A nova travessia do metro sobre o Douro respeitará a vista da ponte da Arrábida

O concurso público internacional foi lançado esta terça-feira. A nova ponte vai permitir criar uma nova linha de metro, que liga Campo Alegre ao Arrábida Shopping. Também vai nascer a linha Rosa e a Amarela vai ser prolongada.

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Nelson Garrido/Público

O concurso público para a construção de uma nova ponte sobre o rio Douro, que vai permitir concretizar a segunda linha de metro de Vila Nova de Gaia e ligar Campo Alegre ao Arrábida Shopping, foi lançado esta terça-feira, nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto. É uma das primeiras grandes obras ao abrigo da “bazuca europeia”, a qual irá financiar projectos que têm de ser postos a andar o mais depressa possível, admite o Governo.

Assim, nesta obra está previsto serem gastos 50 milhões de euros, financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Segundo anunciou o ministro do Ambiente e Acção Climática, João Pedro Matos Fernandes, a ponte não terá pilares no rio, a sua cota será mais alta que a ponte da Arrábida, de forma a não perturbar a vista da mesma sobre o Douro, e será exclusiva para peões, bicicletas e metro.

João Pedro Matos Fernandes admite que existe “pressa” na construção desta ponte e de todas as obras do PRR, até porque a “bazuca europeia” tem um curtíssimo espaço de execução. “Em 2023, têm de estar feitos todos os compromissos. Em 2026, todos os cêntimos têm de ser gastos”, relembra o primeiro-ministro.

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No entanto, o ministro do Ambiente afirma que edificar uma nova ponte entre duas fragas do rio Douro é um “projecto que exige muito cuidado”, onde a “componente estético-estrutural é superlativa”. Daí ter-se lançado um concurso de ideias à escala mundial, onde o ministro espera “atrair os melhores projectistas de pontes do mundo”, durante os próximos quatro meses. Prevê-se que a obra esteja concluída em 2026 e ajude a descongestionar o trânsito na ponte da Arrábida e a promover a intermodalidade, com a abertura de uma nova linha de metro que passa pela estação de Devesas.

O júri que vai avaliar as propostas submetidas é composto por Inês Lobo, Alexandre Alves Costa, Amândio Dias, Rui Calçada, Júlio Appleton, Eduardo Souto de Moura, Serafim Silva Martins, Vítor Silva, Joana Barros, Miguel Castro e Lúcia Lourenço.

Uma nova linha e outra aumentada

No evento, também foram consignadas as empreitadas da construção da Linha Rosa do Metro do Porto e o prolongamento da Linha Amarela, que tiveram “luz verde” do Tribunal de Contas no início do ano. De acordo com Tiago Braga, presidente do Conselho Administrativo da Metro do Porto, estes dois empreendimentos vão acrescentar seis quilómetros e sete estações à rede, num investimento global de 407 milhões de euros, que vai trazer mais 11 milhões de clientes anuais à Metro do Porto. Em 2019, o último ano que decorreu sem os sobressaltos causados pela pandemia, a rede serviu mais de 71 milhões de utilizadores. 

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As duas linhas vão ainda evitar a emissão de 4 mil toneladas anuais de CO2 para a atmosfera e permitir a retirada de circulação de 21 mil veículos particulares e de cerca de mil veículos pesados por dia. As obras começam desde já e podem ser acompanhadas através de um “microsite”, como o apelida Tiago Braga.

Já Rui Moreira aproveitou a ocasião para responder às críticas em torno da construção destas linhas, que gerou uma petição contra a destruição do jardim de Sophia, na Praça da Galiza, e o abate de mais de 500 sobreiros. Para o presidente da Câmara do Porto, os sacrifícios que vão ser feitos são justificados pelas necessidades dos cidadãos que as linhas vão cumprir, até porque “em cada floresta, tem de morrer uma árvore para que as outras possam sobreviver”. Uma posição que António Costa acompanha, adicionando que estas obras vão trazer um novo ânimo à economia e contribuem para a recuperação do emprego que a covid-19 ceifou. “É a realização de um trabalho que fica para o futuro”.

A Linha Rosa, também conhecida por Circular, vai integrar quatro estações e três quilómetros de extensão subterrânea, num investimento de cerca de 189 milhões de euros, com data de finalização prevista para Setembro de 2023. A nova ligação vai ter como extremos a zona de S. Bento/Praça da Liberdade e a Casa da Música, passando pelo Hospital de Santo António, Pavilhão Rosa Mota, Centro Materno-Infantil, Praça da Galiza e Pólo Universitário do Campo Alegre. As estações vão ter o cunho do arquitecto Eduardo Souto de Moura - um dos membros do júri do concurso da ponte sobre o Douro -, sendo que a de S. Bento vai ser co-assinada por Álvaro Siza, ambos vencedores do prémio Pritzker.

A construção desta linha resulta da “necessidade de escalar a solução de mobilidade existente, permitindo desembaraçar os eixos mais congestionados da cidade”, de acordo com Tiago Braga, de forma a “devolver espaço e tempo aos cidadãos”.

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No que diz respeito à linha Amarela, está em causa o prolongamento de Santo Ovídio a Vila d’Este – uma urbanização com mais de 15 mil residentes -, em Vila Nova de Gaia, e o objectivo é “servir, de forma mais expressiva, um território carente de qualidade e multiplicidade de oferta, potenciando a troca modal entre o transporte individual e o colectivo”, afirma Tiago Braga. 

A empreitada vai ter um investimento de 98,9 milhões de euros e pressupõe a construção de um viaduto sobre a auto-estrada e de um túnel, bem como dois estaleiros cuja montagem arranca já esta semana, de acordo com o presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues. A nova linha vai ser reforçada com mais três estações (a RTP, o Hospital Santos Silva e Vila d’Este) e vai aumentar a sua extensão em três quilómetros – uma obra que está prevista acabar em Março de 2023.

Com estas duas novas linhas, todos os hospitais da região vão ter um metro à sua porta.

Metro 3.0

António Costa relembra que são estes os tipos de projectos que vão ajudar o país a enfrentar a crise socioeconómica provocada pela pandemia e combater as alterações climáticas, “um dos maiores problemas do mundo pós-covid”. Cerca de 75% das emissões com gases de efeito de estufa são emitidas nas cidades e a chave para as diminuir é através do aumento do investimento público em mobilidade sustentável. "Para ganharmos esse desafio nas cidades é preciso ganharmos esse desafio no transporte público e é por isso que temos metas muito ambiciosas”, acrescentou o primeiro-ministro. 

João Pedro Matos Fernandes considera mesmo que as “obras agora assinaladas vão parecer o novo normal no investimento em mobilidade” e permitirão cumprir a meta fixada para 2030 de redução das emissões de CO2 até 40%.

Estão ainda planeadas para a Área Metropolitana do Porto uma nova linha de metro que liga a Casa da Música a Santo Ovídio, que vai ter um investimento total estimado de 300 milhões de euros, e um autocarro de trânsito rápido (BRT) que vai aproximar a Boavista e a Praça do Império, com um custo de 83 milhões de euros.

Para além disso, está também prevista a construção de uma nova linha para Gondomar, financiada pelo quadro comunitário de apoio num total de 155 milhões, que vai permitir começar uma nova fase da Metro do Porto – a Metro 3.0, como a apelida Tiago Braga. Esta visão, segundo o Presidente do Conselho de Administração da empresa, inclui o reforço da operação em concelhos como Trofa, Maia e Matosinhos e pretende acrescentar, até ao final de década, mais de 40 quilómetros de linha à rede que já conta com 67.

Texto editado por Ana Fernandes