Soldados que assinaram carta a alertar para “guerra civil” em França enfrentam tribunal militar

Entre os militares no activo, que serão uma pequena minoria dos signatários, há pelo menos quatro oficiais. Texto desencadeou guerra de palavras entre o Governo e Marine Le Pen.

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Marine Le Pen disse partilhar a análise e as preocupações dos signatários IAN LANGSDON/EPA

Pelo menos 18 militares no activo que assinaram uma carta aberta a avisar os dirigentes políticos para os riscos de uma “guerra civil” em França, afirmando-se “prontos a apoiar políticas que levem em conta a salvaguarda da nação” contra “o islamismo e as hordas dos subúrbios”, vão enfrentar sanções militares. Segundo o seu autor e promotor, Jean-Pierre Fabre-Bernadac, capitão retirado desde 1989, o texto, inicialmente publicado a 21 de Abril na revista de direita Valeurs Actuelles, continua a reunir apoios e conta já com dez mil signatários.

O chefe do Estado-maior das Forças Armadas, general François Lecointre, diz que cada um dos militares no activo terá de responder perante um conselho militar e poderá ser afastado ou “colocado em reforma imediata”. Hervé Grandjen, porta-voz do Ministério da Defesa, disse na quinta-feira que ao “criticarem abertamente o Governo ou apelarem aos camaradas para pegarem em armas em território nacional”, aqueles que assinam a carta violaram claramente as regras militares.

Na missiva, que dirigem ao Presidente, Emmanuel Macron, aos membros do seu Governo e aos deputados do país, os militares avisam que o laxismo das políticas oficiais acabará por provocar “uma explosão”, forçando os “companheiros no activo” a “uma perigosa missão para proteger os nossos valores civilizacionais e salvaguardar os nossos compatriotas no território nacional”.

A publicação do texto provocou naturalmente uma forte condenação por parte de muitos dirigentes de esquerda e do Governo de Macron, reacção exacerbada pelo apoio de Marine Le Pen aos militares.

A líder da extrema-direita e candidata às presidenciais de 2022 escreveu uma resposta aos soldados na mesma revista, pedindo-lhes que se juntem à sua “batalha por França”. Segundo uma análise do jornal Le Monde aos dados de eleições em pequenas cidades com uma grande comunidade militar, cerca de quatro militares em cada dez votam na extrema-direita (quase mais dois do que a média nacional).

Segundo se sabe, só 18 dos signatários, incluindo quatro oficiais, estão no activo, mas apenas 1500 nomes dos 10 mil apoiantes reclamados por Fabre-Bernadac são públicos.

Sendo provável que o número de signatários continue a crescer, a imprensa francesa antecipa já que os processos disciplinares vão ser longos e podem até prolongar-se até à campanha para as eleições que vão opor Le Pen a Macron – a primeira volta terá lugar em Abril.

Entretanto, uma sondagem realizada pela empresa Harris Interactive para o canal de informação LCI, e publicada na quinta-feira, conclui que 58% dos franceses concordam com o conteúdo da carta.

Vários ministros do Governo tentaram usar o caso para atacar Le Pen, que passou os últimos anos a aligeirar algumas das posições da Frente Nacional, conseguindo alargar a base de apoio do partido. Agora, dizem, deixou claro que é uma figura tão perigosa e divisiva como o pai, Jean-Marie Le Pen. “A senhora Le Pen manteve o gosto do seu pai pelo som das botas a marchar”, afirmou o ministro do Interior, Gérald Darmanin.