Vanessa escreveu uma canção de intervenção para o Dia da Mãe

“Porque é que um pai e uma mãe trabalham e contribuem de igual forma no plano laboral, mas em contexto familiar e doméstico são as mulheres que se ocupam maioritariamente das tarefas?”. Esta foi uma das questões que levou Vanessa a o tema Mãe (elegia).

Vanessa Pinheiro Borges escreveu o tema “Mãe (elegia)” para integrar um disco direccionado a crianças para as levar a questionar questões políticas, nomeadamente desigualdade entre homens e mulheres. A professora de música de 33 anos é mãe de três filhos (de 7,4 e 1 ano) e compôs o tema a pensar noutras mães como ela.

Um poema “terno e triste”, como descreve Vanessa, mas também uma espécie de canção de intervenção, explicou ao PÚBLICO: “Porque é que um pai e uma mãe trabalham e contribuem de igual forma no plano laboral, mas em contexto familiar e doméstico são as mulheres que se ocupam maioritariamente das tarefas? Não só da sua execução prática, mas da planificação e antecipação necessária para a organização básica de uma família”. 

Na canção, Vanessa canta como pai e mãe trabalham a tempo inteiro mas “quem faz o jantar é ela, quem lava a loiça também, quem arruma a cozinha, é sempre a minha mãe”. Um poema cantado do ponto de vista dos filhos, que vêem como é “a mãe que ajuda com os trabalhos da escola” ou “quem “lembra das consultas do doutor”. No fundo, “é a minha mãe que faz, que faz”. 

Segundo o Inquérito à Fecundidade do INE, de 2019, quase 80% das mulheres cuidam e lavam da roupa e aproximadamente 60% limpam a casa e cuidam das refeições. Entre metade e dois terços das mães ocupam-se de vestir ou deitar as crianças, cuidar delas quando estão doentes, levá-las ao médico, ajudar com os trabalhos da escola.

A ajuda do pai não é ignorada na canção que Vanessa dedica às mães, mas a igualdade ainda está longe de ser alcançada, considera. “São precisos mais dias de licença para os pais homens, para se dedicarem e conhecerem os filhos acabados de nascer”, afirma.

“E é ainda importante que as leis sejam rigorosas, pois continuam a existir mulheres que perdem o seu trabalho por engravidarem, pais e mães discriminados por se ocuparem dos filhos nos termos previstos da lei, e de uma forma geral é necessária mais protecção às famílias”, defende. 

Na canção que partilhou no dia da Mãe, Vanessa relata como as mães também silenciam muitas das dificuldades que sentem. “É a minha mãe que fala, é a minha mãe que teme, é a minha mãe que cala”, ouve-se na canção. “As mães calam dores, injustiças, incertezas”, explica ao PÚBLICO. “Uma grande parte das que se tornam mães questionam-se “porque é que eu não sabia disto?”, seja isto as dores do parto ou as dores de pensar no futuro do filho adulto”, conta. “A maternidade continua a ser vivida à margem, em nicho. Ao mesmo tempo calam porque os companheiros não partilham a mesma responsabilidade dentro de casa. Há injustiças que perduram durante gerações e se mantém até hoje, e que provavelmente continuarão porque as crianças de hoje assim observam a realidade.”