O que sobra é o vazio

Quando o cérebro morre, o que sobra é o vazio. O João não aceitou. E, quando eu estendi a mão para lhe tocar, ele deu-me uma palmada e saiu a correr.

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"Quem trabalha na área sabe quão difícil é explicar às famílias que a morte cerebral é sinónimo de morte" Daniel Rocha

Estava no supermercado, a meio da corriqueira tarefa de escolher os iogurtes, quando senti que alguém me observava. E, quando olhei para trás, vi um adolescente de cabelo louro e enormes olhos castanhos, com metade da cara coberta por uma máscara preta com pequenas caveiras brancas. Confesso que não o reconheci de imediato, mas assim que ele perguntou “É a enfermeira Carmen, não é?”, o nó na minha cabeça desfez-se.

“Olá, João”, respondi. E então ele começou a falar muito depressa. Pedia desculpa, dizia que tinha lido muito sobre o assunto no último ano e que finalmente tinha percebido, que já não culpava ninguém, que tinha visto um documentário e que agora até se sentia feliz por saber que os órgãos da mãe tinham permitido que duas vidas fossem salvas. Mas mais importante do que tudo isso, ele dizia, finalmente, que já não duvidava de que a mãe estivesse realmente morta quando seguiu para o Bloco Operatório para colheita de órgãos.

Tive vontade de dar um abraço ao miúdo, sabem? Um daqueles abraços que são colo e esmagam ossos, mas a covid, actualmente, não permite esse tipo de demonstração de afecto. Então disse-lhe só que ficava feliz e aliviada e que pensara muito nele durante longos meses. Não menti. Deus sabe a quantidade de vezes que pensei no que seria feito deste miúdo, que, na tarde em que soube que a mãe estava em morte cerebral, fugiu desesperado e esteve mais de 12 horas sem dar notícias a um pai que vivia em simultâneo a angústia da morte da mulher e o desespero da dor do filho mais novo.

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"Quando o cérebro morre, a pessoa morre também. Não existem memórias, afectos, sentimentos ou emoções e, mais do que isso, não existe sequer capacidade de respirar, falar, engolir, ver, ouvir ou sentir" VAN WEDEEN/HARVARD MEDICAL SCHOOL

A história da mãe do João é uma daquelas histórias que ninguém gosta de contar. Uma mulher jovem, saudável, que passou pelo quarto dos filhos às 23h, no caminho para a casa de banho, e os mandou apagar as luzes e sossegar. Mas os filhos nem por isso sossegaram e, quase uma hora depois de a mãe ter passado, estranharam a demora. Quando bateram à porta da casa de banho e não obtiveram resposta, decidiram entrar. E encontraram a mãe caída no chão, gelada, em paragem cardiorrespiratória.

Não se sabe ao certo quanto tempo a senhora esteve em paragem. O que se sabe é que foi tempo suficiente para existir perda de função do cérebro e do tronco encefálico. E mesmo que a equipa médica de emergência tenha conseguido, com recurso a drogas e a ventilação invasiva, que o coração e os pulmões voltassem a funcionar, o tempo que o cérebro esteve sem oxigenação tornou as suas lesões irreversíveis.

Quem trabalha na área sabe quão difícil é explicar às famílias que a morte cerebral é sinónimo de morte e que não importa que, no monitor à cabeceira, a frequência cardíaca e a saturação periférica de oxigénio se mantenham estáveis, porque, na verdade, o seu ente querido já não está ali. Só quem já fez este caminho sabe como é difícil explicar a alguém que a mão quente do seu familiar não significa nada, porque aquele corpo já é só uma casa vazia mantida artificialmente por um período limitado.

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"O tempo que o cérebro da mãe de João esteve sem oxigenação tornou as suas lesões irreversíveis" Paulo Pimenta

Quando contámos ao João que a mãe já tinha partido, ele não chorou. Mas olhou para nós com ódio e gritou que éramos uns mentirosos, que sentia o coração da mãe bater e que era melhor não nos atrevermos a tentar sequer desligar “as máquinas que a mantinham presa à vida”. E eu tentei rebater, tentei explicar que não havia nenhuma vida a que pudéssemos prender a mãe, porque tudo aquilo que fazia dela a mãe do João já não existia. Quando o cérebro morre, a pessoa morre também. Não existem memórias, afectos, sentimentos ou emoções e, mais do que isso, não existe sequer capacidade de respirar, falar, engolir, ver, ouvir ou sentir. Quando o cérebro morre, o que sobra é o vazio. O João não aceitou. E, quando eu estendi a mão para lhe tocar, ele deu-me uma palmada e saiu a correr.

Nessa tarde pedimos apoio a uma psicóloga que esperou pelo João no dia seguinte — mas nunca ficou mais fácil. E, quando explicámos que por lei, depois dos testes de confirmação da morte cerebral, teríamos obrigatoriamente de desligar “as máquinas” ou enviar o corpo para o Bloco Operatório para recolha de órgãos, começou todo um outro patamar de terror. Vou lembrar-me sempre dos gritos do João, do pânico na voz dele, do “Eu estou-me a cagar que possam salvar outras vidas, porque na minha mãe ninguém toca”.

Meses mais tarde os gritos do João vieram na forma das lágrimas da mãe da Catarina que no meio de soluços desesperados dizia que desde antes de Cristo que se sabia que a definição de morte é a ausência de respiração e que, por isso, a filha estava viva e ai de nós que lhe tocássemos.

É duro isto, sabem? É duro ver as famílias passarem por este processo, sendo que muitas delas não conhecem sequer a legislação portuguesa que indica que, a não ser que nos tenhamos inscrito no Registo Nacional de Não Dadores (RENNDA), todos somos possíveis dadores em caso de morte cerebral, assim haja alguém compatível a precisar de um dos nossos órgãos. É duro explicar às famílias um conceito que é tão difícil de entender. É duro cuidar horas ou dias de um corpo onde já não existe vida. É duro ver lágrimas e desespero e não termos nada de palpável para oferecer. E a única coisa que alivia o peso é sabermos que graças àquela pessoa que partiu outras pessoas vão poder viver.

No ano 6 a.C., Galeno associou o coração à alma e, desde essa altura, que a morte é associada à ausência de batimentos cardíacos. Durante muitos séculos a questão da morte cerebral nem sequer se colocou, porque, na verdade, um cérebro morto em pouco tempo provocava perda irreversível da capacidade respiratória e, inevitavelmente, o coração deixava também de bater. Só com o avanço da medicina intensiva foi possível que doentes com quadros de “catástrofes neurológicas” sobrevivessem por algum tempo através de meios artificiais de suporte de vida (como os ventiladores invasivos e alguns fármacos). É por isso que este conceito, apesar de já ter mais de meio século, continua a ser ainda uma espécie de novidade para muita gente.

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Galeno, ao centro, num fresco de Veloso Salgado (1864-1945), na Sala dos Actos da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa RickMorais/Wikimedia Commons

E o que nós explicamos aos Joões, mesmo que eles não queiram ouvir, ou às mães das Catarinas, ainda que elas vão negando com a cabeça, é que a morte cerebral não se declara de ânimo leve. As provas de morte cerebral obedecem a protocolos muito rigorosos, que exigem vários testes repetidos em diferentes momentos. São feitos exames muito específicos, exige-se uma causa determinada e a certeza de que não há mais nada que possa ser feito. E não, não existe uma cura — porque a morte cerebral não é o diagnóstico de uma doença, mas uma declaração de óbito.

No segundo em que reconheci o João no supermercado, na fila fria dos iogurtes, senti algum receio. Mas o João que me encontrou estava em paz. Tão em paz como pode estar um filho que perde uma mãe em circunstâncias tão inesperadas. Nos olhos do João já não vi nenhuma revolta ou ódio. E num mundo sem covid eu teria abraçado o João, mesmo com os iogurtes nas mãos em equilíbrio precário. Assim, tentei sorrir-lhe com os olhos e dizer-lhe que a mãe, esteja lá onde estiver, há-de estar profundamente orgulhosa. Disso tenho eu a certeza.