Diversão nocturna e saúde mental em tempos de pandemia

Quebrar a legislação para fazer botellón ou participar numa festa ilegal não é “ir contra a sociedade”. Esses jovens são igualmente parte dessa “sociedade”, mas ninguém os compreende: nós, a sociedade adulta, infantilizamo-los, silenciamo-los, e criminalizamo-los com muita mais energia do que aquela com que deveríamos protestar contra os abusos legislativos, bancários e policiais em tempos de pandemia.

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Paulo Pimenta

O dever cívico de confinamento, o seu policiamento e o encerramento indefinido dos estabelecimentos de diversão nocturna são factores centrais para o agravamento da saúde mental de muitos jovens (e também adultos) do nosso país. Associado a este quadro, assistimos a uma criminalização obsessiva dos noctívagos nacionais (já se esqueceram dos pubcrawls dos estudantes Erasmus no Bairro Alto?), que é accionada por parte da comunicação social, da esfera política do país e de grande parte da sociedade civil cada vez que é noticiado mais um comportamento desviante face ao lazer nocturno neste “novo normal”.

Assistimos a uma deterioração do cenário de não-futuro que sofrem amplas camadas da população portuguesa, e que surgiu muito antes do início da pandemia da covid-19. Quebrar a legislação vigente para fazer botellón ou participar numa festa ilegal não é “ir contra a sociedade”. Esses jovens são igualmente parte dessa “sociedade”, mas ninguém os compreende: nós, a sociedade adulta, infantilizamo-los, silenciamo-los e criminalizamo-los com muita mais energia do que aquela com que deveríamos protestar contra os abusos legislativos, bancários, e policiais em tempos de pandemia.

A pandemic politics rege o nosso quotidiano, a forma como nós, os adultos, olhamos e tratamos qualquer indício de mal-estar juvenil, normalmente com silêncio, e até com algum desprezo. Essa atitude manifesta-se numa estratégia de bunkerização do “adulto-centrismo” social e político que reproduz até a perpetuidade uma visão que paira nestes ares de recuperação pós-pandémica: os jovens sobram no nosso país, são uma mochila demasiado pesada para o novo Portugal verde, digital e resiliente.

Nesse sentido, a forma como cuidamos e acompanhamos aos nossos jovens nestes últimos tempos de pandemia é especialmente dolorosa e deplorável. Daí que para eles e elas, os e as jovens, o inimigo a vencer não seja o novo coronavírus, mas aquele “adulto-centrismo” não solidário reforçado que rege a vida quotidiana dos nossos corpos e que ignora e desconsidera qualquer indício de deterioração acelerada da saúde mental não só da nossa juventude, mas da sociedade portuguesa no seu conjunto. Para os críticos do Twitter (esse desporto nacional em tempos de covid-19), gostaria de referir o estudo liderado pela investigadora Marta Estrela, da Universidade de Aveiro, e recentemente publicado na revista Environmental Research and Public Health (de Novembro de 2020), que situa Portugal como o primeiro país da Europa no consumo de ansiolíticos e o terceiro país da OCDE que mais antidepressivos consome anualmente, situação agravada naturalmente pelo contexto pandémico que vivemos.

Desafiar a política pandémica actual começa a tornar-se, para muitos jovens e adultos, uma transgressão que vai muito além de qualquer classificação como acto rebelde, hedonista, niilista ou até idiota. Sair à noite em horários de dever cívico de confinamento, fazer botellón ou ir a uma festa ilegal constitui um acto de cuidar de si mesmo, de cuidar da saúde mental (deles mesmos e de todos) e até mesmo de cuidar da economia. De facto, são inúmeros os estudos realizados desde os anos 1970 do século passado que apresentam de forma clara e evidente o impacto negativo que a deterioração da saúde mental produz na economia de um país em termos – por exemplo – de produtividade.

A continuação, de forma teimosa e (in)explicável, da actual não-política sobre a (não-)governança da “noite” em tempos de pandemia constitui um absurdo enorme. Na verdade, chamar essa teimosia de absurdo não é de forma alguma imprudente, e baseia-se em três razões principais. Em primeiro lugar, o encerramento dos estabelecimentos de diversão nocturna significa descartar um espaço-tempo potencialmente interessante para qualquer possibilidade de rastreamento e monitoramento da taxa de positividade e incidência em segmentos populacionais com alta interacção social, como os jovens e adultos jovens. Em segundo lugar, o encerramento do sector impossibilita uma actuação eficaz sobre o consumo responsável e informado de substâncias psicoactivas em contextos recreativos nocturnos que, apesar das severas restrições em vigor, são cada vez mais numerosos em toda a geografia portuguesa. E, em terceiro lugar, o encerramento do sector de diversão nocturna também torna impossível prevenir e reagir contra a violência machista que está a ocorrer em festas (il)egais.

É urgente reabrir o sector da diversão nocturna. Além do que já tem sido afirmado neste texto, e mesmo além das múltiplas razões económicas e laborais, muitos de nós estamos imersos num processo de mimese com Ivan Ilyich, personagem criado pelo escritor russo Lev Nikoláievich Tolstói, que chegou à conclusão que não adoeceu organicamente, mas psiquicamente. Estamos a caminho disso.

Profundamente angustiados e entristecidos pela inexistência absoluta (será perpétua?) de um futuro certo, sólido e motivador. A nossa angústia cresce ao ver inalterável e inalterado o processo que a nossa sociedade atravessa transversal e interseccionalmente: a nossa saúde mental deteriora-se aceleradamente. Precisamos de ajuda. Não se trata de adicionar o prefixo “sobre-" à nossa existência (viver). Antecipando que os nossos governantes não pensarão em criar um sistema robusto, público, universal e gratuito de psicologia e psiquiatria em cada um dos (cada vez menos) centros de saúde espalhado por todo o país, pelo menos que um DJ nos salve a vida.