Entre Tóquio e Dakar, eis o Doclisboa em movimento

Aí está o melhor dos seis programas propostos pelo festival de cinema lisboeta, para desfrutar online em todo o país de 11 a 17 de Março — como se reencontrássemos, finalmente, o Doc de sempre nestes tempos diferentes.

Foto
"Schlingensief – A Voice that Broke the Silence", retrato do artista e encenador alemão Christoph Schlingensief (1960-2010)

Acompanhar o Doclisboa 2020 tem sido, confesse-se, uma frustração. Derivada em parte às circunstâncias invulgares em que vivemos ao longo dos últimos meses devido à pandemia de covid-19, mas também ao próprio risco corrido pela organização desta edição, ao dilatar no tempo um programa cujas “balizas” foram propositadamente diluídas numa organização temática abstracta (quando não abstrusa), sem que os bons títulos propostos saíssem valorizados.

Eis senão quando o último dos seis programas desenhados pelo festival chega ao streaming (entre 11 e 17 de Março, em online.doclisboa.org), e reencontramos o Doc que aprendemos a amar e que nos fez falta este ano. A saber: documentários prescientes, pertinentes, apaixonantes, que se instalam dentro da forma clássica do género para melhor a questionarem do interior.

A esse nível, nenhum talvez seja mais incómodo e perturbante do que Me and the Cult Leader, do japonês Atsushi Sakahara. O seu autor foi, em 1995, uma das vítimas do ataque com gás sarin perpetrado no metro de Tóquio pelo culto Aum Shinrikyo. O culto continua a existir 25 anos depois, embora sob outra forma, e Sakahara filma Hiroshi Araki, um dos seus responsáveis, num filme que oscila desconfortavelmente entre a genuína tentativa de compreender porque é que Araki ainda hoje devota a sua vida ao culto e o deslize para o que parece ser a assunção da superioridade moral do realizador.

O que começa por ser um verdadeiro diálogo moral entre Sakahara e Araki tomba numa manipulação retórica que nos faz perguntar se o cineasta não está apenas à procura de vingança ou retaliação pelo seu sofrimento. Lembramo-nos da “banalidade do mal”, e Me and the Cult Leader parece não falar de outra coisa.

Moral e bons costumes

Nos antípodas de um Sakahara que se filma a si mesmo dentro do seu documentário sobre o outro, o veterano argentino Edgardo Cozarinsky concentra-se em Medium no retrato da pianista octogenária Margarita Fernández, uma “última romântica” que oscila entre a música e o teatro. Porque a música, no fundo, é também teatro — uma encenação de gestos, uma arte de interpretação que é conduta de algo maior (como uma médium) mas também a forma e o espaço de transmissão de uma emoção (um meio).

É um delicadíssimo exercício de homenagem e cumplicidade; que podemos arrumar na mesma gaveta de um filme muito diferente mas igualmente cúmplice, Schlingensief – A Voice that Broke the Silence. Este retrato do falecido artista e encenador alemão Christoph Schlingensief (1960-2010) foi realizado por Bettina Böhler, figura importante do actual cinema alemão (é a montadora de Christian Petzold, bem como de obras de Valeska Grisebach, Margarethe von Trotta ou Thomas Arslan).

Schlingensief foi um dinamitador multimédia da moral e dos bons costumes, confrontando abertamente os silêncios e os esqueletos no armário com uma violência performativa e satírica, na televisão, no cinema, no teatro, na ópera; um agente provocador que acabaria aclamado pelo establishment e que, dez anos depois da sua morte, continua a ter um lugar singular na cena artística alemã. (Por aí podíamos ir ter a uma sua contemporânea igualmente provocadora, a grande Ulrike Ottinger, mas o seu “dever de memória” Paris Caligrammes, escalado para o encerramento do Doclisboa, só será mostrado quando o festival regressar a sala.)

Já que estamos a falar de artistas cuja obra questiona códigos e contextos, é quase inevitável que se vá buscar Jean-Luc Godard. Até porque Juste un mouvement, do belga Vincent Meessen, se constrói a partir do seu clássico de 1967 La Chinoise (em português O Maoísta…) e da sua presciente antecipação dos eventos de Maio de 1968. No entanto, Godard é aqui muito mais uma porta de entrada para explorar a vida e a obra de Omar Blondin Diop (1946-1973), estudante senegalês que esteve envolvido nos movimentos estudantis pré-1968 e que surge em La Chinoise como o camarada que vem ensinar a ortodoxia aos burgueses.

Diop é recordado por familiares e amigos como um “mutante” — “um homem de um tipo novo que quis mudar o tempo” — que queria colocar as suas explorações intelectuais ao serviço da evolução da sociedade senegalesa, capaz de questionar a própria doutrina (“o maoismo não é uma ideologia, é um catecismo para analfabetos”, terá dito a certa altura). Acabou morto aos 27 anos na prisão de Gorée, uma morte rodeada de segredo a mando do regime de Leopold Senghor.

Vincent Meessen, cineasta e artista multimédia, evoca a sua vida num densíssimo meta-ensaio, fascinante biografia de um peão nos jogos político-intelectuais dos anos 1960. Mas também uma meditação sobre o colonialismo na África francófona — que, hoje, se transferiu da dependência directa do imperialismo francês para o soft power económico da China — e uma exploração da praticabilidade das ideologias e das revoluções.

É um dos mais notáveis documentários dos últimos meses, é um objecto extraordinário que encabeça o melhor dos seis programas que o Doclisboa escalou para esta edição atribulada, e do qual fazem ainda parte quatro curtas do americano Kevin Jerome Everson, El Tiempo Perdido da argentina Maria Álvarez e o decepcionante Homelands da sérvia Jelena Maksimovic.