Entrevista

Ao assumirem as tarefas domésticas, as mulheres "estão, no fundo, a estragar a vida delas, a do casal e a dos filhos”

Laura Sagnier, coordenadora de um estudo sobre as mulheres portuguesas, defende que a primeira coisa a fazer, para que as mulheres andem menos cansadas, é “mudar a formatação da sua cabeça”. Porque, ao quererem fazer tudo, acabam por prejudicar a saúde, a vida conjugal e a dos filhos.

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Laura Sagnier ficou surpreendida com os resultados Daniel Rocha

As mulheres que vivem em Portugal são mais orientadas para a maternidade do que as espanholas, talvez devido à “maior proximidade com a Igreja Católica”. E, na comparação entre os casais dos dois lados da fronteira, Laura Sagnier, a catalã que coordenou o estudo As mulheres em Portugal, hoje: quem são, o que pensam e como se sentem, encontrou do lado de cá um desequilíbrio muito maior na divisão das tarefas familiares, a desfavor das mulheres. “Eu pensava que não havia nenhum país que estivesse mais desequilibrado nisto do que Espanha!”, surpreendeu-se a especialista em market intelligence que já decidira lançar-se num estudo similar em Espanha quando se viu obrigada a tirar dois anos de licença sabática por sofrer de stress laboral. “Tenho duas filhas, que agora são adolescentes, e achei que um estudo destes poderia ajudá-las a decidir melhor nas questões mais relevantes das suas vidas”, recorda. Conselho às mulheres em Portugal: deixem de querer fazer tudo, porque “crendo que estão a fazer as coisas bem, estão, no fundo, a estragar a vida delas e a vida do casal e a dos filhos”.

Que diferenças há nos dois estudos que coordenou entre as mulheres portuguesas e as espanholas?
No geral, são muito parecidas. Mas há uma diferença importante. Em Portugal as que são católicas, sejam ou não praticantes, é 74%. E em Espanha são 55%. E isto, na minha interpretação que não é sociológica, afecta muito a relação das mulheres com a maternidade.

Há diferenças na forma como umas e outras se posicionam perante a maternidade?
Classificámos as mulheres quanto à forma como elas se posicionam em relação à maternidade e, em Portugal, onde 53% das mulheres que foram objecto deste estudo são mães, chegámos a três tipos: as “mães realizadas”, que são aquelas que voltariam a ter filhos e que estão muito felizes de terem sido mães e que são 82% das mulheres; as mães “não realizadas”, que são aquelas que voltariam a ter filhos, apesar de não se sentirem muito felizes com o facto de serem mães, e que são 13%. E depois temos as 5% de “mães arrependidas”. Em Espanha, as mães arrependidas são quase o dobro, são 9%. Em Portugal, se somarmos as “não realizadas” às “arrependidas”, temos 18%. E estes 18% em Espanha são 27%, porque as “arrependidas” são 9% e as “não realizadas” são 18%.

O que explica essa diferença?
Na minha opinião, a religião pesa aqui muito. Quando se liga isto à religião, vê-se muito claramente que, entre as agnósticas e as ateias em Portugal, as que se definem como “pouco orientadas para a maternidade” disparam em relação às que se dizem católicas. E esta análise ajuda a entender o porquê de a maternidade numa sociedade como a espanhola ser menos presente.

O que terá pesado mais no arrependimento das que, se pudessem, não teriam tido filhos?
Ninguém fala deste arrependimento, creio que por causa daquilo que te vendem sobre a maternidade e que é sempre muito cor-de-rosa. Só se fala das coisas boas e a maternidade tem períodos muito complicados, sobretudo para as mulheres que valorizam a vida delas e não só como mães. Mas o estudo mostra que é entre as “pouco orientadas para a maternidade” que dispara o número das arrependidas e não realizadas.

Esse arrependimento tem que ver com essa “falta de orientação” mais do que com a falta de apoio ou condições para educar e criar a criança?
Há um nível que tem que ver com a personalidade de cada mulher, com o quão maternal ela é. E há toda uma cultura, em Espanha e em Portugal, que leva as mulheres a sentirem que, se não são mães, é quase como se fossem más pessoas, porque ser mãe é o que corresponde ao género feminino. E, num segundo nível, o arrependimento de ter sido mãe tem a ver com a experiência que cada uma teve e, aí sim, intervém se o pai da criatura continua a ser o seu parceiro ou se ela faz parte de uma família recomposta ou monoparental. Portanto, diria que contará por igual o quanto a mulher é próxima das crianças e quanta sorte ou desgraça teve com o pai dos seus filhos.

Mas o estudo diz também que as mulheres que somam o trabalho pago aos filhos e à vida com um parceiro acabam por trabalhar mais 24 minutos diários do que as mulheres que só conciliam o seu trabalho pago com os seus filhos.
Em Espanha há muito desequilíbrio entre a mulher e homem. Mas em Portugal há ainda mais. A mulher portuguesa está a assumir que o seu companheiro de vida não comparticipa das tarefas com os filhos e com a casa muito mais do que as mulheres espanholas. Não se entende. Eu achava que não havia nenhum país que estivesse mais desequilibrado do que Espanha!

O estudo conclui que vai levar cinco ou seis gerações a mudar este desequilíbrio.
Sim, mas isso se não se fizer nada. Espero que, com estes dados, as mulheres não se permitam estar tão cansadas e que assumam que metade do trabalho que fazem podia ser feito pela pessoa que vive com elas. Se as mulheres conseguirem que o trabalho se equilibre entre os dois, ganham uma hora ou duas por dia. E isto reverte na felicidade do casal e em benefício dos filhos.

As mulheres portuguesas parecem em larga percentagem muito cansadas e desenganadas com a sua relação conjugal.
Sim, mas estão mais desiludidas com o trabalho remunerado do que com o seu parceiro. A mulher não se sente infeliz com o seu parceiro, em geral.

Porque assumiu que o seu papel é esse?
Exacto. Ela viu a mãe fazer o mesmo e está convencida de que o seu papel é assumir essa parte do trabalho. No quadro que hierarquiza as questões com que as mulheres se sentem mais ou menos felizes, o parceiro aparece na posição dos ganhadores, enquanto o trabalho pago aparece na liga dos perdedores. Em Espanha o trabalho pago não está tão em baixo. 

Que explicações encontra?
A relação da mulher com o mercado laboral é muito diferente em Espanha e em Portugal, desde logo porque em Portugal há muitas mais mulheres activas no mercado de trabalho: são 71% enquanto em Espanha são 56%. E depois os salários são muito diferentes.

As mulheres ganham menos do que os homens.
Em Espanha também ganham menos, mas em Portugal ainda mais, e, sendo os salários portugueses tão baixos, estas mulheres em Portugal têm mais dificuldades para chegar ao final do mês do que as que vivem em Espanha. É compreensível que culpem o trabalho, mas, porque estão tão cansadas, sentem que é mais fácil culpabilizar o trabalho do que o companheiro.

O que há a mudar para que as mulheres possam respirar?
A primeira coisa que temos que mudar é a formatação da cabeça da mulher. Temos que assumir que não tem sentido nenhum e que não é bom para ninguém que as mulheres façam as tarefas domésticas todas, porque isso implica que estejam muito cansadas e que tenham índices de toma de medicamentos muito elevados. As mulheres acham que fazem isto para os filhos e para os parceiros e o que acontece é que perdem a saúde e os filhos acabam por ser menos bem-educados, com muitas separações pelo meio. As mulheres, crendo que estão a fazer as coisas bem, estão no fundo, a estragar a vida delas, a do casal e a dos filhos. 

Estes resultados são extrapoláveis para a população feminina portuguesa? Só inquiriram utilizadoras regulares de Internet, o que deixa 19% das mulheres entre os 18 e os 64 anos de fora.
Não podemos falar nada sobre as mulheres que não são usuárias da Internet. Este estudo fala das perto de 2,7 milhões de portuguesas, entre os 18 e os 64 anos, que são utilizadoras regulares da Internet. E, dentro destas, não há nenhum enviesamento. Ficaram de fora 19%, que são aproximadamente 600 mil mulheres. Só que, como o objectivo deste estudo é ajudar as novas gerações, e as novas gerações utilizam todas a Internet, pareceu-nos que tinha mais sentido aproveitar a vantagem que a Internet nos dá, a maior liberdade das inquiridas para serem sinceras porque ninguém estava a julgar o que elas diziam.

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