinhos de si. Com o cocó e o xixi é igual, eles tem receio de deixar ir parte deles.

Para o desfralde também é necessário que a criança seja capaz de ficar sentada algum tempo ou dar pulinhos. É um sinal físico que pode estar preparada, mas diz respeito apenas à fase motora. Temos então que avaliar as fases cognitiva e emocional. E no caso de manifestar todas as competências e sinais desenvolvidos para tal, aí sim, guiamos a criança neste processo.

O discurso da criança relativamente ao desfralde é o seguinte: primeiro diz “eu já fiz cocó e xixi”, depois “eu quero fazer cocó e xixi” e por último diz que quer fazer e consegue aguentar até ao pote ou sanita. Convém seguirmos estas dicas verbais que elas nos vão dando e ver em que fase se encontram. Se o seu bebé se esconder para fazer cocó ou xixi não fique preocupado, é um sinal de que começa a ficar preparado. Por volta dos dois anos vá observando e quando for o momento-chave utilize as dicas aqui faladas.

Como referi anteriormente, ler livros sobre o assunto pode ser interessante e ajudar a não forçar este processo. O Lucas, o hipopótamo que não queria deixar as fraldas é um livro que aborda alguns dos medos que os mais pequenotes tem em relação ao pote. Dê uma espreitadela e leia-o ao seu filhote.

Acredite que este processo pode ser fácil e bem divertido, não se admire se estiver a dar um jantar de amigos e se o seu filho aparecer com o pote na cabeça a fazer de chapéu!