Uma Líbia cheia de armas tenta carregar o futuro, dez anos depois da intervenção da NATO

O Governo de unidade nacional tomou posse esta semana a tempo do aniversário que esta sexta-feira se assinala, mas está longe de ser uma garantia de estabilidade num país disputado por muitos e de paz fortemente armada.

Forças leais ao governo de Trípoli
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Forças leais ao governo de Trípoli AYMAN AL-SAHILI/Reuters
Forças do Exército Nacional Líbio, do marechal Khalifa Haftar
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Forças do Exército Nacional Líbio, do marechal Khalifa Haftar Esam Al-Fetori/Reuters
O primeiro-ministro, Abdul Hamid Dbeibé, o ex-primeiro-ministro, Fayez al-Sarraj, e o presidente do Conselho Presidencial, Mohamed Menfi
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O primeiro-ministro, Abdul Hamid Dbeibé, o ex-primeiro-ministro, Fayez al-Sarraj, e o presidente do Conselho Presidencial, Mohamed Menfi Reuters/HANDOUT

Foram precisos dez anos para o caos instalado depois da intervenção da NATO que viria a acabar com regime de Muammar Kadhafi redundar num Governo interino de unidade nacional que preparará o caminho para as eleições marcadas para 24 de Dezembro. Nem o Presidente do Conselho Nacional, Mohamed Menfi, ex-embaixador na Grécia, nem o primeiro-ministro, o empresário e activista de Misrata Abdul Hamid Dbeibé, serão candidatos.

Na segunda-feira, a dias de passar no calendário uma década da intervenção militar que se seguiu à revolução de Fevereiro, Fayez al-Serraj, o até agora primeiro-ministro do governo reconhecido internacionalmente, mas que pouco tinha conseguido além de mandar numa parte do território e que só sobreviveu aos avanços do marechal Khalifa Haftar (o homem forte do Leste do país) sobre Trípoli devido à grande ajuda militar turca, deixou a mensagem: “Estou hoje aqui para consolidar os princípios da democracia”.

Mas é questão para perguntar: que democracia existe para consolidar na Líbia se não foi ainda implementada? E quantas outras coisas mais têm de ser consolidadas num país que só conhece desagregação e caos desde a queda do regime de Kadhafi? E que custo terá a recuperação do país? Com certeza empalidecerá a expressão do então Presidente dos Estados Unidos Barack Obama, quando se referiu ao preço tão baixo que havia custado derrubar um ditador que estava há 40 anos no poder: menos de duas semanas de intervenção militar no Iraque.

Além de que democracia falamos, quando o palco líbio se foi ocupando ao longo destes anos de guerra civil alimentada por potências estrangeiras que trocaram o seu apoio por mais ou menos influência, mais ou menos acesso ao petróleo...

Guerra de procuração

Como escreve a Foreign Policy, a Turquia, aliada da NATO, com o Egipto e o Qatar disputaram uma guerra por procuração contra a Rússia e Emirados Árabes Unidos, num cenário de guerra cheio de equipamento militar sofisticado e mais de 20 mil combatentes estrangeiros, mercenários e empresas de segurança privadas. Os mercenários e os combatentes líbios mantêm as armas e controlam áreas do território e instituições.

O Grupo Wagner, braço mercenário do Governo russo, por exemplo, não tem intenção por agora de retirar os seus dois mil homens do Leste e do Sul do país, onde continuam a usar os caças cedidos pela Rússia. A importância geopolítica, a proximidade de bases da NATO e a sua riqueza em petróleo, que levou também a França e a Itália a envolverem-se no conflito, tornam a Líbia demasiado apetecível para abrir mão de interesses conquistados.

“Falando em termos geoestratégicos, penso que a Líbia é um interesse vital de segurança nacional para os Estados Unidos”, dizia à Foreign Policy Stephanie Williams, antiga especialista no Norte de África do Departamento de Estado norte-americano.

Ainda no ano passado, de acordo com uma investigação das Nações Unidas citada pela Reuters, a Blackwater, empresa privada de segurança norte-americana fundada por Eric Prince, irmão da secretária de Educação de Donald Trump, Betsy DeVos, violou o embargo à venda de armas à Líbia e tentou ajudar o marechal Haftar a derrubar o governo de Serraj. A própria Casa Branca tomou a iniciativa em 2019 de se envolver no conflito, abrindo uma via de diálogo com Haftar, antes de Trump recuar nas suas intenções, segundo a CNN.

O relatório secreto da ONU, entregue no final de Fevereiro ao Conselho de Segurança, refere que Prince, um antigo membro das forças especiais da Marinha dos EUA, ofereceu armas e equipamento militar a Haftar, numa reunião no Cairo dez dias depois de o marechal iniciar a sua ofensiva contra Trípoli a 4 de Abril. E pergunta-se se Prince teria beneficiado da sua proximidade a Trump para conseguir um negócio no valor de 80 milhões de dólares.

A operação, denominada Project Opus, incluía ainda o sequestro e morte de importantes líderes líbios, incluindo o comandante Abdul Rauf Kara, e dois outros comandantes com passaporte irlandês. Kara é o líder da Força Especial de Dissuasão, uma unidade de operações especiais radical islâmica da polícia que opera sob o comando do Ministério do Interior do Governo reconhecido internacionalmente.

É provável que a ONU envie capacetes azuis para a zona entre Sirte e Jufra de modo a garantir a manutenção do cessar-fogo declarado em Outubro entre as forças do Governo e o Exército Nacional da Líbia (que não é um exército, nem é nacional, mas a milícia de Haftar). Porém, este executivo interino destinado a preparar as eleições sofre das mesmas fragilidades que a paz alcançada, com o Conselho Presidencial que, além do Presidente e do primeiro-ministro, tem representadas as três regiões em que se divide actualmente o país: com Musa al-Koni e Abdullah Hussein como representantes de duas delas e Menfi acumulando a presidência com a outra representação.

“O maior problema da Líbia neste momento: tentar conter os actores regionais, muitos dos quais têm visões diferentes em relação à Líbia”, explicou à Deutsche Welle, chefe da delegação em Roma do Conselho Europeu de Relações Exteriores que há quase 20 anos se dedica a estudar o país do Norte de África. “Infelizmente, temo que é improvável que partam depois de um simples telefonema da ONU ou por causa do governo de unidade nacional”.