Mulher de dias

Há dias em que tenho vontade de dançar, de receber amigos, de fazer festas, rir alto e brindar. Sou festeira. E há dias em que me encolho em mim, em que sofro de pensar na hipótese de encontrar alguém na rua, em que me resguardo. Sou solitária.

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"Há dias em que me estranho, finjo, esquivo. Sou outra. Há dias em que me encontro, amo, vivo, sinto. Sou eu" Jeremy Bishop/Unsplash

Há dias em que me sinto uma mãe responsável e equilibrada. Dias em que a rotina matinal é uma dança que flui, a mochila compõe-se, os pequenos-almoços não deixam vestígios, tudo encaixa, bebo o café enquanto pego numa filha e rumamos ao carro, de onde seguimos, cantando, a caminho da escola. Dias em que tudo está no seu lugar e em que me sinto capaz de liderar a minha própria família Von Trapp. A vida tem um sentido. Sou produtiva. Mas há dias em que as minhas filhas berram sem parar, uma entorna o sumo no cabelo da outra, há copos a partir-se, cães a derrubar o caixote do lixo, uma orquestra de panelas, choros, ladrares. Dias em que a máquina do café encrava e na chávena cai apenas um borrão negro e dou por mim a contemplá-lo tempo de mais, com os gritos abafados de fundo, ainda com os olhos entreabertos de sono e a mergulhar na aleatoriedade da existência, antes mesmo de ter mergulhado no chuveiro. Aquele borrão negro transporta-me para os buracos negros, para o facto de eu perceber tão pouco de buracos negros, deveria perceber mais disso, mas, penso, quem percebe também não traz boas notícias. O vazio, o vácuo, a vastidão do universo, o nosso tamanho, a nossa inutilidade, a nossa fragilidade, a descabida relevância do café para o desempenho do meu dia. A vida não tem sentido. Sou inútil.

Há dias em que decido que cuidar de mim é beber os dois litros de água, fazer a aula de ioga, comer só vegetariano, dias em que até a água morna com limão desce em jejum. Sou saudável. Mas há dias em que decido que cuidar de mim é comer uma Cerelac à meia-noite, seguida de um Toblerone dos grandes, porque preciso com urgência daquele sabor da infância para consolar uma qualquer ânsia nocturna, dias em que nada me demove desse impulso e em que a voz que pede a Cerelac sai impreterivelmente vitoriosa. Sou gulosa.

Há dias em que levo o Dostoievsky ao dentista, vejo filmes independentes búlgaros, faço tours virtuais em museus e decido que vou fazer tertúlias culturais com amigos. Sou culta. Mas há dias em que urge a vontade de publicar uma fotografia de biquíni no Instagram, em que vejo um episódio de Friends pela centésima vez, em que espreito perfis de subcelebridades nas redes sociais, em que acumulo vestidos e macacões em cestos de compras online, em que só me apetece fofocar com amigas. Sou fútil.

Há dias em que quero criar as minhas filhas com a independência fundamental para transmitir segurança, cada uma na sua cama, dormindo, pacíficas, fintando as insistências para dormirem comigo. Sou firme. Mas há outros em que dizer “não” me parece impossível, vai uma para cada lado da minha cama e passo a noite a levar com pés na cara. Sou permissiva.

Há dias em que só quero que ninguém me chateie e em que o verbo chatear abrange a mínima chamada telefónica. Ao ver o telemóvel a tocar (porque eu não ouço o som do telefone há anos, de tal forma uma chamada é o cúmulo da intrusão dos meus silêncios) sem aviso, sinto-me invadida, pergunto-me quem tem o desplante de me ligar e viro-o para baixo, para não lidar com aquele transtorno. Sou irascível. Mas há dias em que pego no telemóvel e ligo eu aos meus amigos e familiares, para ouvir com atenção todos os seus dramas e dar conselhos personalizados a resvalar para a análise psicanalítica. Em que atendo as chamadas com genuína felicidade e deixo o interlocutor discorrer sobre qualquer assunto. Sou disponível.

Há dias em que o cabelo brilha e desliza sobre os ombros, em que tenho as mãos arranjadas, em que as roupas assentam bem, em que ponho um vestido colorido e passo rímel nas pestanas. Sou vaidosa. E há dias em que não largo o fato de treino, com a parte de cima e a parte de baixo desfasadas, em que as unhas estão irregulares, com restos de verniz às pintas e em que uso o cabelo mal apanhado com penachos espetados. Sou desleixada.

Há dias em que adormeço a ver fotografias das minhas filhas, em que as embalo, dou beijinhos na testa depois de terem adormecido, vou ver se está tudo bem, ponho mais uma mantinha. Dias em que prefiro dar colo e ser tecto. Sou mãe. E há dias em que gostava de ter alguém a pôr-me uma mantinha, de receber o beijinho na testa, de sentir alguém a ver se adormeci, de pedir um leite com chocolate quente. Dias em que prefiro receber colo e tecto. Sou filha.

Há dias em que me insurjo. Dias em que vejo documentários, em que assino petições, em que partilho opiniões e entro em discussões, em que quero ir para a rua manifestar-me. Sou activista. E há dias em que me farto de tudo isso, em que passo depressa as notícias, em que salto os posts, em que quero silenciar o mundo. Sou desinteressada.

Há dias em que me sinto capaz de conquistar os sonhos, em que gosto de me ver ao espelho, em que ninguém me abala, em que estou motivada e não paira uma dúvida acerca das minhas capacidades. Sou confiante. Mas há dias em que não sei se tenho valor, em que busco validações, em que preciso que me digam que gostam de mim. Sou insegura.

Há dias em que tenho vontade de dançar, de receber amigos, de fazer festas, rir alto e brindar. Sou festeira. E há dias em que me encolho em mim, em que sofro de pensar na hipótese de encontrar alguém na rua, em que me resguardo. Sou solitária.

Há dias em que me sinto capaz de passar sem vacilar pelo cão da nossa rua que ladra para as minhas filhas, em que sei que sou capaz de protegê-las, que afronto quem me ameaçar, que me lembro que já viajei sozinha pelo mundo e que me atiro de cabeça para o que for sem pensar duas vezes, se houver hipótese de felicidade. Sou corajosa. E há dias em que penso em tragédias à noite, em que imagino esconderijos, em que projecto fugas para cenários hipotéticos. Sou medrosa.

Há dias em que estou na fila do banco de manhã com camisa justa e blazer. Tenho contas a pagar, tenho afazeres e compromissos. Sou adulta. E há dias em que não resisto a pôr-me em cima do skate, em dar toques na bola, em beber Um Bongo. Sou criança.

Há dias em que me estranho, finjo, esquivo. Sou outra. Há dias em que me encontro, amo, vivo, sinto. Sou eu.