Pós-covid-19: É preciso avaliar os sintomas incapacitantes e a qualidade de vida

A diferenciação dos profissionais, o reforço dos recursos e o processo de vacinação, permitem-nos hoje ter uma perspectiva mais optimista sobre o futuro.

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LUSA/NUNO ANDRÉ FERREIRA

A infecção covid-19 apresenta-se como um dos maiores desafios que a sociedade já enfrentou. A comunidade científica organizou-se no sentido de conhecer os mecanismos da doença e responder rápida e eficazmente, perante uma ameaça que diariamente se reinventa.

Um ano após o início desta pandemia, estamos mais preparados para actuar perante as fases mais críticas da infecção. A diferenciação dos profissionais, o reforço dos recursos e o processo de vacinação, permitem-nos hoje ter uma perspectiva mais optimista sobre o futuro. No entanto, estamos ainda no início de um caminho que se prevê longo e complexo.

Restam poucas dúvidas sobre o potencial de agressividade que este vírus pode ter sobre os diferentes órgãos e sistemas do organismo. Numa altura em que continuamos a acompanhar duras batalhas contra a doença, deparamo-nos com um problema inerente a esta nova realidade. Uma parte muito significativa dos doentes que ultrapassaram a infecção covid-19, mantém sintomas incapacitantes e com grande impacto na sua qualidade de vida, tais como fadiga, baixa tolerância a esforço físico, dificuldade respiratória, fraqueza muscular, labilidade emocional, insónia e dificuldade de concentração, entre outros.

Na doença grave, estas sequelas são a regra dominante, pelo que facilmente se antecipa a necessidade de vigilância e reabilitação prolongadas. No entanto, também nas situações de doença ligeira a moderada, estas queixas são reportadas com elevada frequência após a cura.

Se alguns destes quadros serão transitórios e limitados a um curto período de tempo, outros serão mais persistentes, podendo indiciar uma perda funcional objectivável (respiratória ou cardíaca, por exemplo).

De acordo com os estudos disponíveis à data, parece razoável avaliar estes doentes cerca de seis a oito semanas após a infecção, no sentido de determinar a necessidade de investigação complementar dirigida a estes défices, seja através do exame físico ou da realização de exames complementares de diagnóstico.

Neste sentido, o médico assistente é o profissional indicado para realizar este acompanhamento em consultas específicas pós-covid-19 e, se necessário, solicitar o apoio de outras especialidades.

Recordo-me de um dos primeiros doentes que acompanhei na consulta pós-covid-19 no Hospital CUF Descobertas, em Lisboa, saudável e atleta de triatlo, que posteriormente a um quadro de doença aguda considerado ligeiro, manteve queixas de fadiga e perturbação do sono, com grande limitação no condicionamento físico e mental. Apenas ao fim de 12 semanas, e com treino físico de reabilitação, houve reversão progressiva destes sintomas.

Após a covid-19, pretende-se que o doente seja apoiado em todo o período de recuperação, de modo a que seja possível identificar e intervir precoce e multidisciplinarmente, com o objectivo de evitar que estas sequelas se tornem permanentes. A prioridade estará centrada na promoção da qualidade de vida em todas as suas vertentes - nomeadamente a nível do trabalho, educação (performance intelectual) e mobilidade (performance física e independência).